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A transformação do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) dos EUA sob o governo Trump evoluiu para um patamar que especialistas em segurança, acadêmicos e organizações de monitoramento de ódio consideram sem precedentes na história moderna americana. Mais do que uma expansão burocrática, a agência está passando por uma reconfiguração ideológica e operacional, adotando táticas, estética e retórica associadas a grupos extremistas, enquanto reduz drasticamente os padrões de treinamento e contratação. O resultado, conforme apontam análises, é a criação de uma força paramilitar com crescente caráter político-partidário, levantando paralelos históricos preocupantes com regimes autoritários que instrumentalizam instituições estatais para repressão política.
O processo vai além de meras acusações. Ele é evidenciado em três frentes interligadas: 1) o uso de mensagens e símbolos de “código” (dog whistles) da supremacia branca em campanhas oficiais de recrutamento; 2) a relaxamento intencional dos padrões de contratação e treinamento, que facilita a entrada de indivíduos com ideologias extremistas; e 3) a estruturação e emprego da força de maneira paramilitar, com mandato ampliado para atuar contra civis e opositores políticos do presidente. “Trump está usando essas forças basicamente da maneira como um autoritário usa uma força paramilitar, para realizar suas próprias rixas pessoais, infligir dor, violência e desconforto em pessoas que ele vê como inimigos políticos”, afirmou o jornalista investigativo Radley Balko, especialista em militarização policial.
A relação entre o ICE e grupos de ódio como os Proud Boys não se resume a suposições. Documentação de organizações como o Southern Poverty Law Center (SPLC) e reportagens de veículos estabelecidos mostram vínculos tangíveis:
Essa aproximação cria uma perigosa simbiose. Enquanto o governo adota a retórica e a missão desses grupos (a “defesa” da pátria contra uma “invasão”), as milícias extremistas veem suas agendas sendo executadas pelo próprio Estado. Como analisou a especialista Wendy Via, do Global Project Against Hate and Extremism, para grupos como os Proud Boys, “quando você tem a aplicação da lei disposta a abusar de seus poderes, por que se meter em problemas?”. Em outras palavras, o ICE tornou-se o braço armado que esses grupos almejavam ser.
O ICE não está apenas se comportando como uma força paramilitar; academicamente, ele atende a essa definição. A professora de governo Erica De Bruin, que estuda forças de segurança estatais, explica que o termo “paramilitar” abrange tanto forças policiais altamente militarizadas quanto grupos armados informais e partidários usados para manutenção de regimes. O ICE se encaixa em ambas as concepções:
A expansão vertiginosa – mais de 12.000 novos agentes contratados em menos de um ano – foi acompanhada por um esvaziamento radical da formação. O treinamento na Academia do ICE foi reduzido de 22 semanas para 8 semanas. O curso de língua espanhola de 5 semanas foi eliminado, e agentes são instruídos a usar aplicativos de celular para tradução. A ênfase deslocou-se do conhecimento da lei para exercícios táticos e operacionais. “Quem são os novos recrutas do ICE, e suas qualificações são suficientes se eles recebem menos treinamento do que antes e ainda assim são rapidamente implantados nas comunidades?”, questiona análise do Brookings Institution.
A campanha de recrutamento do ICE e do DHS é talvez a manifestação mais clara de sua guinada ideológica. Anúncios oficiais usam uma estética e linguagem que ressoam profundamente na extrema-direita, atraindo deliberadamente um perfil específico de candidato.
Especialistas alertam que essa estratégia atrai indivíduos motivados por ideologia, não por dever cívico. David Lapan, ex-porta-voz do DHS, afirmou que a mensagem atrai pessoas que “querem se livrar de estrangeiros” e “quebrar algumas cabeças”. “Acho que o ICE está indo na direção errada, pois está atraindo o tipo errado de indivíduo para se envolver em uma missão muito séria que eles têm”, disse.
A combinação desses fatores – mensagem ideológica, contratação permissiva, treinamento deficiente, estrutura paramilitar e lealdade política – está forjando o que pode ser chamado de um “exército institucional” dentro do estado americano. Não se trata de uma metáfora. A análise acadêmica e o testemunho de especialistas indicam que o ICE adquiriu características de forças de segurança de regimes autoritários, onde a linha entre aplicação da lei e repressão política se dissolve.
O paralelo histórico mais imediato, citado pela professora De Bruin, é com os Tonton Macoutes do Haiti sob François “Papa Doc” Duvalier: uma força paramilitar leal ao líder, usada para aterrorizar, suprimir e eliminar opositores, funcionando como um contrapeso às forças militares regulares. Enquanto o ICE é uma agência oficial e os Macoutes eram uma milícia informal, a função política e o modus operandi de imposição pelo medo apresentam ecos perturbadores.
A consequência última, além das violações de direitos e da violência já documentadas, é a erosão da legitimidade e da neutralidade das instituições estatais. Quando uma agência de aplicação da lei passa a ser vista – e a se comportar – como a milícia armada de um partido ou líder político, o pacto fundamental de confiança que sustenta uma democracia é rompido. O silêncio ou a complacência diante dessa transformação, alertam os analistas, normaliza um caminho perigoso, cujo fim é conhecido na história, mas até então era considerado alheio à tradição institucional americana.
Com informações de: Southern Poverty Law Center (Hatewatch), CBC News, The Conversation, Brookings Institution, U.S. Department of Homeland Security (Press Release), WIRED, The Nation (via Washington Post), CNN, Reveal News ■