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Entre o fato e a narrativa: a insistência da Globo em enxergar uma crise não confirmada
Ministro da Fazenda desconstrói tese de impacto imediato, mas conglomerado de comunicação persiste em linha editorial que antecipa efeitos que especialistas veem como contidos ou setoriais
Analise
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■   Bernardo Cahue, 03/03/2026

A declaração do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que não há impactos diretos da guerra no Irã sobre o orçamento das famílias brasileiras expõe uma desconexão entre a realidade econômica monitorada pelo governo e o tom adotado por parte da grande imprensa. Enquanto Haddad reforça que a macroeconomia está sólida e que o cidadão comum não sentirá no bolso, de imediato, os efeitos do conflito, a Globo e seus veículos associados parecem empenhados em construir uma narrativa oposta: a de que a crise no Oriente Médio já é, ou será em curtíssimo prazo, um problema para o consumidor brasileiro.

Ao longo dos últimos dias, o conglomerado editorial tem publicado sucessivas reportagens que, sob uma superficialidade factual, carregam um viés claro de antecipar cenários catastróficos para a economia doméstica. A abordagem desconsidera ponderações importantes feitas pelos próprios especialistas ouvidos em suas páginas, criando um descompasso entre manchete e conteúdo.

Uma análise crítica da cobertura revela que:

  • Há um evidente contraponto ignorado: Enquanto Haddad afirma que "mesmo que haja uma turbulência de curto prazo, ela não deve impactar as variáveis macroeconômicas", a linha editorial da Globo insiste em destacar possíveis pressões sobre combustíveis e alimentos como se fossem certezas imediatas, ignorando a ressalva ministerial de que isso só ocorreria "caso o conflito escale".
  • Os dados do agronegócio mostram resiliência, não pânico: O Irã é, de fato, um grande comprador de milho brasileiro (25% das exportações em 2025) e a região é relevante para as carnes. No entanto, como a própria Globo Rural noticiou, a maior parte dos embarques da safra atual já está contratada e ocorre a partir de julho, dando uma margem de tempo para a resolução do conflito. O secretário de Comércio do Ministério da Agricultura, Luis Rua, afirmou à publicação que "o comércio sempre encontra seus caminhos" e que "alimentos muitas vezes têm salvo-conduto".
  • O tom difere da análise de especialistas: Em vez de destacar a resiliência do agronegócio e o papel do Brasil como provedor de segurança alimentar — o que poderia até beneficiar o país —, as manchetes da Globo preferem focar no aumento de custos. Analistas consultados pelo próprio grupo previram que o impacto seria temporário e que "o conflito não deve se alongar".
  • Há uma confusão entre impacto setorial e impacto no bolso: A cobertura mistura, propositalmente ou não, dois fenômenos distintos. Um é o aumento de custos para o agronegócio (com fretes marítimos, seguros e insumos como ureia), que é real e já está sendo monitorado. Outro, completamente diferente, é o repasse imediato desse aumento para o preço final na gondola do supermercado. A cadeia de formação de preços é longa e, por ora, não há qualquer indicador concreto de que esse repasse vá acontecer de forma generalizada. Pelo contrário: a demanda interna aquecida por emprego e renda, citada pela própria Globo em outra reportagem, é um fator de solidez, não de fragilidade.

O resultado é uma cobertura que força uma narrativa de vulnerabilidade que não se sustenta nos fatos. Em vez de esclarecer o leitor sobre a complexidade do momento — com efeitos localizados em setores específicos, mas sem contaminação imediata da inflação ou do orçamento familiar —, a Globo opta por uma simplificação alarmista. A frase "guerra no Irã pode elevar custos no agro" rapidamente se transforma, no imaginário do leitor menos atento, em "preço dos alimentos vai disparar", o que é uma distorção da realidade.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, também já havia ponderado que o conflito, por ora, não exige mudanças drásticas nas projeções. Enquanto isso, a linha editorial da Globo persiste em tentar provar que Haddad está errado, mesmo quando os dados e as vozes autorizadas do setor produtivo — incluindo as que ela mesma entrevista — apontam na direção contrária.

Com informações de: G1, Globo Rural, O Globo, Valor Econômico, CBN ■

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