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O preço de uma militância: entre o simbólico e o concreto
Em um cenário de tensão política extrema, uma caminhada de 240 km revela as fissuras do bolsonarismo, testa os limites do direito de manifestação e reacende o espectro da violência política
Analise
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■   Bernardo Cahue, 25/01/2026

A imagem de um raio atingindo um grupo que aguardava o início de uma passeata pró-Bolsonaro na BR-040, ferindo manifestantes, parece uma metáfora poderosa e trágica para o momento político brasileiro. O evento, que antecedia a chegada da caminhada organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), ocorre em um contexto de medidas judiciais duras, discursos inflamados e o trauma ainda aberto dos ataques de 8 de janeiro de 2023. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de proibir manifestações na porta do Complexo da Papuda — onde Jair Bolsonaro está preso — e na Praça dos Três Poderes, com autorização para prisões em caso de desobediência, foi um recado claro: não haverá tolerância para qualquer reedição dos atos golpistas. Esta análise crítica investiga as camadas desse evento, que vai muito além de uma simples caminhada, expondo as contradições internas do movimento, a reação institucional e os riscos à segurança pública.

O Contexto Judicial: A Sombra do 8 de Janeiro e a Resposta do STF

A decisão de Alexandre de Moraes não surgiu do vácuo. Ela foi uma resposta direta a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que alertou sobre a organização da "Caminhada pela Paz" e a instalação de um acampamento com barracas e faixas pedindo anistia e liberdade para Bolsonaro nas adjacências da Papuda. O ministro explicitamente vinculou a medida ao passado recente, argumentando que a "omissão" de autoridades que permitiram acampamentos ilegais em frente a quartéis foi um dos fatores que levaram à tentativa de golpe de Estado. Ao fundamentar sua decisão, Moraes reafirmou que direitos fundamentais como reunião e expressão "não amparam a prática de atos abusivos e violentos, com a intenção de atacar o Estado Democrático de Direito". Esta postura reflete um endurecimento na gestão do espaço público em Brasília, já visto em julho de 2025, quando a Praça dos Três Poderes foi fechada e isolada com grades após um protesto de parlamentares aliados de Bolsonaro.

A Caminhada e suas Contradições: Liderança, Apoio e a Questão do "Carro"

A caminhada, iniciada por Nikolas Ferreira em Paracatu (MG), se apresentou como um ato simbólico de resistência. O deputado declarou que a motivação era um sentimento de "impotência" diante das "prisões injustas" do 8 de janeiro e da condenação de Bolsonaro. O percurso de 240 km a pé angariou apoio considerável, agregando figuras importantes do bolsonarismo:

  • Políticos: Além de Nikolas, aderiram deputados como Gustavo Gayer (PL-GO), Carlos Jordy (PL-RJ) e o senador Magno Malta (PL-ES), que participava em uma cadeira de rodas. A chegada do ex-vereador Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, deu um peso simbólico extra ao protesto.
  • Influenciadores e Apoiadores: A mobilização também atraiu nomes como a influenciadora Estefane Sampaio, o cantor gospel Marcelo Bonifácio e o pastor Guilherme Batista, mostrando a capilaridade do movimento em diferentes setores.

No entanto, uma contradição marcante veio à tona e causou desconforto entre os próprios manifestantes: a descoberta de que Nikolas Ferreira e Carlos Bolsonaro estavam participando de trechos da caminhada "de carro". Essa revelação mobilizou parte do grupo a "obrigar" Nikolas a seguir o percurso a pé, escancarando uma desconexão entre a retórica de sacrifício e união com o povo e a prática real de algumas lideranças. Esse episódio minou a narrativa de espontaneidade e sacrifício coletivo, revelando uma hierarquia interna onde alguns são mais iguais que outros.

Riscos e Preparativos: Da BR-040 à Praça dos Três Poderes

A logística da manifestação gerou alertas de segurança em múltiplas frentes:

  1. Segurança Viária: A Polícia Rodoviária Federal (PRF) emitiu nota alertando que a caminhada pela BR-040 gerava "riscos extraordinários" ao trânsito. A corporação afirmou que não houve comunicação prévia adequada para planejar a mitigação dos riscos, especialmente em trechos de pista simples e acostamento curto. A equipe de Nikolas rebateu, afirmando que ofícios foram enviados no próprio dia do início da caminhada.
  2. Segurança em Brasília: O destino final original da passeata — a porta da Papuda e a Praça dos Três Poderes — foi barrado por decisão judicial. A equipe de Nikolas então redirecionou o ato para a Praça do Cruzeiro. Enquanto isso, a Praça dos Três Poderes, palco do trauma de 2023, permanece sob esquema de segurança reforçado, que inclui monitoramento com drones de imagem térmica e policiamento ostensivo, um legado permanente dos eventos passados.

Análise Crítica: Significado e Consequências

Mais do que uma simples passeata, este evento é um sintoma da crise política profunda e um teste de pressão às instituições. A caminhada pode ser interpretada como:

  • Uma Tentativa de Rearticulação: Após a prisão de sua principal liderança, o movimento bolsonarista busca reativar sua base, canalizar a indignação e manter-se relevante no cenário político. A adesão de tantos parlamentares mostra que a causa ainda é um eixo mobilizador potente dentro da direita.
  • Um Confronto Simbólico com o Judiciário: O percurso rumo a Brasília, desafiando explicitamente as proibições do STF, coloca-se como um enfrentamento direto à autoridade da Corte. A narrativa de "lutar pela liberdade e pela justiça" se constrói em oposição à narrativa institucional de defesa da democracia e da lei.
  • Um Evento de Alto Risco: A combinação de discursos inflamados, a presença massiva de pessoas, a rejeição a limites judiciais e o episódio trágico do raio criam um caldo de instabilidade. A resposta das forças de segurança, sob a égem da decisão de Moraes, poderia ter gerado confrontos se os manifestantes insistissem nos locais proibidos.

O incidente do raio, embora um acidente natural, somou uma camada de tragédia e imprevisibilidade a um evento já carregado de tensão política. Ele serve como um lembrete brutal de como a militância, alimentada por narrativas de resistência e sacrifício, pode ter um preço muito real e imediato, que vai além das disputas pelo poder.

Com informações de: O Globo, Valor Econômico, Veja, G1, Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Correio Braziliense ■

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