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O voto consciente e o caráter nacional: da ascensão de Flávio à estratégia do clã Bolsonaro
A resiliência eleitoral de uma família que transforma condenações e crises em capital político, enquanto articula um plano para dominar o Congresso e desafia as instituições
Analise
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■   Bernardo Cahue, 15/02/2026

O cenário político brasileiro de 2026 oferece um paradoxo que desafia a lógica da ciência política clássica e testa os limites da memória institucional do eleitor. A pergunta que ecoa nos corredores do poder e nas rodas de análise é incômoda: o que define o caráter de um voto quando um eleitorado consciente se dispõe a apoiar, majoritariamente, um projeto de poder familiar cujo patriarca foi condenado criminalmente por tentativa de golpe e assassinato? Os números são claros e, para muitos, estarrecedores. Segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em fevereiro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) consolidou-se como o principal adversário do presidente Lula (PT), marcando 29% das intenções de voto contra 35% do petista no primeiro turno, e 42% a 47% no segundo turno . Os números indicam que, longe de ser um entrave, a herança política e judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro parece ter sido convertida em combustível para a candidatura do filho mais velho.

Flávio, que se autodenomina nos bastidores como a voz da "direita moderada" , surfou na onda do sobrenome e conseguiu o que parecia improvável há poucos meses: unificar a direita em torno de seu nome, atraindo 92% do eleitorado bolsonarista e 65% do eleitor de direita não-bolsonarista . Este desempenho acontece paralelamente à confirmação da condenação de seu pai. Em setembro de 2025, Jair Bolsonaro foi sentenciado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de liderança de organização criminosa armada, tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito . Mais grave ainda: o processo que levou à condenação do ex-presidente está diretamente ligado à trama que resultou na culpabilidade de oito militares e um policial pelo planejamento do assassinato do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e do ministro Alexandre de Moraes, num plano que ficou conhecido como "Puñal Verde e Amarelo" .

Diante deste abismo entre a gravidade dos fatos e a resposta das urnas, a análise jornalística crítica precisa mergulhar nos detalhes mais profundos dessa estratégia familiar e no seu significado para a saúde democrática do país.

  • A consolidação do espólio eleitoral: A pesquisa Quaest demonstra que Flávio não apenas herdou os votos do pai, como conseguiu estabilizar sua própria rejeição em 55% . O desafio, agora, é romper a bolha ideológica e atrair o eleitor independente, algo que dependerá crucialmente da percepção da economia . Sua recente turnê pela Europa e Oriente Médio para se apresentar como estadista é uma clara tentativa de construir uma imagem que vá além do "filho de" .
  • A ocupação estratégica do Legislativo: Enquanto Flávio foca no Palácio do Planalto, o clã articula uma operação de cerco ao Congresso Nacional. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro é pré-candidata ao Senado pelo Distrito Federal . O vereador Carlos Bolsonaro, mesmo sem domicílio eleitoral prévio no Sul, foi lançado ao Senado por Santa Catarina, atendendo a um pedido do pai preso, numa jogada que causou crise com lideranças locais . Já Jair Renan, o "filho 04", tentará um voo mais alto, saindo da vereança em Balneário Camboriú para uma candidatura a deputado federal, também por Santa Catarina . O objetivo declarado por aliados é eleger uma bancada de ao menos 35 senadores para, nas palavras de um ex-ministro, controlar a Casa que pode destituir ministros do STF e aprovar impeachments .

Este movimento de ocupação de múltiplos front e em diferentes estados revela uma estratégia calculada para, independentemente do resultado da eleição presidencial, blindar a família e garantir poder de fogo institucional. A fala de Michelle Bolsonaro em novembro de 2025, quando afirmou que "o Congresso está de joelhos em frente ao STF" e que "só quem governa é o Judiciário" , ecoa agora como um discurso de campanha coordenado, mirando exatamente nas cadeiras que pretende ocupar para mudar essa correlação de forças. A crítica ao STF, responsável pela condenação do patriarca, é o principal motor dessa mobilização eleitoral.

Paralelamente à ofensiva eleitoral interna, uma frente internacional se mantém ativa. Enquanto Flávio viaja como candidato, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) encontra-se fora do país . Nos bastidores, articulações de Eduardo com setores da direita internacional, incluindo a aproximação com o governo do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, são vistas por analistas como uma tentativa desesperada de angariar apoio para uma anistia ao pai. Durante o julgamento de Bolsonaro, a Casa Branca de Trump chegou a ameaçar usar "poder econômico e militar" em defesa da "liberdade de expressão" no Brasil, num movimento interpretado pelo Itamaraty como uma interferência inaceitável . Essa costura externa, alimentada pela narrativa de "perseguição política", visa deslegitimar o sistema de justiça brasileiro e criar um fato político internacional que force uma saída negociada para o ex-presidente.

  1. O Paradoxo do Voto Consciente: Se o voto consciente é aquele que pondera o passado e o projeto de poder do candidato, o cenário atual expõe uma fratura na noção de "caráter". Para 29% do eleitorado (e mais de 40% no segundo turno), a condenação do patriarca por assassinato tentado não é um impeditivo, mas sim um atestado de perseguição que valida ainda mais o grupo. O caráter, neste espectro, é medido pela lealdade ao grupo e pela resistência às instituições acusadoras, não pela adequação a princípios jurídicos universais.
  2. A Financeirização da Política Familiar: A estratégia de lançar múltiplos candidatos em diferentes redutos eleitorais maximiza o fundo partidário e o tempo de TV. Com Michelle no DF, Carlos em SC e Flávio no RJ, a família pulveriza sua influência e garante uma presença capilarizada na propaganda eleitoral obrigatória, transformando o sobrenome Bolsonaro numa marca nacional onipresente.
  3. A Sombra da Anistia: Todo este movimento eleitoral tem um pilar invisível: a liberdade de Jair Bolsonaro. A eleição de uma bancada expressiva no Congresso é a principal aposta da família para, em 2027, pautar um projeto de anistia que anule as condenações do patriarca. O "exílio" de Eduardo e suas conversas com players internacionais são a outra ponta dessa corda, tentando criar um clamor externo que pressione o Congresso brasileiro.

O cenário de 2026, portanto, transcende a mera disputa eleitoral entre esquerda e direita. Ele configura um plebiscito sobre a memória institucional do país. O eleitor brasileiro é chamado a decidir se a tentativa de assassinato de um presidente eleito e a abolição do Estado Democrático de Direito são fatos históricos a serem punidos ou meros capítulos de uma disputa política que podem ser relevados em nome de um projeto de poder. A alta cotação de Flávio nas pesquisas sugere que, para uma parcela significativa da população, o caráter do voto está dissociado da culpa judicial, ancorando-se na identificação identitária e na promessa de um choque contra as instituições. O futuro da democracia brasileira, mais uma vez, equilibra-se nesta delicada e perigosa fronteira.

Com informações de: A Gazeta, El Nuevo Día, A TARDE, UOL Notícias, G1, Congresso em Foco, BBC News Mundo, ND Mais, Diario de Pernambuco ■

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