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A crise nuclear Irã-EUA e os limites da dissuasão no Oriente Médio
Enquanto negociações indiretas se desenrolam em Genebra sob ameaça de um ataque iminente, o tabuleiro geopolítico regional expõe as fraturas de um conflito que transcende a questão atômica e envolve a própria estrutura de poder no Golfo Pérsico
Analise
Foto: https://www.infomoney.com.br/wp-content/uploads/2026/02/ira-eua.jpg
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■   Bernardo Cahue, 28/02/2026

A nova rodada de negociações indiretas entre Estados Unidos e Irã, mediada por Omã em Genebra, ocorre em uma atmosfera carregada pela mais recente escalada militar. O ataque preventivo de Israel contra alvos iranianos, que fez soar as sirenes em Tel Aviv e levou repórteres a se abrigarem às pressas no aeroporto Ben Gurion, é o pano de fundo sonoro de um processo diplomático que o governo de Donald Trump trata como a "última oportunidade" para evitar um conflito de grandes proporções. O que está em jogo não é apenas o enriquecimento de urânio, mas a sobrevivência de um frágil equilíbrio de poder que, desde 1979, define as relações na região.


O programa nuclear iraniano, justamente, é o epicentro dessa tectônica de placas. A posição norte-americana atual vai muito além dos termos do Plano de Ação Conjunto e Completo de 2015. As demandas de Washington, segundo relatos da imprensa internacional, incluem o desmantelamento das principais instalações de Fordow, Natanz e Isfahan, bem como a transferência de todo o estoque de urânio enriquecido (estimado em 10 mil kg) para os EUA, em um acordo de validade permanente, sem cláusulas de expiração. Em contrapartida, Teerã alega que seu programa tem fins pacíficos e exige o fim efetivo das sanções que asfixiam sua economia, oferecendo em troca apenas a possibilidade de novos controles internacionais e a limitação do enriquecimento a 3,67% por um período de sete anos. O impasse é agravado pelo fato de o Irã já ter atingido os 60% de pureza — um limiar técnico que, segundo a AIEA, o coloca a um passo dos 90% necessários para a fabricação de uma ogiva, embora não haja provas de que Teerã tenha dominado a tecnologia para miniaturizar uma bomba e integrá-la a um míssil.


Nesse xadrez, a Guarda Revolucionária Islâmica surge como a peça mais poderosa e complexa do lado iraniano. Criada por Khomeini em 1979 para proteger o novo regime teocrático, a Força Quds é muito mais do que um corpo militar de 125 mil homens. Sob o comando direto do Aiatolá Khamenei, ela se consolidou como um ator político, econômico e militar onipresente, operando de forma independente do exército regular. Seu braço externo, a Força Quds, é o instrumento de projeção de poder do Irã, responsável por treinar, financiar e armar uma rede de aliados que forma o que Teerã chama de "Eixo da Resistência". Apesar de seu poderio assimétrico — que inclui mísseis balísticos de curto e médio alcance, drones e a capacidade de tumultuar o tráfego no Estreito de Hormuz —, analistas apontam que a Guarda não é páreo para o poderio militar convencional dos EUA em uma guerra aberta, embora possa infligir danos significativos às bases americanas na região e aos aliados de Washington.


O confronto, portanto, não se limita a um duelo bilateral. Ele se manifesta por meio de uma clara divisão de aliados regionais. De um lado, os EUA contam com o apoio incondicional de Israel — que vê no programa nuclear uma ameaça existencial e já demonstrou disposição para agir militarmente, como no bombardeio de junho de 2025. Além de Israel, Washington mantém alianças estratégicas com as monarquias do Golfo, que sediam bases militares americanas e veem com preocupação a influência xiita patrocinada pelo Irã. Do lado iraniano, a teia de alianças é mais difusa e opera por procuração. O Irã sustenta grupos como o Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque e na Síria (fundamentais para a sobrevivência de Bashar al-Assad) e os rebeldes Houthis no Iêmen. Em um nível geopolítico mais amplo, Rússia e China atuam como contrapesos diplomáticos e econômicos aos EUA, com Pequim sendo a principal compradora do petróleo iraniano, adicionando uma camada de disputa entre potências globais ao conflito.


Em suma, as negociações de Genebra ocorrem sob a espada de Dâmocles. A estratégia de "pressão máxima" de Trump, que combina uma mobilização militar massiva na região com exigências consideradas inaceitáveis por Teerã, busca forçar uma rendição ou uma mudança de regime. No entanto, essa abordagem corre o risco de concretizar a profecia que diz querer evitar: um conflito generalizado que, como alertou o chanceler iraniano Abbas Araghchi, envolveria toda a região e não traria vencedores. O silêncio das armas em Genebra é, por enquanto, apenas uma trégua tensa em um campo minado.


Com informações de El País, Gulf News, BERNAMA, NDTV, AP News, CNN Brasil, DNA India ■

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