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O aliado que não quer lutar: milícias iraquianas financiadas pelo Irã se afastam da guerra
Após anos de investimento, Teerã enfrenta a recusa de grupos armados no Iraque em se juntar ao conflito contra Israel e EUA; comandantes locais priorizam negócios e política
Oriente-Medio
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/5485/live/19eaa9a0-14c8-11f1-8007-5bc8640dd651.jpg.webp
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■   Bernardo Cahue, 06/03/2026

O Irã passou anos cultivando e financiando milícias no Iraque como parte de sua estratégia regional, mas no atual momento de confronto direto com Israel e os Estados Unidos, muitos desses grupos não estão dispostos a pegar em armas. De acordo com uma reportagem da agência Reuters, um comandante de um grupo paramilitar pró-iraniano no Iraque, identificado apenas como "AJ" para sua segurança, revelou que as ordens para atacar nunca chegaram e, mesmo que cheguem, acredita que apenas duas ou três das dezenas de facções seriam confiáveis para agir.

"Só não acho que a maioria deles seja mais confiável", disse AJ à Reuters. "Alguns agirão. Outros teriam grupos de fachada que poderiam lançar ataques com negativa. Mas muitos estão apenas cuidando de seus próprios interesses hoje em dia.".

A hesitação das milícias iraquianas contrasta com o investimento de décadas de Teerã e evidencia o que analistas chamam de "Eixo da Resistência" desgastado. A morte de líderes-chave, a perda de rotas de abastecimento na Síria e a integração dos comandantes de milícia à vida política e econômica iraquiana são apontadas como as principais causas para o distanciamento.

O enfraquecimento da estrutura iraniana se acelerou com dois eventos cruciais:

  • Morte de Qassem Soleimani (2020): O assassinato do lendário comandante da Força Quds, que coordenava toda a rede de proxies, em um ataque dos EUA, deixou um vácuo de liderança e coordenação que seu sucessor, Esmail Ghaani, não conseguiu preencher com a mesma autoridade.
  • Queda de Bashar al-Assad e morte de Nasrallah (2024): A perda da Síria como Estado âncora e rota terrestre para o Hezbollah, somada à assassinação do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, por Israel, isolou ainda mais as milícias iraquianas e cortou seu acesso a treinamentos e armamentos avançados.

Essa perda de capacidade militar é evidente nos últimos dias. Embora alguns grupos tenham reivindicado ataques com drones contra bases dos EUA no Iraque e em Erbil, as ações foram descritas como de baixo impacto e usando armamentos ultrapassados. Em Bagdá, uma tentativa de manifestantes pró-Irã de invadir a Zona Verde e atacar a embaixada dos EUA foi contida pela polícia local, sem a presença de comandantes conhecidos das milícias, que no passado lideravam pessoalmente tais investidas.

A transformação dos antigos chefes de guerra em figuras estabelecidas é um fator central para a falta de ímpeto beligerante. Especialistas apontam que muitos desses líderes acumularam riqueza e poder político no Iraque e temem que um confronto direto coloque em risco seu estilo de vida e seus negócios.

  • Interesses pessoais: Líderes de milícias buscam agora acesso a sistemas de saúde ocidentais e educação no exterior para seus filhos, evitando sanções e conflitos que possam ameaçar seu patrimônio.
  • Autonomia de Bagdá: Embora algumas facções como Kataib Hezbollah mantenham laços com Teerã, outras estão mais focadas em consolidar seu poder dentro das instituições iraquianas, como as Forças de Mobilização Popular (PMF), que são oficialmente parte do estado.

Mesmo diante da morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em um ataque aéreo no início da guerra, a resposta das ruas iraquianas não se traduziu em ação militar coordenada. "Onde vocês estão? Se vocês não vêm ficar conosco e queimar a embaixada (americana), são covardes", desafiou um manifestante em vídeo, referindo-se à ausência dos comandantes paramilitares que, em 2019, estavam na linha de frente de um ataque semelhante.

O governo iraquiano, por sua vez, tenta se equilibrar para não ser arrastado para o conflito. Em meio a relatos de que drones disparados contra a Arábia Saudita teriam se originado no Iraque, Bagdá afirmou ter interceptado aparelhos e desarticulado lançamentos de mísseis em seu território.

Os especialistas consultados pela Reuters divergem sobre o futuro. Enquanto alguns acreditam que uma escalada sectária ou um ataque que atinja xiitas de forma ampla poderia reagrupar as milícias, a percepção dominante é a de que a capacidade do Irã de projetar poder por meio de seus proxies no Iraque atingiu seu limite. "Líderes como este só aparecem uma vez", disse AJ, referindo-se a Soleimani e Nasrallah, resumindo o sentimento de que a era de ouro da influência iraniana no Iraque pode ter ficado para trás.

Com informações de Reuters, Stimson Center, The Guardian, Small Wars Journal, Arab News, Times Now, War on the Rocks ■

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