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A expressão "passar a boiada" entrou para o vocabulário político nacional em 2020, quando o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu aproveitar o momento em que a atenção da imprensa estava voltada para a pandemia de Covid-19 para "mudar todo o regramento e simplificar normas" ambientais sem alarde. A lógica era clara: agir rápido, atropelar procedimentos e consolidar factoides enquanto o foco da sociedade está desviado. Passados seis anos, a tática foi reeditada no Congresso, mas com um alvo diferente: o filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A sessão da CPMI do INSS na última quinta-feira (26) não foi apenas mais um capítulo de conflito entre governo e oposição. Ela representa a materialização de uma estratégia de desgaste eleitoral acelerado, onde o método utilizado para aprovar a quebra de sigilo de Lulinha importa menos que o fato de tê-la aprovado a tempo de influenciar as eleições de outubro. A própria Polícia Federal, em documento encaminhado ao STF, já havia ressaltado que "não há indícios" de que o filho do presidente esteja diretamente envolvido nas fraudes do INSS, embora seu nome tenha sido citado nas investigações. Ainda assim, a oposição forçou a aprovação da medida.
O que chama atenção não é o mérito da investigação, mas a manobra regimental considerada "fraudulenta" por governistas. O vídeo da votação simbólica, que circulou amplamente, mostra 14 parlamentares se levantando contra o pacote de requerimentos]. A base do governo, liderada pelo deputado Paulo Pimenta, sustenta que, por serem 21 os titulares presentes, a maioria contrária (14 votos) deveria ter rejeitado a pauta. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), no entanto, considerou o quórum total da reunião anterior (31 congressistas) e declarou vitória da oposição com apenas 7 votos contrários.
Diante da grita generalizada, que resultou em empurra-empurra e agressões físicas entre parlamentares, o cenário escancarou a pressa em "produzir resultados" contra o núcleo político do governo Lula. O recurso protocolado por 14 parlamentares no Conselho de Ética contra Carlos Viana e o pedido de anulação da votação a Davi Alcolumbre evidenciam que, para a base governista, não se trata de uma mera divergência interpretativa, mas de uma quebra deliberada do rito para forçar um resultado político.
Esta ânsia em "passar a boiada" na CPMI pode ser analisada sob três aspectos críticos:
A manobra, no entanto, pode ter efeito reverso. As imagens da confusão, do tapa e da gritaria no Congresso contrastam com a frieza dos números. Até o momento, a comissão identificou movimentações incompatíveis de cerca de R$ 1,2 bilhão, mas nenhum centavo desse montante foi vinculado ao filho do presidente. Enquanto isso, nomes como o de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", seguem como figuras centrais do esquema, sem que a opinião pública associe seu nome a qualquer grande liderança da direita.
O historiador e a expressão "passar a boiada" carregam consigo a ideia de atropelo, de desfaçatez institucional. Quando utilizada por Ricardo Salles em 2020, o objetivo era desregular o ambiente às escondidas. Em 2026, na CPMI do INSS, o objetivo é desgastar o governo às pressas, antes que as urnas digam se a estratégia colou ou não. Resta saber se Alcolumbre, ao analisar as imagens, vai permitir que a boiada passe ou se vai cerrar a porteira.
A sensação que fica é a de que, para a oposição, a verdade factual (os 14 votos contrários) importa menos que a narrativa fabricada (a de que "o governo perdeu"). Enquanto isso, os reais lesados — os aposentados que tiveram seus benefícios dilapidados — seguem em segundo plano, aguardando que, no meio da boiada, alguém lembre que o gado não é apenas moeda de troca eleitoral, mas gente que precisa de respostas.
Com informações de G1, O Globo, Agência Brasil, Brasil de Fato, BBC News Brasil, SBT News, Agência Senado, Observatório do Clima, CUT ■