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Sem consenso em Islamabad, EUA e Irã encerram negociações
Após 21 horas de conversações mediadas pelo Paquistão, programa nuclear e controle do Estreito de Ormuz travam acordo de paz; Trump promete fechar via marítima e Vance diz ter feito “oferta final”
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 12/04/2026

As delegações dos Estados Unidos e do Irã encerraram neste domingo (12) as negociações presenciais realizadas em Islamabad, capital do Paquistão, sem chegar a um acordo para pôr fim à guerra no Oriente Médio. Após mais de 21 horas de conversas intensas, o vice-presidente americano, JD Vance, anunciou o fracasso das tratativas e deixou o país, mantendo em suspenso o frágil cessar-fogo de duas semanas firmado na terça-feira anterior (7).

O encontro em Islamabad foi considerado histórico por representar o primeiro contato presencial de alto nível entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979, quebrado um tabu diplomático de quase cinco décadas. O governo paquistanês, que atuou como mediador, declarou dois dias de feriado na capital antes do início das conversas. As delegações reuniram-se separadamente com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, antes das negociações diretas.

Impasse nuclear e exigências nucleares

O principal ponto de discórdia foi a recusa do Irã em assumir um compromisso formal de não desenvolver armas nucleares. Em uma rápida entrevista coletiva antes de deixar Islamabad, Vance afirmou que os Estados Unidos precisam de “um compromisso afirmativo de que eles não buscarão uma arma nuclear e não buscarão ferramentas que lhes permitam desenvolver rapidamente uma bomba atômica”.

O vice-presidente classificou as conversas como “substantivas”, mas ressaltou que o Irã “optou por não aceitar os nossos termos”, o que, segundo ele, é “uma má notícia para o Irã muito mais do que para os EUA”. Vance acrescentou que manteve contato constante com o presidente Donald Trump durante toda a negociação, consultando-o “meia dúzia, talvez uma dúzia de vezes” nas últimas 21 horas.

“Saímos daqui com uma proposta muito simples, um método de entendimento que é a nossa última e melhor oferta. Veremos se os iranianos a aceitam”, concluiu Vance, ladeado pelos enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner.

Três pontos de impasse travam o acordo

Segundo dois funcionários iranianos familiarizados com as negociações, que falaram sob condição de anonimato, três principais pontos de atrito permaneciam sobre a mesa:

  • Reabertura do Estreito de Ormuz – Os Estados Unidos exigiram que o Irã reabrisse imediatamente a via marítima para todo o tráfego de petroleiros. Teerã recusou-se a abrir mão de sua vantagem estratégica sobre o ponto, que concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo, condicionando a abertura a um acordo de paz final.
  • Urânio altamente enriquecido – O Irã acumula aproximadamente 408 kg (cerca de 900 libras) de urânio com 60% de pureza, tecnicamente muito próximo do nível militar de 90% necessário para a produção de uma bomba atômica. A exigência americana era o compromisso firme de enriquecimento zero.
  • Desbloqueio de US$ 27 bilhões – O Irã condicionou qualquer avanço à liberação de cerca de US$ 27 bilhões (aproximadamente R$ 135 bilhões) em receitas de petróleo congeladas no exterior, mantidas em países como Iraque, Luxemburgo, Bahrein, Japão, Catar, Turquia e Alemanha, além de reparações pelos danos causados por seis semanas de bombardeios.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou à televisão estatal que as conversas foram interrompidas devido a uma “diferença de opinião sobre duas ou três questões importantes”, sem mencionar especificamente as armas nucleares.

Acusações recíprocas e desconfiança histórica

As delegações trocaram acusações públicas sobre o fracasso das negociações. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação de Teerã, publicou em uma rede social que o Irã apresentou “iniciativas promissoras”, mas que “o lado oposto não conseguiu conquistar a confiança da delegação iraniana”.

“Os EUA compreenderam a lógica e os princípios do Irã e agora é o momento de decidirem se podem ou não conquistar a nossa confiança”, declarou Ghalibaf. A agência de notícias semioficial Tasnim, por sua vez, atribuiu o fracasso às “exigências excessivas” dos americanos.

A delegação iraniana também apresentou “linhas vermelhas” durante as reuniões com o primeiro-ministro paquistanês, incluindo compensação pelos danos causados pelos ataques israelo-americanos e a libertação dos bens congelados do país. O Irã também exigiu que um eventual cessar-fogo se estendesse ao Líbano, onde Israel mantém ataques contra o Hezbollah, grupo apoiado por Teerã.

Trump promete fechar o Estreito de Ormuz

A reação do presidente Donald Trump foi imediata e de tom agressivo. Após o fracasso das negociações, Trump afirmou que, como o Irã não estaria disposto a abrir mão de “suas ambições nucleares”, a Marinha dos Estados Unidos impedirá a passagem pelo Estreito de Ormuz.

