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Nos primeiros dias de janeiro de 2026, a operação militar estadunidense que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro gerou duas histórias que rápido ganharam destaque: o “cegamento” dos sistemas de defesa aérea venezuelanos por jatos de guerra eletrônica EA?18G Growler e o uso de uma suposta “arma sônica secreta” que teria provocado sangramentos e vômitos em soldados. A veracidade dessas informações, no entanto, é objeto de intenso debate, com indícios de que podem ser parte de uma campanha de desinformação orquestrada por setores oposicionistas infiltrados nas Forças Armadas Venezuelanas.
O “cegamento” dos radares: tecnologia conhecida, relatos amplificados
Confirma-se que os Estados Unidos empregaram aviações EA?18G Growler para suprimir os radares e as comunicações venezuelanas durante a operação de 3 de janeiro. Especialistas descrevem a ação como um emprego habitual de guerra eletrônica, capaz de proteger formações aéreas e neutralizar defesas antiaéreas envelhecidas. Pelos canais militares, relatos de operadores venezuelanos descrevem monitores inundados de interferência, “como se alguém tirasse um punhado de areia na tela”. A eficácia do jamming, porém, foi amplificada por relatos anônimos que circularam nas redes sociais, suspeitos de terem sido disseminados por interesses políticos internos.
A “arma sônica secreta”: rumor alimentado pela Casa Branca
Paralelamente, surgiram histórias sobre uma “arma sônica” que teria incapacitado soldados com ondas sonoras intensas. A própria Casa Branca, através da porta?voz Karoline Leavitt, compartilhou um relato anônimo de um suposto guarda venezuelano que descrevia sangramento nasal e vômitos de sangue. O presidente Donald Trump afeiçoou-se ao assunto, dizendo que os EUA possuem “armas secretas incríveis” que nunca foram reveladas. Especialistas, no entanto, explicam que o dispositivo provavelmente empregado é o LRAD (Long Range Acoustic Device), um sistema não letal já conhecido e utilizado há anos para desorientar e dispersar multidões. A descrição de efeitos extremos, como vômitos de sangue, não corresponde aos efeitos habituais desses equipamentos, levantando suspeitas de exagero ou desinformação.
A hipótese do blefe: apoiadores de Maria Corina Machado dentro do exército
O contexto político venezuelano oferece uma pista importante para entender a proliferação desses rumores. A líder oposicionista Maria Corina Machada já denunciou a divulgação de “fake news” por comandantes militares do regime, inclusive com a manipulação digital de imagens para atribuir-lhe declarações falsas. Assessores de sua campanha já afirmaram estar “falando com militares”, provocando uma reação institucional do alto comando, que rechaçou o que chamou de “convocatórias golpistas”. Esse clima de tensão e a existência de fações militares descontentes abrem espaço para que relatos sensacionalistas – como os do cegamento de radares e da arma sônica – sejam usados como ferramenta de guerra psicológica, tentando deslegitimar o regime de Maduro e ao mesmo tempo favorecer a narrativa oposicionista de que os EUA dispõem de tecnologias investíveis.
Análise crítica: a incerteza como arma política
Os dois episódios – o jamming dos radares e a propagação da história da arma sônica – ilustram como a incerteza e a desinformação são empregadas como instrumentos na geopolítica contemporânea. Por um lado, os EUA beneficiam-se da divulgação de rumores sobre suas capacidades tecnológicas, criando uma aura de invencibilidade. Por outro, setores oposicionistas dentro das Forças Armadas Venezuelanas podem explorar esses rumores para desestabilizar o regime, alimentando a imagem de um governo fraco e incapaz de proteger o país. A ausência de confirmação oficial sobre a arma sônica e a existência de relatos contraditórios a respeito do cegamento dos radares indicam que a verdade estratégica é frequentemente soterrada por interesses políticos.
A história recente da Venezuela mostra que, em contextos de alta polarização, rumores militares podem ser taticamente empregados para influenciar a opinião pública e as relações de poder. O “cegamento” dos radares e a “arma sônica secreta” são, assim, sintomas de uma guerra híbrida em que a desinformação é tanto ou mais importante que os misseis. Enquanto a comunidade internacional debate os limites da intervenção estrangeira, os atores políticos internos se valem da confusão para avançar seus próprios projetos. Discernir entre fato e ficção, neste caso, é mais do que um exercício jornalístico; é uma condição para entender as reais dinâmicas de poder em jogo.
Com informações de: G1, R7, Yahoo Noticias, Interesting Engineering, Defence Blog, Gazeta do Povo, Brasil de Fato ■