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O ponto de passagem de Rafah, na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, foi reativado para o trânsito de pessoas nesta segunda-feira após quase dois anos de fechamento total. A abertura, realizada sob um rígido esquema de segurança coordenado por Israel, Egito e uma missão da União Europeia, é um elemento-chave da segunda fase do plano de cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos, mas suas restrições severas a tornam, por enquanto, um gesto mais simbólico do que uma solução para a crise humanitária.
O cruzamento estava fechado desde maio de 2024, quando o exército israelense assumiu o controle do lado palestino durante sua ofensiva terrestre. Sua reabertura estava prevista para a primeira fase do acordo de paz, mas Israel condicionou a medida à devolução dos restos mortais de todos os reféns mantidos em Gaza. A liberação do corpo do último refém na semana passada removeu o obstáculo final.
A operação está longe de ser uma reabertura plena. O organismo militar israeli (COGAT) autorizou apenas uma "circulação limitada" de pessoas a pé, excluindo totalmente a entrada de ajuda humanitaria ou mercadorias por este ponto. Os números do primeiro dia ilustram a escala mínima:
Essas cotas são ínfimas perante a demanda real. Autoridades de saúde em Gaza estimam que cerca de 20.000 doentes e feridos precisam desesperadamente de tratamento no exterior. Paralelamente, o governo local em Gaza afirma que aproximadamente 80.000 palestinos que fugiram para o Egito durante o conflito buscam permissão para retornar.
O mecanismo de controle estabelecido é complexo e mantém a autoridade final nas mãos de Israel:
A reabertura gera reações mistas e profundas preocupações. Para famílias separadas e pacientes em estado crítico, como Rawa, uma adolescente de 16 anos com doença renal que precisa de um transplante de sua mãe, é um vislumbre de esperança. No entanto, grupos humanitários e o Egito temem que o desequilíbrio entre o número de saídas e entradas seja uma ferramenta para alterar a demografia de Gaza, esvaziando-a gradualmente de sua população.
O contexto político é volátil. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, defende a medida como parte do plano de seu aliado, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, afirmando que leva ao desarmamento do Hamas "pela via fácil (acordo) ou dura (reanudação ofensiva)". Internamente, ele enfrenta críticas de ministros de linha dura que consideram a abertura um erro. O Hamas, por sua vez, acusa Israel de usar "afirmações falsas" para justificar violações do cessar-fogo.
Paralelamente, Israel intensificou a pressão sobre organizações não governamentais (ONGs) que atuam em Gaza. O Ministério da Diáspora ordenou que a Médicos Sem Fronteiras (MSF) cessasse suas operações antes de 28 de fevereiro por se recusar a fornecer uma lista detalhada de seus funcionários palestinos, uma exigência aplicada a todas as agências de ajuda. Pelo menos oito outras ONGs internacionais declararam que também desobedecerão à ordem, chamando-a de "linha vermelha" que coloca suas equipes em risco e politiza a ajuda humanitária. A MSF, responsável por 20% dos leitos hospitalares de Gaza em 2025, alertou que a expulsão agravará ainda mais o colapso do sistema de saúde.
O futuro do corredor de Rafah permanece incerto e vinculado aos frágeis avanços do "Plano Trump". A segunda fase do acordo, que esta reabertura ajuda a inaugurar, prevê metas complexas: a reconstrução e desmilitarização total de Gaza, o desarmamento do Hamas e o replégue das tropas israelenses para zonas próximas à sua fronteira. Enquanto isso, para os dois milhões de habitantes de Gaza, Rafah segue sendo uma porta entreaberta, sob a vigilância constante de um olho digital israelense.
Com informações de El Mundo, CNN, El País, EFE, BBC, DW, teleSUR, NPR, Al Jazeera e France 24 ■