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Extremistas e a militarização transformam o ICE em paralimitares de Trump
Análise de materiais de recrutamento, políticas de contratação e declarações oficiais revela uma agência que adota retórica e estética da extrema-direita, atrai simpatizantes de grupos como os Proud Boys e opera com crescente lealdade partidária, alarmando especialistas em democracia e forças de segurança
Analise
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■   Bernardo Cahue, 31/01/2026

A transformação do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) dos EUA sob o governo Trump evoluiu para um patamar que especialistas em segurança, acadêmicos e organizações de monitoramento de ódio consideram sem precedentes na história moderna americana. Mais do que uma expansão burocrática, a agência está passando por uma reconfiguração ideológica e operacional, adotando táticas, estética e retórica associadas a grupos extremistas, enquanto reduz drasticamente os padrões de treinamento e contratação. O resultado, conforme apontam análises, é a criação de uma força paramilitar com crescente caráter político-partidário, levantando paralelos históricos preocupantes com regimes autoritários que instrumentalizam instituições estatais para repressão política.

O processo vai além de meras acusações. Ele é evidenciado em três frentes interligadas: 1) o uso de mensagens e símbolos de “código” (dog whistles) da supremacia branca em campanhas oficiais de recrutamento; 2) a relaxamento intencional dos padrões de contratação e treinamento, que facilita a entrada de indivíduos com ideologias extremistas; e 3) a estruturação e emprego da força de maneira paramilitar, com mandato ampliado para atuar contra civis e opositores políticos do presidente. “Trump está usando essas forças basicamente da maneira como um autoritário usa uma força paramilitar, para realizar suas próprias rixas pessoais, infligir dor, violência e desconforto em pessoas que ele vê como inimigos políticos”, afirmou o jornalista investigativo Radley Balko, especialista em militarização policial.

Evidências de Conexão e Simbiose com a Extrema-Direita

A relação entre o ICE e grupos de ódio como os Proud Boys não se resume a suposições. Documentação de organizações como o Southern Poverty Law Center (SPLC) e reportagens de veículos estabelecidos mostram vínculos tangíveis:

  • Encontros oficiais: Tom Homan, “czar da fronteira” de Trump e ex-diretor interino do ICE, reuniu-se múltiplas vezes em 2024 com Terry Newsome, um afiliado dos Proud Boys que se autodescreve como “Orgulhoso Participante do J6” (em referência ao ataque ao Capitólio em 6 de janeiro). Newsome chegou a postar em mídias sociais que Homan direcionou políticos de Illinois a segui-lo como seu “ponto de contato” para questões de imigração.
  • Sinalização em recrutamento: A campanha de recrutamento do Departamento de Segurança Interna (DHS) utilizou frases e imagens com significados específicos dentro da cultura supremacista branca. Um post com a legenda “We’ll have our home again” (“Nós teremos nosso lar de volta”) faz referência direta a uma música popular nos círculos nacionalistas brancos e entre capítulos dos Proud Boys. A reação desses grupos foi de reconhecimento: um capítulo dos Proud Boys respondeu ao post com uma imagem de um apito para cães e a frase “message received” (“mensagem recebida”).
  • Contratação sem filtros Há múltiplos relatos de que o processo acelerado de contratação – que visa dobrar o efetivo do ICE – está ignorando verificações básicas de antecedentes. Um jornalista do Slate teria recebido uma oferta de posição como oficial sem sequer ter submetido a papelada ou feito o teste de drogas. Um relato do Daily Mail citou que recrutas foram descobertos com tatuagens associadas a gangues e supremacistas brancos durante treinamentos.

Essa aproximação cria uma perigosa simbiose. Enquanto o governo adota a retórica e a missão desses grupos (a “defesa” da pátria contra uma “invasão”), as milícias extremistas veem suas agendas sendo executadas pelo próprio Estado. Como analisou a especialista Wendy Via, do Global Project Against Hate and Extremism, para grupos como os Proud Boys, “quando você tem a aplicação da lei disposta a abusar de seus poderes, por que se meter em problemas?”. Em outras palavras, o ICE tornou-se o braço armado que esses grupos almejavam ser.

