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Lava Jato 2.0: a crise que opõe o STF e a Globo
Operação da PF contra servidores da Receita expõe racha na Corte e reacende debate sobre métodos jornalísticos e lawfare
Analise
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■   Bernardo Cahue, 19/02/2026

A deflagração de uma operação da Polícia Federal, no dia 16 de fevereiro de 2026, para apurar o vazamento de dados sigilosos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus familiares aprofundou a tensão entre setores da Corte e a grande imprensa. O que era uma investigação sigilosa aberta em janeiro pelo ministro Alexandre de Moraes transformou-se em um campo de batalha político e midiático, com acusações de abuso de autoridade, perseguição e a ressuscitação de um fantasma que muitos acreditavam enterrado: a Lava Jato.

O estopim da crise foi a revelação, pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, de detalhes de contratos milionários envolvendo familiares de ministros. A principal delas expôs que o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes, firmou um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master para atuar em sua defesa junto a órgãos federais. Outra reportagem, também de Gaspar, mostrou que irmãos do ministro Dias Toffoli negociaram participação em um resort com um fundo ligado ao mesmo banco. As reportagens, feitas com base em documentos da investigação que levaram à liquidação do Banco Master, geraram um terremoto político e motivaram a reação de Moraes.

Em 13 de janeiro, Moraes, no exercício da presidência interina do STF, abriu de ofício um inquérito para investigar se houve acesso indevido a dados sigilosos de ministros e parentes por parte de servidores da Receita Federal e do Coaf. A medida, incomum por não ter partido da Procuradoria-Geral da República (PGR), mirou diretamente a origem das informações que abasteciam as reportagens sobre os contratos.

A operação de fevereiro, que cumpriu mandados de busca e apreensão contra quatro servidores da Receita nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, confirmou os temores de uma ala do STF. Os investigados foram afastados, tiveram que usar tornozeleiras eletrônicas e seus passaportes foram cancelados. A justificativa era a venda de dados sigilosos, mas a reação interna na Corte foi imediata e contundente.

De acordo com reportagens da coluna de Malu Gaspar, reproduzidas por diversos veículos, dois ministros do STF, ouvidos sob reserva, classificaram a ação de Moraes como "absurda" e viram "indícios de abuso de autoridade". O principal incômodo residiu no fato de Moraes não ter comunicado seus pares sobre as suspeitas de que seus dados estavam sendo acessados, nem sobre o pedido para que a Receita verificasse possíveis acessos ilegais a informações de cerca de 100 pessoas.

Para esses ministros, a medida teria características de uma "fishing expedition" (pesca probatória), uma prática genérica de busca por provas, outrora duramente criticada quando atribuída à força-tarefa da Lava Jato. A ironia não passou despercebida nos bastidores: a mesma metodologia investigativa que condenou réus na operação que marcou a década passada agora era empregada por um ministro do STF, gerando um desconforto que levou um magistrado a manifestar seu descontentamento ao presidente da Corte, Edson Fachin. O temor de parte do STF é que Moraes esteja usando a devassa para se blindar das investigações que o envolvem e à sua esposa, num "efeito Orloff" — olhar para o colega Toffoli e ver o próprio futuro.

O cerne da discórdia jornalística, no entanto, reside na natureza dos dados vazados. O comentarista do vídeo que motiva esta análise acusa diretamente Malu Gaspar de ser a destinatária final e beneficiária dos dados fiscais ilegalmente acessados. No entanto, uma análise mais aprofundada, como a feita pelo jornalista Alex Solnik no Brasil 247, aponta uma inconsistência crucial nessa linha de acusação.

Solnik argumenta que os dados fiscais acessados pelos servidores da Receita, alvos da operação, referem-se exclusivamente a declarações de Imposto de Renda e transações bancárias. Os contratos publicados por Malu Gaspar, como o da esposa de Moraes com o Banco Master e o dos irmãos de Toffoli com o resort, são contratos entre particulares e, portanto, não fazem parte das bases de dados da Receita Federal ou do Serpro.

A tese mais plausível, sustentada por esse raciocínio, é que as informações obtidas por Gaspar tenham origem em documentos apreendidos pela Polícia Federal durante as investigações sobre o Banco Master e que posteriormente teriam vazado para a imprensa. Se correto, isso significa que:

  • O objeto da investigação de Moraes (vazamento de dados fiscais da Receita) não se confunde com a origem das reportagens de O Globo (documentos de investigação da PF).
  • A jornalista pode ter exercido seu ofício a partir de vazamentos de fontes, o que, por si só, não configura crime, conforme precedente do STF no caso das matérias de Glenn Greenwald sobre a Lava Jato.

O cerco, portanto, parece ter múltiplas frentes:

  1. Financeira: Investiga-se a complexa teia de negócios do Banco Master e suas conexões com familiares de ministros do STF, cujos contratos (ou esboços, pois nem sequer foram assinados nem registrados em cartório) vieram a público.
  2. Funcional: Investiga-se a conduta de servidores da Receita que acessaram indevidamente dados sigilosos de autoridades, um crime contra a administração pública.
  3. Jornalística: No campo político e midiático, tenta-se, segundo a análise do vídeo, desqualificar o trabalho da imprensa que noticiou os fatos, associando jornalistas a uma conspiração golpista e a uma "Lava Jato 2.0", com o objetivo de desestabilizar o governo e minar a imagem do STF para beneficiar uma candidatura de extrema-direita.

Ao afirmar que "todos aqueles que estiveram no golpe contra Dilma e todos aqueles que apoiaram a Lava-Jato" estão agora engajados em atacar o STF, o comentarista do vídeo oferece uma chave de leitura política para o conflito. Ele enxerga a defesa da imprensa a Malu Gaspar como uma tentativa de proteger não a jornalista em si, mas o modus operandi de um setor que, em sua visão, sempre atuou para desestabilizar governos populares. O "pânico nas redações" a que se refere seria, portanto, o medo de que a investigação de Moraes escancare não apenas o vazamento de dados, mas uma rede de financiamento e articulação política contra o atual governo e o STF.

O episódio expõe uma crise de confiança multifacetada. Há um racha no STF sobre os limites da atuação de seus próprios membros. Há um conflito entre o STF e a imprensa, que se vê sob ameaça de investigações que podem ser interpretadas como retaliação. E há um profundo divórcio entre os fatos apurados e as narrativas construídas nas redes sociais e na mídia alternativa, cada lado acusando o outro de manipulação e má-fé. Enquanto a PF não concluir seu trabalho e determinar a real origem dos vazamentos e o destino dos dados, o que resta é um cenário de alta voltagem política, onde a verdade é a primeira vítima.

Com informações de UOL Notícias, Valor Econômico, Brasil 247, O Globo, Estadão Conteúdo ■

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