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A política externa da administração Trump para a América Latina está consolidando uma relação dual e exploratória com a região. Se, por um lado, reafirma a visão histórica do continente como "quintal" ou esfera de influência exclusiva – atualizada na chamada "Doutrina Donroe" –, por outro, permite que a região funcione como uma válvula de escape para problemas domésticos dos Estados Unidos, notadamente como destino de resíduos. Essa dinâmica, evidenciada na intervenção na Venezuela por petróleo e no comércio de sucata militar, aponta para uma visão que trata os países latino-americanos como zonas de sacrifício, onde se extraem recursos estratégicos e se depositam custos ambientais e industriais indesejados.
A Estratégia de Segurança Nacional de Trump resgatou explicitamente a Doutrina Monroe – o princípio do "América para os americanos" –, agora apelidada de "Doutrina Donroe". Mais do que uma retórica, este corolário moderno serve de justificativa para uma presença militar ampliada e intervenções diretas, com o objetivo declarado de frear a imigração ilegal, o narcotráfico e a influência de potências estrangeiras, como a China. Analistas veem a região sendo tratada como uma extensão da fronteira de segurança interna dos EUA. O caso mais explícito é o da Venezuela: a captura do presidente Nicolás Maduro foi acompanhada pela declaração aberta de Trump de que os EUA "extrairão uma quantidade tremenda de riqueza do solo" venezuelano, direcionando parte dela como "reembolso" para os Estados Unidos. Esta ação, um "golpe duro na ideia de que a melhor maneira de dirigir o mundo é seguir um conjunto de regras acordadas", demonstra que a força militar é um instrumento aceito para garantir o controle sobre recursos.
A menção à Base Aeroespacial do Maranhão e a troca por sucatas militares norte-americanas dos anos 70, supostamente ocorrida durante o governo Bolsonaro, exemplifica um padrão menos evidente, mas igualmente significativo, desta relação. Enquanto os *search results* não trazem detalhes específicos sobre este acordo, o padrão condiz com a prática de utilizar equipamentos militares obsoletos ou excedentes como moeda de troca em relações estratégicas. Essa "diplomacia da sucata" serve a múltiplos objetivos:
Este modelo transforma a região não apenas em cliente de equipamentos de segunda linha, mas também em peça do tabuleiro de segurança hemisférica, onde acesso militar é trocado por tecnologia obsoleta.
Paralelamente à exploração de recursos, a região sofre uma pressão ambiental diretamente ligada às políticas domésticas dos EUA. Desde que a China restringiu a importação de resíduos plásticos em 2018, os países latino-americanos se tornaram o novo destino principal. Dados de 2021 mostram que os EUA exportaram para a região quase 90 milhões de quilos de resíduos plásticos, um recorde histórico. O México é o principal destino, recebendo o equivalente a 57 contêineres por dia, mas nações como Honduras, El Salvador, Chile e Argentina também recebem quantidades massivas. Esta prática é facilitada por:
Esse fluxo transforma a América Latina em um "lixão" que absorve externalidades negativas do consumo estadunidense, sobrecarregando países que já têm dificuldades para gerir seus próprios resíduos.
Longe de serem políticas desconexas, a assertividade militar e o dumping ambiental refletem uma mesma visão de mundo. A ordem executiva "Unleashing American Energy" de Trump declara como política nacional "encorajar a exploração e produção de energia" e "estabelecer nossa posição como principal produtor e processador de minerais não combustíveis". Para sustentar esse modelo de "domínio energético" doméstico – que inclui revogar proteções ambientais e abandonar o Acordo de Paris –, os EUA buscam garantir o controle de recursos estratégicos no exterior e externalizar custos. A América Latina, vista através da lente da "Doutrina Donroe", é o espaço geopolítico mais lógico para essa dupla operação: extração sem grandes constrangimentos e descarte conveniente.
Esta abordagem tem gerado tensões e resistências. Líders como Gustavo Petro, da Colômbia, e Claudia Sheinbaum, do México, enfrentaram publicamente as ameaças e demandas de Trump. Petro, por exemplo, rejeitou a recepção de voos com migrantes deportados sem garantias de tratamento digno. A intervenção na Venezuela foi condenada por vários governos, e especialistas alertam que a instabilidade pode se espalhar. No âmbito ambiental, organizações da sociedade civil na região estão soando o alarme sobre as importações de resíduos, exigindo que seus governos cumpram acordos internacionais como a Convenção de Basileia.
A política de Trump para a América Latina não é um simples retorno ao passado intervencionista. É uma síntese moderna que combina a imposição militar clássica com mecanismos contemporâneos de dumping econômico e ambiental. A região é incentivada a se especializar em funções que servem aos interesses estadunidenses: fornecedora de recursos naturais (petróleo, minerais, água), receptáculo de lixo plástico e equipamentos obsoletos, e cliente de segurança. O caso da Base do Maranhão, mesmo carecendo de detalhes públicos, é emblemático deste escambo: acesso territorial estratégico em troca de sucata militar. Este modelo consolida a América Latina como uma zona de sacrifício, onde os custos do domínio energético e do consumismo dos EUA são sistematicamente externalizados, aprofundando assimetrias históricas sob a nova e agressiva roupagem da "Doutrina Donroe".
Com informações de: BBC, Terra, SinEmbargo, Mongabay, Forbes, E&E News (POLITICO), The White House, U.S. Department of Energy ■