“Também instruí nossa Marinha a buscar e interceptar todas as embarcações em águas internacionais que tenham pago pedágio ao Irã. Ninguém que pagar um pedágio ilegal terá passagem segura em alto-mar. Também começaremos a destruir as minas que os iranianos colocaram no Estreito”, declarou o chefe da Casa Branca.

O estreito, principal via marítima do comércio de petróleo do planeta, foi fechado pelo Irã em resposta à agressão sofrida pelos EUA e por Israel no dia 28 de fevereiro, data que marcou o início dos ataques militares conjuntos contra o território iraniano.

Mesmo antes do fim das conversas, Trump havia minimizado a importância de um possível acordo, afirmando a jornalistas na Casa Branca que, do seu ponto de vista, “não faz diferença” se um consenso for alcançado, alegando que os EUA já estão em posição de vantagem militar e focados na abertura do Estreito de Ormuz.

Mediação paquistanesa e papel do Paquistão

O governo paquistanês, que desempenhou papel central como mediador, reagiu com cautela ao impasse. O ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, pediu que ambas as partes honrem seu compromisso com o cessar-fogo de duas semanas. “É imperativo que as partes continuem a manter o seu compromisso de cessar-fogo”, afirmou Dar.

Dar e o chefe do Exército paquistanês, marechal de campo Asim Munir, ajudaram a mediar as diversas rodadas de “negociações intensas e construtivas entre os dois lados”. O chanceler também anunciou que o Paquistão continuará desempenhando seu papel para facilitar o diálogo entre os dois países nos próximos dias.

A posição do Paquistão, no entanto, é delicada. Analistas apontam que o país enfrenta um possível “cenário de pesadelo” se as negociações entrarem em colapso definitivo. O Paquistão assinou um pacto de defesa mútua com a Arábia Saudita, rival regional do Irã, e pode ser arrastado para o conflito com seu vizinho, o que resultaria no “aquecimento de três fronteiras” do país, já sob tensões com Afeganistão e Índia.

Reações internacionais e oferta de mediação russa

A comunidade internacional acompanhou com preocupação o desfecho das negociações. O presidente russo, Vladimir Putin, ofereceu-se para ajudar a mediar um acordo de paz entre Irã e EUA em uma conversa telefônica com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, realizada neste domingo. O Kremlin divulgou comunicado afirmando que Putin “enfatizou a sua disponibilidade para facilitar ainda mais a busca de uma solução política e diplomática para o conflito”.

Analistas internacionais ouvidos pela imprensa avaliam que as exigências maximalistas de ambos os lados tornavam o acordo improvável. “Dadas as demandas maximalistas de ambos os lados, as negociações estavam fadadas ao fracasso”, disse Jean-Loup Samaan, pesquisador sênior do Middle East Institute da Universidade Nacional de Singapura.

O que esperar do cessar-fogo?

Com o fim abrupto das conversas, o futuro do cessar-fogo de duas semanas, que expira em 22 de abril, permanece incerto. Nenhum dos lados indicou claramente o que acontecerá após o término da trégua, nem se haverá uma nova rodada de negociações.

O Irã, por meio de uma fonte próxima às tratativas ouvida pela agência Fars, afirmou que o país “não tem pressa” para chegar a um acordo com os EUA e que, por ora, não há planos para uma nova rodada de conversas. A ausência de um acordo imediato levanta o espectro da retomada dos combates em uma guerra que já matou milhares de pessoas e interrompeu o fornecimento global de energia.

A guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, levou ao bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz, elevando os preços do petróleo e afetando a economia global. O conflito paralelo de Israel com o Hezbollah, apoiado pelo Irã, intensificou-se ainda mais, com novos bombardeios no sul do Líbano neste sábado (11) deixando ao menos oito mortos.

A análise de especialistas converge para o risco real de escalada. “Até agora não há sinais de que o Irã esteja disposto a rever sua posição nessas questões. Mas, no geral, isso pode rapidamente levar à retomada da guerra”, alertou Samaan.

O encontro em Islamabad, embora não tenha produzido o resultado esperado, representou um avanço simbólico ao romper décadas de ausência de diálogo direto entre Washington e Teerã. No entanto, com as acusações recíprocas, as “linhas vermelhas” de ambos os lados e a iminente ameaça de fechamento total do Estreito de Ormuz por Trump, a janela diplomática que se abriu com o cessar-fogo de duas semanas corre o risco de se fechar antes do previsto.

Com informações de Agência Brasil, Euronews, CNN Brasil, G1, InfoMoney, UOL, Gazeta do Povo, Veja, Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, BBC News Brasil, Xinhua ■

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