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Cessar-fogo na Síria expira com forças curdas em meio a incerteza e temor de nova guerra
Acordo de paz de quatro dias terminou sem renovação; governo considera "próximas opções" enquanto forças se posicionam para possível confronto final
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 24/01/2026

Fim da trégua e preparação para o conflito

O cessar-fogo de quatro dias entre o governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (SDF), lideradas pelos curdos, expirou no sábado à noite (24/01) sem um anúncio oficial de renovação. O ministro da Informação da Síria, Hamza al-Mustafa, declarou que o prazo dado às SDF para apresentar um plano de integração ao exército nacional terminou e que o governo "está agora considerando suas próximas opções". O Ministério das Relações Exteriores sírio negou publicamente qualquer acordo para estender o prazo da trégua.

Enquanto isso, ambas as partes reforçam suas posições. Tropas do governo e forças curdas estão massacradas ao redor das últimas cidades controladas pelos curdos no nordeste, como Qamishli, Hasakeh e Kobane. Fontes de segurança curdas e oficiais militares sírios confirmaram os preparativos para uma possível batalha, com relatos de veículos do exército e ônibus com combatentes se movendo em direção à frente.

Contexto de uma ofensiva relâmpago

Este impasse é o ponto culminante de uma ofensiva militar rápida e bem-sucedida lançada pelo governo do presidente Ahmed al-Sharaa no início de janeiro. Em apenas duas semanas, as tropas governamentais retomaram vastos territórios do norte e leste que estavam sob controle da SDF há mais de uma década. Os ganhos incluem:

  • Províncias árabes majoritárias de Raqqa e Deir el-Zour.
  • Campos de petróleo e gás cruciais para a economia.
  • Infraestrutura crítica, como represas hidrelétricas.
  • Instalações de detenção que abrigam milhares de supostos combatentes do Estado Islâmico (EI) e suas famílias, incluindo o campo de al-Hol e a prisão de al-Aqtan.

A ofensiva surgiu após um impasse nas negociações de integração. Um acordo assinado em março de 2025, que previa a incorporação da SDF às instituições do Estado, não avançou, com as forças curdas relutantes em abrir mão de sua autonomia.

Os termos em jogo e o futuro da autonomia curda

Em 18 de janeiro, sob mediação dos EUA, foi anunciado um acordo de cessar-fogo de 14 pontos que praticamente reverte todas as concessões anteriores obtidas pela SDF. Seus termos principais representam um duro golpe para o projeto de autonomia curda:

  1. Integração individual na estrutura estatal: Os membros da SDF devem se juntar ao exército e ao ministério do interior sírios como indivíduos, e não como unidades separadas, um ponto de grande resistência dentro da milícia.
  2. Entrega de ativos estratégicos: Controle de campos de petróleo, passagens de fronteira e instalações de detidos do EI são transferidos para Damasco.
  3. Reconhecimento cultural limitado: O acordo referencia um decreto presidencial que concede direitos linguísticos e culturais aos curdos, mas falta ancorar esses direitos na lei ou numa nova constituição.

Analistas descrevem a situação como uma "mudança fundamental" no conflito sírio, com a SDF perdendo a maior parte de seu território e influência em poucos dias.

O papel dos atores internacionais

A mudança no cenário é em grande parte impulsionada por uma reorientação clara da política externa dos EUA. O enviado especial dos EUA, Tom Barrack, afirmou que a "finalidade original" da parceria com a SDF, como principal força anti-EI, "expirou em grande parte". Os Estados Unidos agora veem o governo de al-Sharaa como o melhor parceiro para a estabilidade e já começaram a transferir centenas de detidos do EI de prisões sírias para o Iraque.

A posição dos EUA é vista pelos curdos como uma "traição" após anos de aliança. Enquanto isso, a ONU expressa profunda preocupação. Khaled Khiari, Subsecretário-Geral para o Oriente Médio, alertou o Conselho de Segurança que a situação permanece "muito tensa" e destacou uma crise humanitária alarmante com necessidades urgentes.

Temores humanitários e de segurança

O fantasma da violência sectária paira sobre a região. Oficiais americanos e franceses alertaram o governo sírio sobre os riscos de atrocidades contra civis curdos se a ofensiva for retomada. No ano passado, forças afiliadas ao governo foram acusadas de matar quase 1.500 pessoas da minoria alauita e centenas de drusos.

Outro risco imediato é a reativação do Estado Islâmico. A transferência caótica de instalações de detenção e relatos de fugas durante os combates criam uma oportunidade para o grupo terrorista se reagrupar. O governo sírio anunciou ter recapturado 81 dos 120 detidos que supostamente escaparam da prisão de al-Shadadi.

O que esperar do futuro próximo

Com o fim do cessar-fogo, os possíveis caminhos à frente são perigosos:

  • Retomada dos combates em áreas curdas: Se as negociações fracassarem, Damasco pode tentar um assalto final a Hasakeh e Qamishli. Diferente da retirada em áreas árabes, a SDF prometeu uma defesa feroz em regiões de maioria curda, onde cavou trincheiras e túneis, levantando o espectro de uma guerra urbana sangrenta.
  • Surge de uma insurgência prolongada: Mesmo uma vitória militar do governo pode levar a uma insurgência de longa duração conduzida por remanescentes da SDF, semelhante ao conflito do PKK na Turquia.
  • Prorrogação frágil para negociações: Fontes diplomáticas sugerem que o cessar-fogo pode ser estendido por até um mês para facilitar a transferência contínua de detidos do EI para o Iraque, comprando mais tempo para uma solução política.

Como resumiu um correspondente no terreno, "o futuro da Síria está sendo decidido um dia, uma hora de cada vez".

Com informações de: Al Jazeera, BBC, Wikipedia, GV Wire, United Nations, The Washington Institute for Near East Policy, Al Arabiya, The Guardian ■

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