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A imagem do “juiz herói”, incorruptível e solitário no combate à corrupção, foi meticulosamente construída na esfera pública brasileira. Sérgio Moro, o magistrado que conduziu a Lava Jato em Curitiba, foi alçado a essa condição, aparecendo em capas de revistas como um “herói nacional” em meio ao que se vendia como uma epopeia moral. No entanto, essa narrativa heroica, amplificada e raramente questionada por um segmento poderoso da imprensa, escondia uma realidade mais complexa e sombria: uma operação de lawfare com métodos ilegais, objetivos políticos e uma simbiótica relação com parte da mídia, que atuou menos como fiscal e mais como assessoria e caixa de ressonância.
A recente escalada das investigações, que levaram à busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba por ordem do ministro Dias Toffoli (STF), não é um capítulo isolado. Ela é o desdobramento lógico de denúncias que, por anos, foram tratadas com descrédito ou silenciadas por aqueles que nutriam o mito. A Polícia Federal agora comprova ilegalidades que eram consideradas “teorias da conspiração”, como o uso de colaboradores para grampear ilegalmente autoridades com foro privilegiado e a posse de materiais de chantagem, como o vídeo da “festa da cueca” com desembargadores do TRF-4. Essas práticas, conforme apurado, remetem ao modus operandi de máfias, com o uso de dossiês para controlar instâncias superiores que deveriam revisar seus atos.
O tratamento dado a essas revelações pela grande mídia evidencia seu vínculo anterior com o projeto lavajatista. Enquanto o caso “Vaza Jato” – que em 2019 expôs diálogos comprometedores entre Moro e procuradores – foi um ponto de inflexão que obrigou autorreflexão em parte do jornalismo, outra parte seguiu numa linha defensiva ou de silêncio seletivo. Agora, com provas materiais descobertas pela PF, o incômodo é maior. O contraste é gritante: o mesmo veículo que estampou Moro como salvador da pátria hoje, ao noticiar as buscas, dá amplo espaço à sua defesa que classifica as investigações como “meramente políticas”, enquanto o relato do delator Tony Garcia, corroborado por provas, é tratado com distanciamento. Essa disparidade no destaque e no enquadramento não é acidental; é herança de uma prática enraizada.
Analisando essa relação, é possível identificar mecanismos claros de atuação:
Os “equívocos” de Moro, como a prisão de Guido Mantega no hospital onde a esposa combatia um câncer ou a divulgação ilegal do áudio entre Lula e Dilma, eram frequentemente minimizados ou justificados como excessos de zelo, quando não ignorados. Críticas de ministros do STF, como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, que anularam suas decisões por excesso de competência e ilegalidade, recebiam menos destaque do que suas condenações de primeira instância. Essa assimetria na narrativa foi crucial para manter a aura de infalibilidade e legitimar ações que, vistas em conjunto, pavimentaram a ascensão do bolsonarismo ao deslegitimar instituições e adversários políticos.
O momento atual é de descompressão dessa narrativa. A investigação sobre o aparelho Vocale R3, que gravou 30 mil ligações na sede da Lava Jato sem controle judicial, simboliza o cerco final a um modus operandi que sempre operou nas fronteiras da legalidade. A imprensa se vê agora diante do espelho: pode continuar reproduzindo as negativas genéricas de Moro, que chama tudo de “mentiras fantasiosas de criminosos”, ou pode assumir um papel verdadeiramente crítico e investigativo, cobrando as mesmas respostas que, em outros tempos, exigia apenas de um lado.
A história da relação entre o conglomerado de mídia e Sérgio Moro é um estudo de caso sobre como o quarto poder pode se tornar um poder instrumental. Ela mostra que a construção de um herói midiático muitas vezes requer silenciar seus métodos e amplificar apenas seus feitos. O desmonte desse herói, agora em curso nas barras dos tribunais, é também um teste para a capacidade de autorregulação e aprendizado do jornalismo brasileiro. O preço do lavajatismo, afinal, não foi pago apenas na esfera jurídica ou política, mas também na credibilidade de instituições fundamentais, incluindo a própria imprensa.
Com informações de: The Intercept Brasil, Migalhas, El País Brasil, SINDSEP-PE, Brasil de Fato, CartaCapital, Consultor Jurídico (ConJur), Veja. ■