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O Estado do Rio de Janeiro emerge como epicentro de um dos capítulos mais graves do colapso do Banco Master, com duas de suas principais entidades públicas – a Rioprevidência e a Cedae – envolvidas em aplicações bilionárias que agora estão sob o crivo da Polícia Federal, do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Enquanto a operação "Barco de Papel" da PF avança, as investigações começam a desvendar um padrão inquietante: a exposição deliberada de recursos públicos a riscos extremos, muitas vezes em desrespeito a alertas formais dos órgãos de controle.
O prejuízo potencial para os cofres fluminenses é monumental. Somados, os investimentos diretos e indiretos da Rioprevidência no conglomerado de Daniel Vorcaro podem chegar a R$ 2.6 bilhões, segundo apurou o corpo técnico do TCE-RJ. Já a Cedae aplicou R$ 218 milhões e, apesar de ter resgatado cerca de R$ 40 milhões às vésperas do colapso, provisionou perdas de R$ 222.6 milhões. Esse rombo, em última instância, recairá sobre os contribuintes e o já combalido erário estadual, conforme análise de especialistas em finanças públicas.
As operações das empresas estaduais fluminenses se desenrolaram enquanto o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, já apresentava claros sinais de decomposição. O banco cresceu de forma agressiva entre 2019 e 2024 com um modelo baseado na emissão de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com taxas acima do mercado, uma estratégia que se tornou insustentável quando a captação de novos recursos secou. Em setembro de 2025, o Banco Central rejeitou a venda do Master para o BRB, um acordo que poderia salvar a instituição, deixando-a sem saída.
Em 18 de novembro de 2025, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas do grupo, citando crise de liquidez, violações de normas e comprometimento financeiro. A quebra deixou um rombo estimado em R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que precisará indenizar milhões de clientes. Investigadores da Operação "Compliance Zero" da PF suspeitam que o banco tentou vender R$ 12.7 bilhões em carteiras de crédito falsas ao BRB.
O caso mais expressivo e grave é o da Rioprevidência, fundo que administra o patrimônio de 235 mil aposentados e pensionistas do estado. Entre novembro de 2023 e julho de 2024, a autarquia aplicou aproximadamente R$ 970 milhões em Letras Financeiras (LF) emitidas pelo Banco Master. O risco era agravado pelo fato de que esses títulos de longo prazo (vencimento em 2033/34) não tinham a cobertura do FGC, deixando o patrimônio previdenciário totalmente desprotegido.
O TCE-RJ, no entanto, identificou que a exposição foi ainda maior. Além das LFs, a Rioprevidência injetou quase R$ 850 milhões em fundos de investimento (Arena, Revolution e Texas I) ligados ao conglomerado Master entre maio e julho de 2025. O mais grave: esses novos aportes foram feitos após um alerta formal e contundente do tribunal. Em abril de 2025, o TCE já havia apontado que 8% de todos os recursos do fundo estavam no Master, uma exposição "altamente arriscada", e advertiu que novos investimentos implicariam em responsabilidade pessoal dos gestores.
O caso da Companhia Estadual de Águas e Esgotos segue um roteiro perturbadoramente similar. Em 2023, a empresa de saneamento investiu R$ 218 milhões em CDBs do Banco Master. Relatórios internos obtidos pela CBN mostram que, em setembro de 2025, diante do aumento do risco após a rejeição do BC à venda para o BRB, a Cedae tentou resgatar o valor. A resposta do banco foi um plano de retirada parcelada, um sinal claro de dificuldades. A Cedae conseguiu resgatar cerca de R$ 40 milhões antes que o banco deixasse de cumprir o acordo e fosse liquidado.
Com base em denúncia de um deputado estadual, o TCE-RJ aprovou por unanimidade a abertura de uma investigação, cujo relator, conselheiro Rodrigo Nascimento, afirmou haver "indícios de irregularidades" e "fragilidades" na política de investimento. A Cedae, em nota, afirmou que seguiu normas de compliance e governança e que prestará todos os esclarecimentos.
A análise dos dois casos revela um modus operandi recorrente na gestão de recursos públicos fluminenses durante o período:
O cenário atual é de múltiplas frentes investigativas. A Polícia Federal conduz as operações "Compliance Zero" (sobre o Master) e "Barco de Papel" (sobre a Rioprevidência). O TCE-RJ tem processos abertos sobre os investimentos tanto da Rioprevidência quanto da Cedae. Paralelamente, a Procuradoria-Geral do Estado e a Controladoria Geral do Estado também investigam os casos.
O governador Cláudio Castro, cujo partido (PL) abriga as indicações políticas para a cúpula da Rioprevidência no período dos fatos, ainda não se pronunciou de forma contundente sobre as responsabilidades político-administrativas do caso. Enquanto isso, os contribuintes e servidores do Rio de Janeiro aguardam para saber qual será o custo final de uma gestão que, nas palavras do próprio TCE, evidenciou uma "gestão possivelmente irresponsável dos recursos" públicos.
Com informações de BBC News Brasil, CBN, G1, InfoMoney, CNN Brasil, Valor Econômico, Bloomberg ■