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A direita entre o vazio programático e a estratégia do confronto institucional
Em ano eleitoral, campo conservador prioriza pautas como anistia e impeachment, silencia sobre políticas públicas e expõe fragilidade de uma agenda que ignora as demandas concretas da população
Analise
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■   Bernardo Cahue, 26/02/2026

O ano legislativo de 2026 começou sob o signo da polarização, mas com um traço distintivo no campo da direita: a ausência de uma agenda social estruturada. Enquanto a base do governo Lula tenta imprimir ritmo a pautas como a revisão da escala 6x1, a ampliação da isenção do Imposto de Renda e o reajuste do salário mínimo, a oposição concentra seus esforços em temas de caráter político-institucional — anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, derrubada de vetos presidenciais e um ataque cerrado ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Esta assimetria revela um fenômeno mais profundo: a direita brasileira, hegemonizada pelo bolsonarismo, parece ter abdicado de disputar o imaginário popular por meio de propostas concretas de bem-estar social, refugiando-se em pautas que alimentam sua base mais radical, mas que pouco dialogam com as urgências da maioria da população. A ofensiva contra direitos sociais, nesse contexto, não se dá apenas pelo que se propõe, mas principalmente pelo que se omite e pelo que se obstrui.

Ao contrário do que se poderia esperar de uma força política que almeja governar o país, os partidos de direita iniciaram o ano legislativo sem apresentar um conjunto claro de prioridades nas áreas de saúde, educação, moradia ou trabalho. Procurados pela reportagem do Diario de Pernambuco, parlamentares e senadores preferiram não se manifestar oficialmente sobre uma eventual estratégia legislativa mais ampla para o ano. Interlocutores ouvidos sob reserva confirmaram que, até o momento, não há consenso interno nem definição de prioridades voltadas à área social.

Este vazio contrasta com a efervescência das ruas e com as pesquisas de opinião, que apontam a segurança pública como a maior preocupação dos brasileiros (31%), seguida de perto por temas como emprego, renda e acesso a serviços básicos. A direita, no entanto, parece operar em uma bolha institucional, mais preocupada em pautar o impeachment de ministros do STF e a "anistia" do que em oferecer respostas para a violência urbana ou para a precarização do trabalho.

O que move essa ofensiva? A resposta parece estar na centralidade simbólica e política do bolsonarismo. Como analisa o cientista político Rodrigo Dias, da UnB, o bolsonarismo se consolidou menos como um projeto de país e mais como um projeto de poder centrado em lealdades pessoais e no antagonismo permanente. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência reforça essa lógica, empurrando o conjunto da direita para uma posição reativa e pouco propositiva.

Celso Fernandes Júnior, cientista político da UFPB, avalia que a direita carece de uma "agenda institucionalizada capaz de combinar conservadorismo, liberalismo econômico e compromisso democrático". Enquanto o campo seguir organizado em torno da centralidade do bolsonarismo, a renovação tende a ser limitada — mesmo com o surgimento de novos nomes.

As consequências dessa estratégia para os direitos sociais são múltiplas:

  • Obstrução sistemática: a oposição utiliza sua força no Congresso para travar pautas trabalhistas, como a redução da jornada de trabalho (PEC do fim da escala 6x1), que mobiliza centrais sindicais e movimentos populares. A estratégia declarada é "não deixar votar de jeito nenhum", concentrando forças nas comissões para evitar que o texto chegue ao plenário.
  • Desidratação de políticas públicas: ao priorizar a derrubada de vetos presidenciais e a obstrução da pauta governista, a direita contribui para a paralisia decisória do Executivo, inviabilizando avanços em áreas como habitação, transferência de renda e valorização do salário mínimo.
  • Silêncio seletivo: casos emblemáticos, como a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco, escancaram a diferença de tratamento. Enquanto lideranças da esquerda celebraram a decisão do STF como um passo contra a impunidade política, a direita — incluindo o governador Cláudio Castro e a família Bolsonaro — optou pelo silêncio absoluto.
  • Confronto institucional como cortina de fumaça: a ofensiva contra o STF, materializada em PECs que limitam decisões monocráticas e alteram a forma de escolha dos ministros, desvia o foco do debate público das questões sociais para uma guerra entre poderes que interessa apenas aos nichos mais radicalizados do eleitorado.

Do outro lado do espectro político, a esquerda e os movimentos sociais tentam ocupar o vazio deixado pela direita. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo reafirmaram, em plenária nacional, a unidade em torno de uma agenda positiva para o país, com destaque para o fim da escala 6x1, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a taxação dos super-ricos. A Marcha da Classe Trabalhadora, marcada para 15 de abril em Brasília, promete levar às ruas a pressão por direitos que o Congresso conservador insiste em ignorar.

O governo Lula, por sua vez, tenta usar a "polarização social" como ferramenta de mobilização. Na avaliação de cientistas políticos, o presidente recorre ao discurso de "pobres versus super-ricos" para recuperar popularidade, preservar a governabilidade e barrar o avanço da direita no Legislativo. A estratégia, inspirada no presidente colombiano Gustavo Petro, aposta na pressão popular para constranger o Congresso e aprovar pautas trava.

Ao que tudo indica, o embate de 2026 não se dará apenas no terreno das ideias, mas no confronto direto entre duas concepções de Estado: uma que reduz direitos a "benesses" e concentra sua energia no confronto institucional; outra que, mesmo com limites e contradições, tenta recolocar a questão social no centro do debate. Para a direita, o desafio será demonstrar se é capaz de superar o vazio programático e apresentar algo além do antipetismo e da defesa de pautas identitárias. Para a esquerda, a missão é transformar a mobilização social em força política capaz de furar o bloqueio conservador no Congresso.

O risco, como alerta o analista Pedro Alcântara, é que a esquerda se contente com um "programa mínimo" e com a luta puramente institucional, abandonando a disputa por maioria social e permitindo que a direita, mesmo sem propostas, continue a pautar o país a partir de sua estratégia do caos. A ofensiva contra direitos sociais, afinal, não se faz apenas com projetos de lei, mas com a paralisia do Estado e a desesperança do povo.

Com informações de Diario de Pernambuco, Gazeta do Povo, Estado de Minas, CUT, O Globo, Revista Fórum, CNN Brasil ■

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