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A contratação de "Proud Boys" pelo ICE: a militarização da imigração e os riscos à democracia
No segundo mandato, Trump transforma agência de imigração em braço armado, ecoando táticas autoritárias e aprofundando divisões sociais
Analise
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■   Bernardo Cahue, 28/01/2026

A administração do presidente Donald Trump, em seu segundo mandato, tem sido marcada por uma escalada na militarização das agências de imigração, notadamente o Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE). Denúncias de recrutamento de membros de grupos extremistas, como os "Proud Boys", e uma série de ações violentas em solo americano colocam em xeque os limites do Estado de direito e evocam perigosas comparações com regimes autoritários do passado.

Os Proud Boys são uma organização militante neofascista de extrema-direita, exclusivamente masculina, que promove e se envolve em violência política. Embora sua liderança negue ser uma organização de supremacia branca, o grupo e vários de seus membros têm estado ligados a eventos, ideologias e outros grupos de poder branco ao longo de sua existência. Sua ideologia oficial inclui antissemitismo, anti-imigração, antifeminismo e anticomunismo, características que os alinham com correntes neonazistas e de defesa da soberania branca. O grupo foi designado como organização terrorista no Canadá e na Nova Zelândia.

Em janeiro de 2026, a tensão entre a população e o ICE atingiu um novo patamar em Minneapolis. No dia 7, a cidadã americana Renee Nicole Good foi baleada e morta por um agente do ICE. Duas semanas depois, no dia 24, o enfermeiro Alex Pretti, também cidadão americano, foi morto a tiros por um agente da Patrulha de Fronteira durante um protesto. Essas duas mortes desencadearam uma onda massiva de protestos em Minneapolis e em outras cidades, com a população e autoridades locais exigindo a retirada dos agentes federais. A reprovação pública à forma como Trump lida com a imigração saltou de 39% para 53% após os episódios.

Analistas apontam que, diferentemente do primeiro mandato, a estratégia de Trump no segundo mandato tem sido a de transformar o ICE em uma espécie de "exército particular" voltado para o interior das cidades. A agência recebeu aumento acentuado de financiamento e recrutamento, e suas práticas militarizadas, antes concentradas na fronteira, passaram a ser exercidas em áreas urbanas, sob grande atenção pública. Essa militarização, junto com a adoção de retórica nacionalista branca pela administração, fez com que grupos extremistas como os Proud Boys se sentissem menos necessários para confrontos de rua, pois o próprio governo estaria executando sua agenda. Esse movimento de concentração de poder policial em uma agência executiva, com lealdade direta ao presidente, é um marco preocupante que especialistas comparam a táticas usadas por regimes autoritários históricos para consolidar poder.

O novo modus operandi do ICE é marcado por truculência. Relatos incluem entradas em residências sem mandados de busca, violando a Quarta Emenda constitucional. O ápice dessa postura agressiva ocorreu em 27 de janeiro de 2026, quando um agente do ICE tentou invadir o consulado do Equador em Minneapolis. A tentativa foi barrada por funcionários diplomáticos, que acionaram protocolos de emergência e apresentaram uma nota de protesto formal aos Estados Unidos. O incidente, que ocorreu no mesmo epicentro das operações do ICE que resultaram nas mortes de Good e Pretti, ilustra o desrespeito a normas internacionais e a soberania de outros países.

A convergência de fatores – a simpatia por grupos extremistas, a transformação de uma agência civil em força militarizada, a letalidade contra cidadãos e a violação de normas diplomáticas – pinta um quadro sombrio. A pergunta que se impõe é até que ponto a infraestrutura estatal, uma vez militarizada e orientada por uma agenda política extremista, pode ser desmontada no futuro. Os eventos em Minneapolis não são apenas uma tragédia local, mas um sinal de alerta sobre a erosão dos freios e contrapesos democráticos nos Estados Unidos.

Com informações de: Wired, Wikipédia, G1, Deutsche Welle (DW) ■

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