Ação, que atingiu Kiev e a região de Lviv, é justificada por Moscou como retaliação a um suposto ataque à residência de Putin; Ocidente classifica ação como "escalatória"
A Rússia lançou um massivo ataque aéreo contra a Ucrânia na madrugada desta sexta-feira (9), utilizando pela segunda vez em combate seu novo míssil balístico hipersônico Oreshnik, um sistema de armas capaz de transportar ogivas nucleares. O ataque, que combinou o míssil avançado com dezenas de outros mísseis e centenas de drones, causou mortes, danificou infraestrutura crítica e deixou milhares sem aquecimento no rigoroso inverno ucraniano.
Detalhes do Ataque e Impacto Humanitário
As defesas aéreas ucranianas enfrentaram uma onda complexa de ataques. A Força Aérea do país relatou o lançamento russo de 36 mísseis e 242 drones. Apesar de interceptar muitos, os ataques que atravessaram as defesas causaram sérios danos:
- Vítimas: Pelo menos quatro pessoas morreram e 25 ficaram feridas apenas em Kiev. Entre os mortos estava um paramédico que respondia a um ataque inicial, em um que parece ter sido um ataque "duplo" deliberado.
- Infraestrutura Civil: Cerca de 20 prédios residenciais foram danificados na capital. O ataque também atingiu o edifício da Embaixada do Qatar em Kiev, embora sem causar vítimas na missão diplomática.
- Crise de Aquecimento: O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, alertou que cerca de metade dos prédios residenciais da cidade (quase 6.000) ficaram sem aquecimento, com temperaturas externas próximas a -8°C. Ele pediu que residentes que pudessem deixar a cidade temporariamente o fizessem.
O Míssil Oreshnik: Uma Arma de "Meteorito"
O centro das atenções foi o emprego do míssil balístico de alcance intermediário Oreshnik (que significa "aveleira" em russo). Este é apenas o segundo uso do sistema em combate desde seu primeiro teste contra a cidade de Dnipro, em novembro de 2024. Autoridades ucranianas identificaram destroços do míssil na região de Lviv, no oeste do país, a menos de 100 km da fronteira com a Polônia (membro da OTAN).
Características técnicas notáveis do Oreshnik:
- Velocidade Hipersônica: Capaz de viajar a até Mach 10 (cerca de 13.500 km/h), o que dificulta extremamente sua interceptação.
- Capacidade Nuclear: Projetado para transportar ogivas nucleares, mas aparentemente utilizado com uma carga convencional ou inerte neste ataque.
- Alcance: É o míssil de maior alcance já usado em combate na Europa, podendo atingir até cerca de 5.500 km.
- Design Complexo: Relatórios de inteligência ucraniana sugerem que pode carregar até seis ogivas, cada uma com múltiplas.
Justificativa Russa e Rejeição Ocidental
O Ministério da Defesa russo afirmou que o ataque massivo foi uma retaliação por um alegado ataque com drones ucranianos contra uma residência do presidente Vladimir Putin na região de Novgorod, em dezembro de 2025. Moscou disse que os alvos incluíam instalações de produção de drones e infraestrutura energética ligada ao complexo militar-industrial ucraniano.
Essa alegação foi veementemente rejeitada por Kiev e por parceiros ocidentais. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, classificou-a como uma "mentira". De forma significativa, o presidente dos EUA, Donald Trump, também disse que autoridades americanas determinaram que a residência de Putin não foi o alvo do suposto ataque. O chanceler ucraniano, Andrii Sybiha, chamou a justificativa russa de "absurda" e um pretexto para o terror.
Reações Internacionais e o Contexto das Negociações
O ataque gerou condenações imediatas e é visto como uma mensagem estratégica em um momento delicado:
- Condenações: Os líderes de Reino Unido, França e Alemanha emitiram uma declaração conjunta classificando o uso do míssil Oreshnik como "escalatório e inaceitável". A chefe de política externa da UE, Kaja Kallas, afirmou que o ataque foi uma "advertência à Europa e aos EUA".
- Pedido por Resposta: Zelensky pediu uma "reação clara do mundo", especialmente dos Estados Unidos, cujos sinais, segundo ele, a Rússia realmente leva em consideração.
- Negociações de Paz: A ofensiva ocorre em um momento de negociações frágeis sobre um plano de paz para o conflito. Analistas sugerem que a demonstração de força com uma arma avançada é um recado de Moscou sobre seu poderio militar enquanto as discussões diplomáticas prosseguem.
Com informações de: G1, NBC News, Associated Press, ABC News, CBC News, BBC, Folha de S.Paulo, NPR, DW■