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Pacientes de Gaza em situação de incerteza em após "reabertura" da passagem de Rafah por Israel
Pacientes palestinos enfrentam critérios obscuros, vagas limitadas e lentidão que pode levar mais de um ano para esvaziar a lista de espera por tratamento
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 02/02/2026

Após quase dois anos completamente fechada, a passagem de fronteira de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito, foi reaberta de forma limitada e piloto na segunda-feira (02/02/2026). Anunciada como um alívio para a grave crise humanitária, a medida permite, em um primeiro momento, a saída de apenas 50 pacientes por dia, acompanhados por até dois familiares, além da entrada de 50 palestinos que deixaram Gaza durante a guerra e desejam retornar. O movimento é realizado exclusivamente a pé e sob um rigoroso sistema de controle de segurança coordenado por Israel e Egito, com supervisão de uma missão de agentes da União Europeia.

A reabertura ocorre no âmbito da segunda fase do acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, que começou a vigorar em outubro. Israel havia condicionado a abertura à devolução do corpo do último refém israelita mantido em Gaza, o que ocorreu na semana passada. A passagem, que é o único ponto de entrada e saída de Gaza não controlado diretamente por Israel, estava sob ocupação militar desde maio de 2024.

A dimensão da crise médica: milhares de vidas em espera

Os números revelam uma discrepância chocante entre a necessidade urgente e a capacidade limitada da reabertura:

  • 20.000 pacientes aguardam para deixar Gaza e receber tratamento médico no exterior, segundo o Ministério da Saúde local e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Deste total, mais de 11.000 são pacientes com câncer. A única unidade especializada em oncologia em Gaza foi destruída por Israel em março de 2025.
  • Mais de 900 pessoas, incluindo crianças e pacientes com câncer, já morreram enquanto aguardavam pela evacuação, de acordo com a OMS.

A lentidão do processo é matemática: ao ritmo de 50 saídas diárias, seriam necessários mais de um ano apenas para atender à lista atual de pacientes, sem contar novos casos. Histórias individuais dão rosto a essa espera angustiante. Rimas Abu Lehia, de 15 anos, teve o joelho esquerdo destruído por um projétil israelita há cinco meses. "Minha vida depende da abertura da passagem", disse a adolescente, que hoje depende de uma cadeira de rodas para se locomover. Dalia Abu Kashef, de 28 anos, não resistiu: ela faleceu na semana passada à espera de uma autorização para cruzar a fronteira e realizar um transplante de fígado.

Obstáculos logísticos e incertezas

Além da severa limitação numérica, o processo de travessia enfrenta outros entraves:

  1. Triagem de segurança: Todos os viajantes necessitam de uma autorização prévia de segurança israelita, em um processo conduzido em coordenação com o Egito.
  2. Ausência de garantias de retorno: Um dos motivos para a lentidão das evacuações, segundo um oficial da ONU, é que muitos países relutam em aceitar pacientes porque Israel não garante que eles poderão retornar a Gaza posteriormente.
  3. Proibição de tratamento na Cisjordânia: Israel baniu, desde o início da guerra, o envio de pacientes para hospitais em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, que antes era a principal via de tratamento para os gazenses.

O contexto político e a fase dois do cessar-fogo

A reabertura de Rafah é um marco político dentro do frágil plano de paz. A primeira fase do cessar-fogo, em vigor desde outubro, previa a troca de reféns e prisioneiros e um aumento na ajuda humanitária. A segunda fase, agora em andamento, é mais complexa e inclui:

  • A instalação de um novo comitê palestino para governar Gaza.
  • O desarmamento do Hamas.
  • A retirada progressiva das tropas israelitas.
  • O início da reconstrução do território, devastado após mais de dois anos de guerra.

A chanceler da União Europeia, Kaja Kallas, descreveu a abertura do cruzamento como um "passo concreto e positivo no plano de paz". No entanto, a ONU e organizações humanitárias alertam que as restrições atuais estão longe de atender às demandas reais da população, pressionando por uma abertura mais ampla que permita também a entrada sem obstáculos de ajuda humanitária.

Com informações de: Euronews, The Guardian, Al Jazeera, Swissinfo, CBN, BBC, RFI, Associated Press ■

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