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O verão carioca de 2026 tem sido marcado por temperaturas extremas e por uma sucessão de apagões que paralisam bairros inteiros. Em meio a um cenário de crise recorrente, um obstáculo silencioso se impõe aos cidadãos que tentam buscar solução: o sistema oficial de reclamações da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) não permite denúncias anônimas. Essa exigência de identificação, em um contexto de falhas constantes e de potencial temor de represálias, coloca em xeque a eficácia do canal e esbarra em um problema estrutural maior: a persistência de uma rede de distribuição aérea, vulnerável a intempéries, furtos e conflitos com a arborização, enquanto a modernização para o sistema subterrâneo avança a passos lentos.
O impacto vai muito além do desconforto doméstico. Serviços públicos fundamentais são diretamente paralisados:
Este cenário transforma a falta de luz de um transtorno individual em uma crise coletiva de direitos básicos, evidenciando a urgência de soluções que vão além do reparo pontual dos fios.
Para registrar uma reclamação sobre a distribuidora de energia junto à ANEEL, o cidadão deve seguir um protocolo que, embora disponível em múltiplos canais, não preserva seu anonimato. O serviço, disponível no portal Gov.br, orienta que primeiro se busque a concessionária (como a Light, no Rio) e, depois, sua ouvidoria. Só então o problema pode ser reportado à agência reguladora através de canais como:
Apesar de o atendimento dever ser pautado por princípios como "respeito" e "presunção da boa-fé do usuário", a exigência de identificação pode inibir moradores, especialmente em áreas com históricos de problemas crônicos ou onde haja receio de algum tipo de retaliação. Este modelo contrasta com a realidade do Rio, onde milhares de consumidores são afetados simultaneamente em eventos de larga escala, dificultando a ação individualizada.
Os cortes de energia recentes no Rio ilustram a dimensão do problema e as justificativas controversas das concessionárias. Em janeiro de 2026, um problema na subestação de Cachambi deixou pelo menos 12 bairros da Zona Norte sem luz, incluindo Méier, Tijuca e Maria da Graça, em um dia em que a temperatura oficial chegou a 40,8°C. Alguns locais ficaram no escuro por mais de nove horas. Poucos dias antes, os bairros do Leme e Copacabana, na Zona Sul, enfrentaram um apagão de quase três dias após um furto de cabos da rede subterrânea.
As explicações dadas pela Light para esses eventos seguem um roteito conhecido: de um lado, falhas técnicas em equipamentos (como subestações); de outro, a culpa atribuída à população por "ligações clandestinas" que sobrecarregam a rede. A Defensoria Pública do Estado precisou entrar com uma ação civil pública para que a Justiça determinasse o restabelecimento imediato da energia em Copacabana, sob multa diária de R$ 200 mil. A reação do poder público municipal tem sido de cobrança, com o prefeito Eduardo Paes classificando a situação como "inadmissível" e acionando o Procon. No entanto, as ações parecem focadas na consequência (o apagão) e não na causa estrutural (a rede vulnerável).
Por trás dos apagões recorrentes está uma opção histórica por infraestrutura de menor custo inicial: a rede de distribuição aérea. Estudos apontam que mais de 98% das linhas de distribuição no Brasil são aéreas. No Rio, embora o estado lidere o percentual de redes subterrâneas no país (cerca de 43% em 2014), isso ainda representa uma fração mínima do total, concentrada em áreas específicas. Esta escolha gera um ciclo vicioso de problemas:
A solução técnica existe e é adotada em cidades como Paris, Barcelona e Nova York, que têm 100% de suas redes no subsolo. No Brasil, a cidade de São Paulo aprovou uma lei em 2005 determinando o enterramento das redes, mas sua implementação esbarra no alto custo e na lentidão burocrática – o plano básico para a execução só foi publicado dez anos depois. Pesquisas indicam que a rede subterrânea resulta em um serviço cinco vezes mais bem avaliado pelos consumidores, com maior eficiência, menor taxa de roubo e redução de custos com indenizações e manutenção no médio prazo.
O Rio de Janeiro se encontra em uma encruzilhada. De um lado, uma população submetida a repetidos colapsos no fornecimento de um serviço essencial, com seu direito de reclamar de forma anônima e segura limitado pelo próprio sistema regulador. De outro, uma concessionária que alterna entre justificativas técnicas e a criminalização do usuário, enquanto opera uma infraestrutura visivelmente obsoleta e frágil.
Exigir que o cidadão se identifique para reportar um apagão que afasta um bairro inteiro é tratar um problema sistêmico como uma falha pontual. A verdadeira reclamação que precisa ser escutada – e que ecoa dos bairros da Zona Norte às praias da Zona Sul – é por investimentos maciços e planejados na transição para redes subterrâneas. Enquanto essa transição não for tratada como prioridade na política energética e urbana, os apagões, as podas predatórias e o desabastecimento de serviços de saúde e água seguirão como a triste normalidade dos verões cariocas. O anonimato que hoje se nega ao cidadão na hora da denúncia é o mesmo anonimato que a infraestrutura energética arcaica impõe a seus direitos mais básicos.
Com informações de: Portal Gov.br, G1, Agência Brasil, Instituto de Estudos Avançados da USP ■