Reportagem de Malu Gaspar detalha diálogos extraídos pela PF, mas versão oficial de Moraes e o sigilo do processo jogam suspeita sobre a cadeia de custódia da informação
A publicação de prints de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro e enviadas ao ministro Alexandre de Moraes (STF) reacendeu o debate sobre a segurança de informações sigilosas no país. Enquanto o blog da jornalista Malu Gaspar, n'O Globo, detalha o conteúdo dos diálogos ocorridos horas antes da primeira prisão de Vorcaro, a versão oficial do ministro e os pedidos da defesa do banqueiro levantam uma questão central: a imprensa teve acesso a um material periciado ou a informações vazadas de forma ilegal?
A reportagem sustenta que as mensagens foram obtidas por meio de extração técnica feita pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro, um procedimento que, em tese, respeita a cadeia de custódia. No entanto, a forma como o material chegou ao domínio público é o cerne da polêmica.
- A versão da reportagem: De acordo com a publicação, a PF utilizou um software específico para recuperar não só os textos, mas o contexto dos envios, incluindo a confirmação de que o número de Moraes recebeu e respondeu às mensagens de Vorcaro com emojis e imagens de visualização única. A jornalista afirma que o número do ministro foi checado e conferido pela reportagem, e que os prints mostram uma conversa que se estendeu das 7h19 às 20h48 do dia 17 de novembro, abordando as tentativas de salvar o Banco Master e menções a um inquérito sigiloso.
- A negativa de Moraes e a dúvida técnica: O ministro Alexandre de Moraes, por meio de nota, rebateu a informação de forma incisiva. A defesa do magistrado alega que, na extração dos dados, os prints das mensagens atribuídas a ele estão, na verdade, vinculados a pastas de "outras pessoas da lista de contatos" de Vorcaro, e não constam como direcionados ao ministro. A nota afirma que se trata de uma "ilação mentirosa" para atacar o STF . Essa versão, no entanto, é contestada pela colunista Míriam Leitão, também n'O Globo, que classificou a negativa como "não crível" diante dos prints publicados.
- O contexto do vazamento: A defesa de Daniel Vorcaro já havia acionado o STF contra o vazamento de dados, afirmando que informações sigilosas, incluindo conversas íntimas e "supostos diálogos com autoridades", estavam sendo divulgadas sem que a própria defesa tivesse acesso ao material completo, recebido apenas em 3 de março de 2026. O ministro André Mendonça, inclusive, já determinou a abertura de um inquérito para investigar a origem desses vazamentos.
- A blindagem de outros personagens: A análise das mensagens também revela que parte da imprensa pode estar exercendo um "vazamento seletivo". Em uma das mensagens, Vorcaro menciona que "amanhã começam as batidas do Esteves", em referência ao banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, um dos principais rivais de Vorcaro no mercado financeiro. Apesar de a referência a Esteves estar nos prints, ela foi ignorada ou suprimida em parte da cobertura, levantando suspeitas sobre uma possível blindagem a determinadas figuras do mercado em detrimento de outras.
Diante desse cenário, a publicação de Malu Gaspar se coloca em uma posição delicada. Se os dados são, de fato, os oficiais da perícia, a reportagem cumpre seu papel de informar sobre diálogos que podem indicar uma relação imprópria entre um ministro da Suprema Corte e um banqueiro sob investigação. No entanto, se as informações são fruto de um vazamento de um "vendedor de dados" dentro da PF, a jornalista estaria servindo de instrumento para a quebra de sigilo funcional e para um jogo de interesses que transcende o factóide.
O que está em jogo não é apenas a veracidade das mensagens, mas a credibilidade da fonte e a higiene do processo investigativo. O inquérito de Mendonça será crucial para definir se a imprensa teve acesso à verdade técnica ou a um dossiê vazado para atender a interesses específicos na guerra da Faria Lima.
Com informações de G1, O Globo, O Tempo, UOL, Jornal do Brasil, Estado de Minas, Estadão, Revista Fórum ■