Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
O novo mapa do poder global sob a doutrina Trump
De Venezuela a Gaza, intervenções americanas redefinem alianças, ignoram instituições multilaterais e aceleram uma era de unilateralismo assertivo, deixando um rastro de incerteza
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRBR5zQWOI9Ckagl2a2TixPEguJH9VYyhXnNC8SDgtMsA&s=10
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 12/01/2026

O primeiro mês de 2026 consolida uma transformação radical na política externa dos Estados Unidos. Sob o segundo mandato do presidente Donald Trump, uma sequência de intervenções militares e ações de força está redesenhando o equilíbrio de poder em regiões críticas, de Caracas a Damasco. Este novo capítulo, descrito pela administração como "paz através da força", marca um afastamento decisivo de décadas de diplomacia multilateral e da ordem baseada em regras, substituindo-as por um exercício de poder unilateral focado em interesses econômicos e segurança imediata. O resultado é um mundo de novas faces geopolíticas, onde antigos Estados-nação são pressionados, sítios são impostos e conflitos congelados são esquecidos, enquanto a comunidade internacional luta para se adaptar a estas novas realidades.

O Hemisfério Ocidental sob Vigia: A Intervenção na Venezuela

A operação militar que levou à captura do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro representa o caso mais explícito da nova doutrina em ação. Executada sem autorização do Congresso Americano ou do Conselho de Segurança da ONU, a ação foi justificada com base em interesses de segurança nacional e económicos, notadamente o petróleo. Analistas apontam que esta movimentação cumpre a afirmação de Trump de assumir um controle autoritário sobre o hemisfério ocidental. O futuro do país, no entanto, paira sobre um espectro de cenários instáveis:

  • Continuidade do Caos: A manutenção da cúpula chavista no poder, mesmo com gestos conciliatórios como a libertação de presos políticos, pode levar a um "empate catastrófico", onde a economia sitiada e a repressão persistem.
  • Degradação Acelerada: A intervenção pode desencadear uma violência complexa, envolvendo grupos armados locais e até a guerrilha colombiana do ELN, aprofundando a crise humanitária e a diáspora.
  • Transição Frágil: Um caminho incerto para a democracia, dependente de uma união inédita da oposição e de concessões ao chavismo, com o petróleo permanecendo como foco central dos EUA.

Esta intervenção direta é vista por especialistas como um golpe potencialmente fatal na norma internacional que proíbe o uso da força contra a soberania de outro Estado, sinalizando que as grandes potências podem agora operar sob regras diferentes.

O Oriente Médio: Bombardeios, Alianças e um Conflito Esquecido

Enquanto a Venezuela dominava as manchetes, a política de "demonstração de força" continuava ativa no Oriente Médio. Só nos últimos doze meses, os EUA executaram bombardeios em sete países, incluindo Síria, Iraque, Irã e Iêmen. Na Síria, os ataques foram retaliações diretas a ações do Estado Islâmico (ISIS), realizados em cooperação com as forças de segurança do governo sírio – um parceiro improvável que recentemente aderiu à coligação global contra o ISIS. No Irã, o alvo foram instalações nucleares, numa missão sofisticada para conter o desenvolvimento de armas de destruição em massa[citation:5].

No entanto, é em Gaza que se observa a face mais complexa e paradoxal da nova estratégia. Apesar de um plano de paz americano e um frágil cessar-fogo em vigor desde outubro de 2025, a situação humanitária permanece "catastrófica".

  1. Guerra em Câmera Lenta: Mesmo com o cessar-fogo, mais de 400 palestinianos foram mortos por ataques aéreos israelitas, e a destruição de infraestruturas continuou. O território está efetivamente dividido, com Israel a controlar mais de metade da sua área.
  2. EUA como Co-Ocupante: O plano Trump cria um "Board of Peace" (Conselho de Paz) presidido pelo próprio Trump e uma Força Internacional de Estabilização para Gaza. Este arranjo, desenvolvido sem consulta aos palestinianos, corre o risco de transformar os EUA num co-ocupante de facto do território, ao lado de Israel.
  3. Estrangulamento da Ajuda: Para agravar a crise, Israel iniciou em 2026 a revogação das licenças de operação de dezenas de organizações humanitárias internacionais em Gaza, incluindo Médicos Sem Fronteiras e o Conselho Norueguês para Refugiados. Esta medida ameaça cortar a última tábua de salvação para mais de dois milhões de pessoas.

Paradoxalmente, enquanto a administração Trump se envolve profundamente na estrutura de controle de Gaza, o conflito em si parece ter caído numa espécie de esquecimento estratégico na agenda global, ofuscado por intervenções mais diretas e explosivas noutros lugares.

O Desmonte da Ordem Internacional e os Novos Riscos

Por trás destas ações militares pontuais, opera uma reengenharia profunda dos instrumentos da política externa americana. A mudança vai além do uso da força e atinge os pilares da cooperação global:

  • Paz e Prevenção de Conflitos: Órgãos especializados do Departamento de Estado, como o Bureau de Operações de Estabilização de Conflitos, foram desmantelados. A abordagem transformou-se numa focada em negócios e poder militar, em detrimento da construção de processos de paz sustentáveis que abordem causas profundas.
  • Democracia e Direitos Humanos: O financiamento para a promoção da democracia e direitos humanos no exterior foi cortado em quase 75%. A retórica oficial desvalorizou estes valores, preferindo usar tarifas e sanções como ferramentas punitivas de forma seletiva.
  • Cooperação Multilateral: Os EUA retiraram-se de inúmeros organismos internacionais e cortaram drasticamente o financiamento à ONU, criando uma crise orçamental. Ameaças de sanções contra tribunais internacionais, como o Tribunal Penal Internacional (TPI), tornaram-se comuns.

Este desmonte sistemático não acontece no vácuo. Ele incentiva a autocracia e a desordem a nível global, enquanto potências rivais e atores não estatais recalibram as suas táticas para um mundo onde a lei do mais forte parece regressar ao centro do palco. A nova face mundial é, portanto, uma de transição turbulenta, onde as intervenções americanas criam novos pontos de pressão e instabilidade tão rapidamente quanto suprimem as ameaças imediatas que visam conter.

Com informações de: BBC Mundo, Euronews, Responsible Statecraft, Security Council Report, G1 - Jornal Nacional, The Conversation, Euro-Med Human Rights Monitor ■

Mais Notícias