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Crise humanitária invisível: sistema de saúde de Gaza entra em colapso
Apesar de um acordo de paz anunciado, ataques continuam a alvejar profissionais de saúde e milhares de pacientes seguem sem tratamento, enquanto a ajuda humanitária enfrenta obstáculos
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 07/02/2026

Um cessar-fogo teoricamente em vigor desde outubro de 2025 não conseguiu trazer alívio real para a população de Gaza, onde o sistema de saúde foi deliberadamente desmantelado após mais de dois anos de guerra. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1.800 ataques a instalações e trabalhadores de saúde foram registrados nos territórios palestinos ocupados desde outubro de 2023, resultando em mais de 1.000 mortes. Especialistas descrevem a situação como um assalto direto aos princípios do direito internacional que protegem civis e serviços médicos durante conflitos.

A violência continua ativa. Apenas em 4 de fevereiro de 2026, bombardeios israelenses mataram 21 pessoas em Gaza, incluindo quatro crianças, e forçaram o fechamento da passagem de Rafah, vital para a evacuação de pacientes. Esse padrão se repete: um ataque aéreo em Khan Younis no início de fevereiro matou o paramédico Hussein Hassan Al-Samiri, de 48 anos, do Crescente Vermelho Palestino, enquanto sua equipe tentava resgatar feridos. Ele foi o quarto profissional de saúde morto desde o início do cessar-fogo. Relatos detalham a tática de "ataque duplo": um primeiro bombardeio é seguido por um segundo, deliberadamente direcionado às equipes de resgate e ambulâncias que respondem ao incidente inicial.

O resultado é um sistema de saúde em ruínas:

  • Mais de 1.700 profissionais de saúde palestinos foram mortos desde outubro de 2023.
  • Mais de 90% dos hospitais em Gaza foram destruídos pelas forças israelenses.
  • Cerca de 20.000 pacientes permanecem presos dentro de Gaza, incluindo 4.500 crianças que precisam urgentemente de tratamento não disponível no território.
  • Mais de 1.200 pacientes morreram aguardando permissão para deixar Gaza e receber tratamento que salvaria suas vidas.

A abertura limitada da passagem de Rafah na fronteira com o Egito, uma exigência do plano de paz, mostrou-se insuficiente e instável. Após uma reabertura em 2 de fevereiro, Israel interrompeu a travessia de pacientes dois dias depois. Enquanto isso, a evacuação médica é um processo lento e burocrático: em 26 de janeiro, a OMS conseguiu facilitar a evacuação de apenas 24 crianças para a Jordânia, e em 2 de fevereiro, apenas cinco pacientes em estado crítico foram autorizados a sair. Israel argumenta que aprovou a saída de milhares de feridos, mas alega que há falta de lugares nos países receptores. Uma alegação veementemente rejeitada pelo Egito, que afirma ser “uma tentativa deliberada de transferir a responsabilidade”.

O inverno agrava a crise humanitária. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) reporta que 11 crianças já morreram de hipotermia em Gaza. Famílias deslocadas vivem em tendas superlotadas e alagadas, com surtos de doenças se espalhando rapidamente: mais de 88.600 infecções respiratórias agudas e aproximadamente 11.000 casos de diarreia aquosa aguda foram reportados recentemente, afetando principalmente crianças. A expectativa de vida em Gaza despencou de aproximadamente 74 anos para cerca de 35 anos devido à violência, fome, deslocamento e doenças.

Paralelamente, a ajuda humanitária enfrenta obstáculos estruturais. Israel anunciou a revogação das licenças de operação para 37 organizações não-governamentais (ONGs) internacionais a partir de 2026, incluindo Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Caritas. A justificativa é o não cumprimento de novas regras de registro que exigem, entre outras coisas, a lista completa de funcionários. As organizações se recusam, temendo que os dados sejam usados para “fins de inteligência ou militares”, colocando seus colaboradores locais em risco. A MSF alerta que, se perder o acesso, centenas de milhares de palestinos poderiam ficar sem cuidados médicos essenciais.

O debate internacional reflete a gravidade e as divisões sobre a crise. Em uma acalorada sessão do Conselho Executivo da OMS em fevereiro, a Arábia Saudita, representando os estados do Mediterrâneo Oriental, descreveu uma situação catastrófica, enquanto Israel criticou os relatórios da organização por serem “desatualizados e distorcidos”. Enquanto isso, no Conselho de Segurança da ONU, discute-se o frágil avanço do plano de paz abalado pela “violência quase diária” que persiste no terreno.

Com informações de: Al Jazeera, G1, OCHA (United Nations), NPR, Opera Mundi (UOL), O Globo, Health Policy Watch, Rádio Renascença, Security Council Report ■

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