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A estreia mundial do documentário "Melania", que acompanha os 20 dias da primeira-dama americana até a posse do presidente Donald Trump em 2025, tem sido marcada por três elementos incontornáveis: um orçamento estratosférico, salas de cinema quase desertas e críticas severas que o classificam como uma peça de propaganda política chapa-branca. Com um investimento total de US$ 75 milhões (US$ 40 milhões pelos direitos e US$ 35 milhões em marketing) da Amazon MGM Studios, o filme produzido pela própria Melania Trump e dirigido por Brett Ratner falhou em atraçar o público e gerou desconfiança sobre os reais motivos por trás do investimento milionário.
O contexto do lançamento é carregado de tensão. A exibição privada na Casa Branca para convidados como o CEO da Apple, Tim Cook, ocorreu no mesmo dia em que agentes federais mataram Alex Pretti em Minneapolis, gerando protestos e acusações de insensibilidade por parte da administração Trump. Internamente, a decisão de realizar o filme causou desconforto na Amazon, com funcionários instruídos a não se recusarem a trabalhar nele por motivos políticos, em uma decisão vista como vinda diretamente da alta liderança da empresa.
Estratégia de Marketing Opulenta vs. Realidade Gélida das Bilheterias
A Amazon montou uma campanha de marketing agressiva e onipresente, incluindo comerciais durante jogos da NFL, outdoors, anúncios em ônibus e até a tomada da icônica Sphere em Las Vegas. A estratégia de lançamento previa um lançamento amplo, em 1.500 a 3.300 salas globalmente, algo incomum para um documentário. Apesar do bombardeio promocional e dos posts de Donald Trump em suas redes sociais afirmando que os ingressos estavam esgotando, a realidade foi brutalmente diferente:
Conteúdo Superficial e a Construção de uma Narrativa Edificante
O filme, sob controle editorial total de Melania Trump, opta por uma abordagem superficial e altamente controlada. A narrativa se concentra em detalhes cerimoniais e estéticos, evitando qualquer profundidade política ou pessoal genuína. As cenas mostram Melania:
O diretor Brett Ratner, que retorna à direção após múltiplas acusações de má conduta sexual (que ele nega), falha em extrair qualquer insight real. Seu estilo é descrito como obsequioso, com momentos como um zoom recorrente nos sapatos de Melania e uma fala fora da câmera ao final que deseja "doces sonhos, Mr. President". A presença de Donald Trump no filme é limitada, mas decisiva: sua aparição transforma "Melania" definitivamente em um filme sobre ele, usando a imagem polida da esposa para suavizar sua própria figura pública controversa.
As Acusações de Propaganda e Suborno Corporativo
A reação crítica foi unânime em classificar o projeto como propaganda, e não como documentário legítimo. Analistas apontam:
Um Episódio Sintomático das Relações entre Poder e Mídia
"Melania" transcende o fracasso comercial e artístico para se tornar um estudo de caso sobre poder, imagem e mídia na era contemporânea. Ilustra como figuras públicas buscam controlar rigidamente sua narrativa através de formatos que simulam transparência, mas que na verdade são produções autocongratulatórias. Para a Amazon, representa uma guinada estratégica clara e onerosa para se alinhar com o poder estabelecido, arriscando seu capital reputacional. Por fim, o silêncio quase total das plateias nas salas de cinema parece ser a crítica mais eloquente ao projeto: um desinteresse público rotundo por uma narrativa considerada artificial, desconectada e, acima de tudo, desnecessária.
Com informações de: Folha de S.Paulo, BBC, G1, The Guardian, Rolling Stone Brasil, CNN Brasil, Correio da Manhã, Los Angeles Times ■