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O conflito deflagrado em 28 de fevereiro de 2026, com a operação coordenada "Roar of the Lion" (Israel) e "Epic Fury" (EUA), rapidamente evoluiu para uma complexa guerra de desgaste. Diferente dos conflitos assimétricos das últimas décadas, a atual campanha contra o Irã coloca à prova não apenas a superioridade tecnológica ocidental, mas a profundidade de seus estoques de munições diante de um inimigo que se preparou para uma longa batalha de exaustão.
Dados compilados pelo Instituto de Estudos de Segurança Nacional, de Tel Aviv, indicam a intensidade do conflito. Desde o início das hostilidades, o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones contra Israel e bases americanas na região. Em resposta, forças dos EUA e de Israel atingiram cerca de 2.000 alvos iranianos, utilizando mais de 2.000 munições. Apesar do poderio da coalizão, especialistas apontam que a campanha aérea, sozinha, enfrenta desafios logísticos e geográficos imensos.
A narrativa de uma vitória rápida via bombardeio aéreo esbarra na realidade geográfica e estratégica do Irã. Com uma extensão territorial que é o triplo da França e aproximadamente o dobro da soma do Iraque e Afeganistão, e uma população de cerca de 92 milhões de pessoas, o país apresenta um desafio logístico muito superior ao das intervenções americanas pós-11 de Setembro. Fontes do Pentágono admitem que a vastidão do território iraniano torna praticamente impossível localizar e destruir todos os estoques de mísseis escondidos.
Esta geografia acidentada favorece a estratégia de resistência de Teerã. De acordo com a avaliação de analistas militares, o regime iraniano calcula que pode sobreviver a um conflito prolongado, especialmente na ausência de uma invasão por tropas terrestres. A alternativa render-se ou negociar sob fogo representaria uma fratura política interna maior do que suportar os custos de uma guerra nacional. Como afirmou Ali Vaez, diretor do Projeto Irã do International Crisis Group: "A história mostra que ataques externos tendem a consolidar regimes, não a derrubá-los".
A capacidade de produção de mísseis e drones do Irã continua sendo um ponto de pressão. Embora o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, tenha relatado uma queda de 86% nos lançamentos de mísseis balísticos iranianos em relação ao primeiro dia de guerra, Teerã ainda possui a capacidade de produzir grandes quantidades de drones Shahed, que, lançados em enxames, representam um desafio tático significativo para as defesas aéreas.
Do lado da coalizão, a preocupação imediata é matemática. Cada míssil balístico iraniano interceptado exige o disparo de interceptores avançados e caros, como os mísseis Patriot (custo superior a US$ 4 milhões cada) ou os THAAD. A produção anual dos EUA é de aproximadamente 700 mísseis Patriot, um número que pode ser insuficiente diante de uma campanha prolongada de defesa de múltiplas frentes.
Esse gargalo logístico foi evidenciado em junho de 2025, quando os EUA dispararam até 150 interceptadores THAAD para defender Israel de um ataque maciço iraniano. Desde 2010, menos de 650 destes interceptadores foram encomendados. Stacie Pettyjohn, diretora do programa de defesa do Center for a New American Security, alertou que os Estados Unidos poderiam consumir um ano de suprimento de munições em poucos dias de operações sustentadas, caso o Irã consiga realizar várias barragens de grande escala.
A situação força o Pentágono a um cálculo delicado: conservar munições de precisão para cenários futuros (como um potencial conflito com a China ou Rússia) ou manter o ritmo de ataques para proteger aliados e tropas na região. O vice-almirante Charles Cooper já havia destacado em 2025 que o "uso prudente" de mísseis é crítico para preservar as reservas.
Enquanto os EUA recorrem à OTAN e a aliados no Oriente Médio, a resposta da aliança tem sido cautelosa e, em alguns casos, dividida. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou que a aliança, como organização, não está diretamente envolvida nas operações contra o Irã. No entanto, reconheceu que há um "amplo apoio" entre os membros para as ações lideradas pelos EUA, particularmente no que diz respeito ao desmantelamento dos programas nuclear e de mísseis iranianos. A OTAN mantém seus sistemas de defesa antimísseis em alerta, incluindo o sistema Aegis Ashore na Romênia e navios na Espanha, originalmente projetados para responder a ameaças balísticas do Irã.
Contudo, a unidade não é total. A Espanha emergiu como uma voz dissonante dentro da aliança, ao se recusar a permitir o uso das bases militares de Rota e Morón para ataques contra o Irã. O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, justificou a decisão com base no direito internacional e na oposição à guerra, afirmando: "Não seremos cúmplices de algo que é mau para o mundo. Nem sequer por medo de represálias". A postura gerou uma rara crise diplomática com Washington, com o presidente Donald Trump ameaçando cortar relações comerciais com Madri. A ministra da Defesa espanhola, Margarita Robles, rebateu diretamente a declaração de apoio "massivo" de Rutte, afirmando que a Espanha não compartilha dessa opinião.
Analistas enxergam na posição espanhola um eco do movimento anti-guerra de 2003 contra a invasão do Iraque, reforçando uma narrativa de defesa da multilateralidade em detrimento de ações unilaterais. Apesar da pressão, Madri mantém-se firme, o que expõe os limites do consenso na OTAN e a complexidade de gerir uma coalizão em um conflito de alta intensidade com implicações globais.
Para além do campo de batalha, a guerra já impacta os mercados globais. O fechamento virtual do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, fez os preços do petróleo Brent dispararem e os custos de seguro para navios petroleiros quase dobraram. O Irã, detentor de 13% das reservas globais de petróleo (cerca de 208 bilhões de barris), vê sua produção ameaçada, enquanto a demanda global por crude deve subir 10% em 2026, segundo a Agência Internacional de Energia.
A capacidade do Irã de obstruir o tráfego no Ormuz, combinada com sua determinação em retaliar, adiciona uma camada de incerteza econômica que pressiona Washington e seus aliados a buscarem uma resolução, ao mesmo tempo que financia, indiretamente, a máquina de guerra de Teerã através da alta do preço do barril.
Diante deste cenário, a guerra no Oriente Médio se configura como um jogo de paciência e capacidade industrial. De um lado, um Irã que, mesmo isolado e sob fogo, conta com sua geografia e estoques pré-posicionados para sobreviver. Do outro, uma coalizão liderada pelos EUA que, apesar da esmagadora superioridade tecnológica, enfrenta o espectro real da exaustão de seus estoques de munições de alta precisão e as fraturas políticas dentro de suas próprias alianças.
Com informações de The Times of India, India Today, The New Voice of Ukraine, The Indian Express, The New Arab, Stars and Stripes, Small Wars Journal, Anadolu Ajans?, Global Times ■