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A estratégia de pressão dos EUA sobre Cuba após o sequestro de Maduro
Após operação militar na Venezuela, governo Trump intensifica retórica e ações contra Havana, com o Secretário de Estado Marco Rubio no centro de uma campanha por “mudança de regime” que remonta a suas raízes familiares
Analise
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■   Bernardo Cahue, 12/01/2026

Em um intervalo de poucos dias, a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, executou uma operação militar que capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro e, em seguida, voltou sua atenção pública para Cuba, com ameaças veladas e um claro objetivo declarado de asfixiar economicamente o governo da ilha. No centro dessa guinada, está o Secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, Marco Rubio, cuja trajetória pessoal e política parece convergir com o momento atual. Enquanto Trump advertiu Cuba a “fazer um acordo antes que seja tarde demais” e cortou o fluxo vital de petróleo venezuelano, Rubio emitiu avisos públicos de que o governo cubano “está com muitos problemas”. Analistas enxergam uma estratégia dupla: para Trump, os motivos são explicitamente econômicos e energéticos; para Rubio, trata-se de um projeto ideológico de longa data para redesenhar a América Latina.

As Ameaças Imediatas e a Resposta Cubana

O cerco a Cuba se intensificou após a captura de Maduro em 3 de janeiro. Trump anunciou nas redes sociais que não haverá “mais petróleo ou dinheiro indo para Cuba – ZERO!”, referindo-se ao crucial fornecimento de cerca de 35 mil barris de petróleo diários que Havana recebia da Venezuela em troca de serviços de segurança e cooperação. Ele sugeriu que Cuba “faça um acordo”, sem especificar os termos, mas deixando clara a consequência do não cumprimento. Paralelamente, Trump endossou, como brincadeira, uma publicação nas redes sociais que sugeria Marco Rubio como futuro “presidente de Cuba”, comentando “Parece bom para mim!”.

A resposta cubana foi de firme defesa da soberania. O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que Cuba é “uma nação livre, independente e soberana. Ninguém nos diz o que fazer”. O chanceler Bruno Rodríguez rejeitou as acusações de Trump, reiterou o direito de Cuba de importar combustível e classificou o comportamento dos EUA como “criminoso” e uma ameaça à paz global. O governo cubano ainda revelou que 32 de seus militares foram mortos durante a operação estadunidense em Caracas para capturar Maduro, indicando o envolvimento profundo de Havana na segurança do aliado venezuelano .

O Bloqueio como Estratégia e o Contexto Histórico

A atual escalada não é um evento isolado, mas um capítulo de uma política de mais de seis décadas. Desde a Revolução Cubana, os EUA tentaram, sem sucesso, forçar uma mudança de regime na ilha. Após o fracasso de ações militares diretas, como a invasão da Baía dos Porcos, Washington instituiu um bloqueio econômico abrangente que, segundo a organização Democratic Socialists of America (DSA), “ainda paralisa a economia cubana e empobrece milhões”. A retórica atual da administração Trump sugere uma intensificação máxima dessa pressão, buscando explorar a grave crise econômica que Cuba já enfrenta, agravada pela pandemia e pela perda de receitas turísticas.

Para Cuba, a perda do apoio venezuelano é um golpe severo. A relação especial com a Venezuela, iniciada por Hugo Chávez e Fidel Castro, garantiu por anos um fornecimento estável de petróleo em troca de assistência médica, educacional e de segurança. Sem esse suporte e sob um bloqueio reforçado, Havana enfrenta sua pior crise de combustível e eletricidade em décadas. A captura de Maduro e as ameaças subsequentes são vistas pelo governo cubano como uma “perigosa escalada” da guerra econômica de longa data.

Marco Rubio: O Estratego Movido por uma Narrativa Pessoal

A figura de Marco Rubio é fundamental para entender a determinação e a natureza ideológica da política atual. Filho de imigrantes cubanos que fugiram do regime de Fidel Castro, Rubio foi criado na comunidade de exilados de Miami, imerso em narrativas de libertação e um profundo anticomunismo. Em sua autobiografia, ele recorda ter “gabado-se de que um dia lideraria um exército de exilados para derrubar Fidel Castro e se tornar presidente de uma Cuba livre” – um sonho de infância que observadores veem como prophetic no contexto atual.

Sua carreira política foi construída, em parte, sobre essa plataforma. Como senador pela Flórida, tornou-se uma voz proeminente por posições duras contra Cuba, Venezuela e Nicarágua, defendendo sanções e mudança de regime. Analistas como o economista Mark Weisbrot argumentam que, enquanto Trump está primordialmente interessado no petróleo venezuelano, para Rubio trata-se de um projeto mais amplo de poder e transformação política regional. “Eles querem remodelar toda a região”, afirma Weisbrot, referindo-se a Rubio e seus aliados, com o objetivo de remover governos não alinhados e retomar uma hegemonia incontestável dos EUA no hemisfério, sob a lógica da atualizada “Doutrina Donroe”.

Implicações Geopolíticas e a Reação Regional

A ação contra a Venezuela e as ameaças a Cuba têm reverberações por toda a América Latina, reacendendo tensões históricas sobre a soberania e a intervenção dos EUA. Trump já ameaçou outros presidentes de esquerda da região, como Gustavo Petro da Colômbia e Claudia Sheinbaum do México, em um claro sinal de que governos independentes são vistos com hostilidade.

Este cenário levanta questões críticas sobre o futuro:

  • Resiliência Cubana: A capacidade de Cuba de resistir a uma pressão econômica sem precedentes, agora privada do petróleo venezuelano, será testada ao extremo. O governo apela à unidade nacional e à resistência, mas o desgaste na população é significativo.
  • Escalada Militar: Embora Trump e Rubio tenham sugerido que uma intervenção militar direta não é necessária porque Cuba está “pronta para cair”, a retórica belicosa e a imprevisibilidade da administração mantêm essa possibilidade no ar.
  • Fragmentação Regional: As ações dos EUA dividem o continente entre governos alinhados a Washington e aqueles que defendem a não-intervenção, potencialmente criando novas instabilidades.

Um Momento de Confluência Perigosa

A situação atual representa uma convergência perigosa: a agenda “America First” e focada em recursos de Trump se alinha com o projeto ideológico e pessoal de décadas de Marco Rubio. O resultado é uma campanha de máxima pressão contra Cuba que combina asfixia econômica, guerra psicológica através de ameaças públicas e a exploração de uma crise humanitária. Se o objetivo declarado é a queda do governo comunista, a estratégia ignora o custo humano para o povo cubano, que já sofre com décadas de embargo, e os riscos de uma convulsão política e migratória na região. A história das relações EUA-Cuba está repleta de previsões falhas sobre o colapso iminente do regime. Desta vez, no entanto, com atores tão determinados e as alavancas econômicas sendo apertadas como nunca, o desafio para a soberania e a resistência cubanas atinge um novo patamar.

Com informações de: CNN, NBC News, Deutsche Welle (DW), BBC, La Prensa (Honduras), Democracy Now!, The Guardian, Primera Hora, Agência Pública, DSA (Democratic Socialists of America)■

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