Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
O fracasso de bilheteria e a crítica unânime ao 'documentário' de Melania Trump
Produção de US$ 75 milhões da Amazon, acusada de ser propaganda política, enfrenta salas vazias e descrédito artístico em sua estreia mundial
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQOfY1Ehqh3Wp9L3WcGVprxYTeq4NKlp4MgAg&s
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 31/01/2026

A estreia mundial do documentário "Melania", que acompanha os 20 dias da primeira-dama americana até a posse do presidente Donald Trump em 2025, tem sido marcada por três elementos incontornáveis: um orçamento estratosférico, salas de cinema quase desertas e críticas severas que o classificam como uma peça de propaganda política chapa-branca. Com um investimento total de US$ 75 milhões (US$ 40 milhões pelos direitos e US$ 35 milhões em marketing) da Amazon MGM Studios, o filme produzido pela própria Melania Trump e dirigido por Brett Ratner falhou em atraçar o público e gerou desconfiança sobre os reais motivos por trás do investimento milionário.

O contexto do lançamento é carregado de tensão. A exibição privada na Casa Branca para convidados como o CEO da Apple, Tim Cook, ocorreu no mesmo dia em que agentes federais mataram Alex Pretti em Minneapolis, gerando protestos e acusações de insensibilidade por parte da administração Trump. Internamente, a decisão de realizar o filme causou desconforto na Amazon, com funcionários instruídos a não se recusarem a trabalhar nele por motivos políticos, em uma decisão vista como vinda diretamente da alta liderança da empresa.

Estratégia de Marketing Opulenta vs. Realidade Gélida das Bilheterias

A Amazon montou uma campanha de marketing agressiva e onipresente, incluindo comerciais durante jogos da NFL, outdoors, anúncios em ônibus e até a tomada da icônica Sphere em Las Vegas. A estratégia de lançamento previa um lançamento amplo, em 1.500 a 3.300 salas globalmente, algo incomum para um documentário. Apesar do bombardeio promocional e dos posts de Donald Trump em suas redes sociais afirmando que os ingressos estavam esgotando, a realidade foi brutalmente diferente:

  • Nova York: Em um cinema da AMC perto da Times Square, apenas 12 pessoas assistiram a uma sessão, sendo metade jornalistas. Um espectador resumiu: "Não é um filme cativante".
  • Londres: A recepção foi ainda mais gélida. Para a primeira sessão internacional na capital britânica, apenas um ingresso havia sido vendido antecipadamente.
  • Projeções Financeiras: Espera-se que o filme arrecade entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões em seu fim de semana de estreia nos EUA, um valor irrisório diante do custo total, indicando um prejuízo colossal para a Amazon.

Conteúdo Superficial e a Construção de uma Narrativa Edificante

O filme, sob controle editorial total de Melania Trump, opta por uma abordagem superficial e altamente controlada. A narrativa se concentra em detalhes cerimoniais e estéticos, evitando qualquer profundidade política ou pessoal genuína. As cenas mostram Melania:

  1. Revisando amostras de tecidos e designs de vestidos com seu estilista Hervé Pierre.
  2. Discutindo a decoração dos aposentos da Casa Branca com a designer de interiores Tham Kannalikham.
  3. Participando de videoconferências protocolares, como uma com a primeira-dama francesa Brigitte Macron para discutir cyberbullying.
  4. Visitando uma catedral para acender uma vela em memória de sua mãe, seu momento de maior candor no filme.

O diretor Brett Ratner, que retorna à direção após múltiplas acusações de má conduta sexual (que ele nega), falha em extrair qualquer insight real. Seu estilo é descrito como obsequioso, com momentos como um zoom recorrente nos sapatos de Melania e uma fala fora da câmera ao final que deseja "doces sonhos, Mr. President". A presença de Donald Trump no filme é limitada, mas decisiva: sua aparição transforma "Melania" definitivamente em um filme sobre ele, usando a imagem polida da esposa para suavizar sua própria figura pública controversa.

As Acusações de Propaganda e Suborno Corporativo

A reação crítica foi unânime em classificar o projeto como propaganda, e não como documentário legítimo. Analistas apontam:

  • Objetivo Político Transparente: Críticos veem o filme como uma ferramenta de relações públicas de 104 minutos para a família Trump, criando uma narrativa de nobreza e sofisticação em contraste direto com a realidade conturbada do governo.
  • Questões Éticas do Financiamento: O valor exorbitante pago pela Amazon levou a sérias acusações de tentativa de comprar influência com a Casa Branca. Ted Hope, ex-executivo da Amazon, questionou: "Como isso não pode ser interpretado como uma tentativa de obter favores ou um suborno descarado?".
  • Timing Cínico: O lançamento e as celebrações em meio a protestos por violência estatal foram vistos como um acinte, destacando o distanciamento entre a narrativa edulcorada do filme e o contexto político real.

Um Episódio Sintomático das Relações entre Poder e Mídia

"Melania" transcende o fracasso comercial e artístico para se tornar um estudo de caso sobre poder, imagem e mídia na era contemporânea. Ilustra como figuras públicas buscam controlar rigidamente sua narrativa através de formatos que simulam transparência, mas que na verdade são produções autocongratulatórias. Para a Amazon, representa uma guinada estratégica clara e onerosa para se alinhar com o poder estabelecido, arriscando seu capital reputacional. Por fim, o silêncio quase total das plateias nas salas de cinema parece ser a crítica mais eloquente ao projeto: um desinteresse público rotundo por uma narrativa considerada artificial, desconectada e, acima de tudo, desnecessária.

Com informações de: Folha de S.Paulo, BBC, G1, The Guardian, Rolling Stone Brasil, CNN Brasil, Correio da Manhã, Los Angeles Times ■

Mais Notícias