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A pressa da "boiada": como a direita acelera o desgaste de Lula antes de as urnas fecharem o cerco
Manobra na votação da CPMI do INSS expõe estratégia de atropelo regimental para explorar eleitoralmente o nome do filho do presidente, enquanto investigações sérias contra aliados de Bolsonaro são ignoradas
Analise
Foto: https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Confus%C3%A3o-generalizada-entre-parlamentares-ap%C3%B3s-aprova%C3%A7%C3%A3o-de-quebra-de-sigilo-de-F%C3%A1bio-Lu%C3%ADs-Lula-da-Silva-Lulinha-Foto-Geraldo-Magela-420x280.jpg
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■   Bernardo Cahue, 27/02/2026

A expressão "passar a boiada" entrou para o vocabulário político nacional em 2020, quando o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu aproveitar o momento em que a atenção da imprensa estava voltada para a pandemia de Covid-19 para "mudar todo o regramento e simplificar normas" ambientais sem alarde. A lógica era clara: agir rápido, atropelar procedimentos e consolidar factoides enquanto o foco da sociedade está desviado. Passados seis anos, a tática foi reeditada no Congresso, mas com um alvo diferente: o filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

A sessão da CPMI do INSS na última quinta-feira (26) não foi apenas mais um capítulo de conflito entre governo e oposição. Ela representa a materialização de uma estratégia de desgaste eleitoral acelerado, onde o método utilizado para aprovar a quebra de sigilo de Lulinha importa menos que o fato de tê-la aprovado a tempo de influenciar as eleições de outubro. A própria Polícia Federal, em documento encaminhado ao STF, já havia ressaltado que "não há indícios" de que o filho do presidente esteja diretamente envolvido nas fraudes do INSS, embora seu nome tenha sido citado nas investigações. Ainda assim, a oposição forçou a aprovação da medida.

O que chama atenção não é o mérito da investigação, mas a manobra regimental considerada "fraudulenta" por governistas. O vídeo da votação simbólica, que circulou amplamente, mostra 14 parlamentares se levantando contra o pacote de requerimentos]. A base do governo, liderada pelo deputado Paulo Pimenta, sustenta que, por serem 21 os titulares presentes, a maioria contrária (14 votos) deveria ter rejeitado a pauta. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), no entanto, considerou o quórum total da reunião anterior (31 congressistas) e declarou vitória da oposição com apenas 7 votos contrários.

Diante da grita generalizada, que resultou em empurra-empurra e agressões físicas entre parlamentares, o cenário escancarou a pressa em "produzir resultados" contra o núcleo político do governo Lula. O recurso protocolado por 14 parlamentares no Conselho de Ética contra Carlos Viana e o pedido de anulação da votação a Davi Alcolumbre evidenciam que, para a base governista, não se trata de uma mera divergência interpretativa, mas de uma quebra deliberada do rito para forçar um resultado político.

Esta ânsia em "passar a boiada" na CPMI pode ser analisada sob três aspectos críticos:

  1. Oportunismo eleitoral: Em ano eleitoral, a oposição busca ancorar a campanha no desgaste do governo. A tentativa de vincular Lulinha ao "Careca do INSS" visa transferir para o presidente Lula a pecha de conivência com fraudes, ainda que os documentos não comprovem qualquer relação financeira direta. O cientista político Paulo Niccoli Ramirez, em análise ao BdF, classificou a quebra de sigilo como "medida eleitoreira da bancada da direita para tentar prejudicar a candidatura do Lula".
  2. Seletividade investigativa: Enquanto a CPMI acelera o passo para mirar Lulinha, requerimentos para investigar nomes ligados à direita, como Fabiano Zettel (doador das campanhas de Bolsonaro) e Letícia Caetano dos Reis (ligada a Flávio Bolsonaro), são sistematicamente ignorados na pauta. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, questionou a seletividade: "Não admitimos que seletivamente deixemos de investigar o senhor Fabiano Zettel, sócio de Vorcaro e doador da campanha de Bolsonaro".
  3. Desespero pelo "factoide": Após meses de trabalhos, a CPMI não trouxe grandes novidades além do que a Polícia Federal já havia apurado. A necessidade de justificar a existência da comissão e gerar munição política levou a oposição a forçar a aprovação de um alvo de maior visibilidade midiática, ainda que a própria PF relativize o envolvimento de Lulinha.

A manobra, no entanto, pode ter efeito reverso. As imagens da confusão, do tapa e da gritaria no Congresso contrastam com a frieza dos números. Até o momento, a comissão identificou movimentações incompatíveis de cerca de R$ 1,2 bilhão, mas nenhum centavo desse montante foi vinculado ao filho do presidente. Enquanto isso, nomes como o de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", seguem como figuras centrais do esquema, sem que a opinião pública associe seu nome a qualquer grande liderança da direita.

O historiador e a expressão "passar a boiada" carregam consigo a ideia de atropelo, de desfaçatez institucional. Quando utilizada por Ricardo Salles em 2020, o objetivo era desregular o ambiente às escondidas. Em 2026, na CPMI do INSS, o objetivo é desgastar o governo às pressas, antes que as urnas digam se a estratégia colou ou não. Resta saber se Alcolumbre, ao analisar as imagens, vai permitir que a boiada passe ou se vai cerrar a porteira.

  • 14 parlamentares se levantaram contra os requerimentos.
  • 7 votos foram os declarados pelo presidente da CPMI para aprovar a pauta.
  • R$ 1,2 bilhão é o montante suspeito de movimentação ilegal, sem ligação com Lulinha até o momento.
  • 2 minutos foi o tempo da confusão que derrubou a transmissão ao vivo e expôs a fragilidade do rito legislativo.

A sensação que fica é a de que, para a oposição, a verdade factual (os 14 votos contrários) importa menos que a narrativa fabricada (a de que "o governo perdeu"). Enquanto isso, os reais lesados — os aposentados que tiveram seus benefícios dilapidados — seguem em segundo plano, aguardando que, no meio da boiada, alguém lembre que o gado não é apenas moeda de troca eleitoral, mas gente que precisa de respostas.

Com informações de G1, O Globo, Agência Brasil, Brasil de Fato, BBC News Brasil, SBT News, Agência Senado, Observatório do Clima, CUT ■

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