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Especular faz parte do jogo de interesses do conglomerado de imprensa que não pode ir contra seus anunciantes. No Brasil, esse fenômeno atinge seu ápice em períodos eleitorais, quando institutos como Datafolha, Ibope e Quaest divulgam cenários com margens apertadas, viradas improváveis e supostas derrotas de candidatos à esquerda – ou, quando convém, à direita. A realidade, porém, é que essas pesquisas representam cerca de 0,001% do eleitorado e são realizadas com amostras de apenas dois mil votos, em um país com mais de 5.570 municípios. Não há como medir uma eleição nacional com tamanha redução sociológica, e o histórico brasileiro está repleto de exemplos em que as pesquisas erraram feio – seja para beneficiar um lado, seja por pura incompetência metodológica.
Mas o problema vai além da técnica. A própria estrutura de poder da mídia revela conflitos de interesse explícitos. Atualmente, as Organizações Globo são sócias-paritárias da Nubank, banco digital presidido por Roberto Campos Neto – ex-presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro. Esse vínculo coloca o maior grupo de comunicação do país como partícipe do discurso uníssono de banqueiros e investidores da Faria Lima. Em um cenário de polarização, onde a esquerda representa ameaça aos rentistas, a especulação de uma derrota de Lula no segundo turno serve perfeitamente aos interesses dos anunciantes e do mercado financeiro.
Casos históricos de manipulação e erro grosseiro das pesquisas
1. 1989 – O ano em que a manipulação foi escancarada
No segundo turno entre Collor e Lula, a Rede Globo editou o último debate de forma tendenciosa, privilegiando Collor. Em seguida, o IBOPE divulgou pesquisa com perguntas vagas que induziam o eleitor a votar no candidato da direita – perguntas como “Você concorda que o Collor é o único que pode acabar com a corrupção?”. O pior, porém, veio a um dia da eleição: o jornal O Globo publicou matéria falsa acusando correligionários do PT de serem os sequestradores do empresário Abílio Diniz. A notícia era uma farsa, mas cumpriu seu papel de criminalizar a esquerda nas vésperas do pleito. Collor venceu, e a imprensa nunca pediu desculpas formais.
2. 2002 – O “empate técnico” que virou vitória esmagadora de Lula
Todas as pesquisas para o segundo turno entre José Serra (PSDB) e Lula (PT) apontavam empate técnico ou vantagem mínima de Serra. O Datafolha da época chegou a divulgar Serra com 48% e Lula com 47% (margem de erro de 2 pontos). Resultado real nas urnas: Lula venceu com 61,3% dos votos válidos – quase dois terços. O erro foi tão grotesco que manchou a credibilidade dos institutos por anos. Nenhum diretor de instituto foi punido.
3. 2006 – A derrota de Jandira Feghali no Senado
No Rio de Janeiro, as pesquisas para o Senado davam larga vantagem a Jandira Feghali (PCdoB), com mais de 45% das intenções de voto, contra cerca de 30% de Francisco Dornelles (PP). A véspera da eleição, o cenário parecia consolidado. Contudo, no dia da votação, Dornelles virou e venceu com 52% contra 48% de Jandira. Os institutos erraram completamente a transferência de votos e o voto de protesto. Mais uma vez, o eleitor real desmentiu as especulações.
4. 2018 – Eduardo Paes favoritíssimo, Wilson Witzel vence em primeiro turno
Nas pesquisas para o governo do Estado do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM) aparecia com mais de 30% das intenções, isolado na liderança, seguido por Índio da Costa (PSD) e Romário (Podemos). Wilson Witzel (PSC) não chegava a 5% em nenhum levantamento. Resultado das urnas: Witzel venceu no primeiro turno com 41% dos votos, contra 19% de Paes. O erro foi histórico e expôs a incapacidade dos institutos de captar a insatisfação popular com a classe política tradicional.
Esses casos demonstram que, mesmo quando a imprensa e os institutos tentam especular um resultado dentro de uma ótica de lógica partidária – favorecendo a direita ou a esquerda conforme o vento dos anunciantes –, no pleito democrático brasileiro vale o voto de cada cidadão, um a um, nas urnas. Nenhuma região é descartada da contagem oficial dos votos válidos, e a soberania popular está na urna eletrônica (ou de papel, conforme o ano).
O cenário atual: Datafolha, Quaest e a sombra de Felipe Nunes
Mais recentemente, o Datafolha – instituto que possui participação de Felipe Nunes, banqueiro dono da Quaest Investimentos e do Instituto Quaest – lançou mais uma especulação contra o eleitorado nordestino. A pesquisa de primeiro turno divulgada pelo Datafolha aponta Lula (PT) com 39%, Flávio Bolsonaro (PL) com 35%, e os demais adversários (Caiado, Zema, Renan Santos, Aldo Rebelo, Cabo Daciolo) com percentuais residuais. Em um eventual segundo turno, segundo o Datafolha, Lula perderia por um ponto percentual para Flávio Bolsonaro.
No entanto, análises mais imparciais, como as da Atlas Intel, indicam exatamente o oposto: Lula venceria no primeiro turno, pois é o único candidato de esquerda contra todos os demais – que dividem os votos da direita e do bolsonarismo. Boulos, Ciro Gomes, Ratinho Jr. e Tarcísio decidiram disputar governos localmente, abstendo-se da disputa federal, o que concentra ainda mais a direita em Flávio Bolsonaro, mas também fragmenta o voto útil. A vitória de Lula no primeiro turno é matematicamente plausível – e os dados da Atlas, com amostras maiores e metodologia transparente, apontam para isso.
Por que, então, o Datafolha insiste em divulgar cenários de derrota do atual presidente? A resposta pode estar no próprio consórcio de interesses: Felipe Nunes é banqueiro, e a Quaest Investimentos tem tudo a ganhar com a instabilidade política e a valorização de ativos financeiros diante de uma possível alternância de poder. Somado a isso, o fato de as Organizações Globo serem sócias da Nubank (presidida por Roberto Campos Neto, ex-BC indicado por Bolsonaro) cria um ambiente de homogeneidade discursiva: a grande imprensa, os bancos e os institutos de pesquisa falam a mesma língua, especulam o mesmo resultado e tentam influenciar o eleitor a repetir o roteiro de 1989.
Contudo, o eleitor brasileiro já provou que não é bobo. Os exemplos de 2002, 2006 e 2018 são provas cabais de que pesquisa não elege ninguém – urna sim. A especulação pode até pautar o noticiário por meses, mas na hora do voto, a consciência de cada cidadão prevalece. E o Nordeste, tão desprezado por essas sondagens de apenas dois mil entrevistados, continua sendo uma região soberana e decisiva, onde Lula mantém altíssima aprovação. Descartar o Nordeste na contagem é ignorar a geografia eleitoral do país.
Portanto, cabe ao leitor olhar com ceticismo para toda pesquisa que promete prever o futuro. O jogo de interesses dos conglomerados de imprensa, associados a banqueiros e à Faria Lima, é antigo, mas a democracia brasileira sobrevive a cada ciclo eleitoral justamente porque o voto é secreto, obrigatório e contado voto a voto – sem a interferência direta de amostras que representam 0,001% da população.
Com informações de Acervo O Globo, Folha de S.Paulo (Datafolha), IBOPE, Atlas Intel, Congresso em Foco, The Intercept Brasil, Poder360, site do TSE, e relatórios históricos de eleições ■