A Construção de uma Força Paramilitar

O ICE não está apenas se comportando como uma força paramilitar; academicamente, ele atende a essa definição. A professora de governo Erica De Bruin, que estuda forças de segurança estatais, explica que o termo “paramilitar” abrange tanto forças policiais altamente militarizadas quanto grupos armados informais e partidários usados para manutenção de regimes. O ICE se encaixa em ambas as concepções:

  1. Como Polícia Paramilitar: É uma força policial federal, centralizada, com acesso a armamento e equipamento de grau militar, e que se mobiliza em grandes unidades para policiamento doméstico. Os EUA estão praticamente sozinhos entre democracias estabelecidas ao criar uma nova força policial paramilitar nas últimas décadas.
  2. Como Instrumento de Repressão Política: Operam com menos profissionalismo, supervisão efetiva e restrições constitucionais do que outras agências. Foram implantados contra opositores políticos em contextos não relacionados a imigração, como os protestos do Black Lives Matter. O governo Trump defendeu a “imunidade absoluta” para seus agentes, protegendo-os de processos mesmo quando violam leis claramente estabelecidas.

A expansão vertiginosa – mais de 12.000 novos agentes contratados em menos de um ano – foi acompanhada por um esvaziamento radical da formação. O treinamento na Academia do ICE foi reduzido de 22 semanas para 8 semanas. O curso de língua espanhola de 5 semanas foi eliminado, e agentes são instruídos a usar aplicativos de celular para tradução. A ênfase deslocou-se do conhecimento da lei para exercícios táticos e operacionais. “Quem são os novos recrutas do ICE, e suas qualificações são suficientes se eles recebem menos treinamento do que antes e ainda assim são rapidamente implantados nas comunidades?”, questiona análise do Brookings Institution.

O Recrutamento Ideológico: “De Quem o ICE Está Realmente Recrutando?”

A campanha de recrutamento do ICE e do DHS é talvez a manifestação mais clara de sua guinada ideológica. Anúncios oficiais usam uma estética e linguagem que ressoam profundamente na extrema-direita, atraindo deliberadamente um perfil específico de candidato.

  • Referências à Literatura Neonazista: Um pôster de recrutamento com a frase “Which way, American man?” (“Qual caminho, homem americano?”) é uma referência direta ao livro Which Way Western Man?, de William Gayley Simpson, um texto antissemita e de supremacia branca publicado por uma editora neonazista.
  • Slogans Históricos de Ódio: Outro anúncio com a frase “America for Americans” (“América para os americanos”) recicla um slogan usado pelo Ku Klux Klan no início do século XX.
  • Gráficos de Supremacistas Brancos: O DHS usou uma imagem de Tio Sam martelando uma placa com os dizeres “REPORT ALL FOREIGN INVADERS” (“DENUNCIE TODOS OS INVASORES ESTRANGEIROS”), gráfico esse que se originou de um usuário de mídia social associado a conteúdo nacionalista branco.

Especialistas alertam que essa estratégia atrai indivíduos motivados por ideologia, não por dever cívico. David Lapan, ex-porta-voz do DHS, afirmou que a mensagem atrai pessoas que “querem se livrar de estrangeiros” e “quebrar algumas cabeças”. “Acho que o ICE está indo na direção errada, pois está atraindo o tipo errado de indivíduo para se envolver em uma missão muito séria que eles têm”, disse.

Conclusão: Um “Exército Institucional” e o Risco à Democracia

A combinação desses fatores – mensagem ideológica, contratação permissiva, treinamento deficiente, estrutura paramilitar e lealdade política – está forjando o que pode ser chamado de um “exército institucional” dentro do estado americano. Não se trata de uma metáfora. A análise acadêmica e o testemunho de especialistas indicam que o ICE adquiriu características de forças de segurança de regimes autoritários, onde a linha entre aplicação da lei e repressão política se dissolve.

O paralelo histórico mais imediato, citado pela professora De Bruin, é com os Tonton Macoutes do Haiti sob François “Papa Doc” Duvalier: uma força paramilitar leal ao líder, usada para aterrorizar, suprimir e eliminar opositores, funcionando como um contrapeso às forças militares regulares. Enquanto o ICE é uma agência oficial e os Macoutes eram uma milícia informal, a função política e o modus operandi de imposição pelo medo apresentam ecos perturbadores.

A consequência última, além das violações de direitos e da violência já documentadas, é a erosão da legitimidade e da neutralidade das instituições estatais. Quando uma agência de aplicação da lei passa a ser vista – e a se comportar – como a milícia armada de um partido ou líder político, o pacto fundamental de confiança que sustenta uma democracia é rompido. O silêncio ou a complacência diante dessa transformação, alertam os analistas, normaliza um caminho perigoso, cujo fim é conhecido na história, mas até então era considerado alheio à tradição institucional americana.

Com informações de: Southern Poverty Law Center (Hatewatch), CBC News, The Conversation, Brookings Institution, U.S. Department of Homeland Security (Press Release), WIRED, The Nation (via Washington Post), CNN, Reveal News ■

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