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Lavrov: plano de paz a Gaza é vago
Choques de interesses internacionais continuam a ser o principal obstáculo para uma solução duradoura, segundo ministro russo
Leste Europeu
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■   Bernardo Cahue, 09/02/2026

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que o plano de paz americano para o Oriente Médio é demasiadamente vago sobre pontos cruciais, como a criação de um Estado palestino. A declaração ocorre em meio a uma frágil trégua em Gaza, marcada pela violência intermitente e uma crise humanitária catastrófica.

Em outubro de 2025, Lavrov foi direto ao apontar as lacunas do plano proposto pela administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Notamos que o plano de paz de Donald Trump aborda apenas a Faixa de Gaza. Ele menciona a questao do Estado [palestino], mas em termos bastante gerais", declarou o chanceler a jornalistas de países árabes. Ele enfatizou a necessidade de detalhar essas abordagens, especialmente em relaçao ao futuro da Cisjordânia.

Apesar das críticas, Lavrov expressou que a Rússia espera que todos os acordos alcançados entre Israel e o Hamas sob o plano sejam implementados. No entanto, a realidade no terreno mostra uma trégua extremamente frágil.

Trégua Frágil e Violência Recorrente

Um cessar-fogo mediado pelos EUA entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, pausando uma campanha militar intensa. Contudo, desde entao, o fogo israelense matou pelo menos 530 pessoas em Gaza, a maioria civis, segundo autoridades de saúde locais. A violência persiste, como demonstrado nos ataques de quarta-feira (4 de fevereiro de 2026), quando bombardeios de tanques e ataques aéreos israelenses mataram 21 pessoas, incluindo quatro crianças.

O Exército israelense justificou a ação afirmando que respondeu a um atirador que feriu gravemente um soldado. Esse episódio ilustra como qualquer incidente pode reacender o conflito em larga escala, minando os esforços de paz.

Passo Simbólico: A Reabertura Limitada de Rafah

A reabertura da passagem de Rafah, que liga Gaza ao Egito, era uma das exigências do cessar-fogo de outubro e um componente do plano americano. Após mais de um ano fechada, sua reabertura limitada na segunda-feira (2 de fevereiro de 2026) gerou uma mistura de esperança e "imensa apreensão".

As restrições, porém, são severas:

  • Israel permite a entrada e saída de apenas cerca de 50 palestinos por dia, e apenas a pé.
  • O processo de retorno para residentes que deixaram Gaza durante a guerra é complexo, exigindo autorizaçao prévia israelense e múltiplas verificaçoes.
  • Apen dois dias após a reabertura, a evacuaçao médica de pacientes foi interrompida devido aos recentes combates.

A situaçao é desesperadora para milhares de feridos. "Neste prédio sozinho, há cerca de 100 pacientes que precisam de encaminhamento médico, e o número de feridos à espera de viagem chega a cerca de 13 mil", disse Farid al-Qassas, um homem ferido, em protesto. Mais de 18.500 pacientes em Gaza, incluindo 4.000 crianças, aguardam tratamento no exterior.

O Pano de Fundo: Uma Crise Humanitária de Proporções Históricas

A crítica de Lavrov ocorre diante de um cenário de devastação sem precedentes. Relatórios de 2025 descrevem:

  1. Vítimas em massa: Mais de 69.000 palestinos foram mortos, incluindo mais de 19.000 crianças, e mais de 170.000 ficaram feridos desde o início do conflito.
  2. Fome e doença: Especialistas declararam fome extrema em partes de Gaza. A privação de água potável e saneamento básico levou a surtos de doenças.
  3. Destruição total: 78% de todos os edifícios em Gaza foram danificados, 97% das escolas foram afetadas e o sistema de saúde está colapsado.

Um relatório da Comissão de Inquérito da ONU concluiu, em setembro de 2025, que Israel cometeu atos de genocídio em Gaza. O Tribunal Penal Internacional (TPI) mantém mandados de prisão válidos contra autoridades israelenses, como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Os Múltiplos Interesses em Conflito

O "choque de interesses internacionais" mencionado por Lavrov reflete-se em várias frentes:

  • Os EUA e o "Board of Peace": A administração Trump planeja avançar para a segunda fase de seu plano, incluindo uma reunião de cúpula do "Board of Peace" (Conselho da Paz) em 19 de fevereiro de 2026, focada na reconstrução de Gaza. Netanyahu aceitou o convite para que Israel participe do conselho.
  • A Crítica Russa: Além da vaguidão sobre o Estado palestino, a Rússia acusa os EUA de usar métodos "flagrantemente desleais" para dominar o setor energético global, uma competição geopolítica que afeta conflitos regionais.
  • A Comunidade Internacional Dividida: Enquanto tribunais internacionais pressionam Israel, o apoio político e militar de aliados-chave persiste. Simultaneamente, a desconfiança em relaçao ao Hamas, cujo ataque em 7 de outubro de 2023 deu início à guerra, complica qualquer negociaçao.

Questões essenciais para uma paz duradoura, como a retirada das forças israelenses de grande parte de Gaza e o desarmamento do Hamas, permanecem sem solução. Enquanto isso, a população palestina vive um contínuo estado de medo e incerteza. Como resumiu Sam Rose, diretor interino de Assuntos da UNRWA em Gaza: "Vemos dinâmicas realmente concorrentes aqui: por um lado, progresso positivo... e, no entanto, nas últimas 24 horas, 30 palestinos foram mortos em ataques aéreos durante um cessar-fogo".

Com informações de Reuters, U.S. News & World Report, Anadolu Agency (AA), UN News, Human Rights Watch (HRW), Tricontinental: Institute for Social Research, Moon of Alabama e U.S. Department of State ■

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