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A madrugada do dia 3 de janeiro de 2026 mudou o curso da história da Venezuela de forma violenta e abrupta. Uma operação militar dos Estados Unidos resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, que foram levados para Nova Iorque para enfrentar acusações federais. A ação, ordenada pelo presidente Donald Trump, que anunciou planos de "dirigir" o país e controlar suas vastas reservas de petróleo, gerou uma convulsão imediata no cenário internacional e dentro de Caracas. No entanto, a cobertura midiática desses eventos tumultuados, especialmente no que diz respeito à reação das ruas venezuelanas, tem sido alvo de críticas que ecoam um capítulo sombrio do passado: o golpe de Estado de 2002 contra Hugo Chávez e a subsequente e breve presidência de Pedro Carmona. A tese que se impõe é a de uma narrativa seletiva que, então como agora, opta por destacar certos silêncios e normalidades enquanto ignora ou minimiza realidades complexas e repressivas.
Após a captura de Maduro, a então vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina e buscou projetar uma imagem de controle e normalidade. Parte da mídia internacional reverberou essa ideia de uma capital retomando sua rotina. No entanto, essa fachada de tranquilidade esconde um ambiente de intensa intimidação e medo. Relatos confirmam que milícias paramilitares conhecidas como "colectivos" foram mobilizadas para patrulhar as ruas de Caracas, estabelecendo barreiras e realizando buscas em veículos e, de forma mais invasiva, nos telefones celulares de cidadãos. O objetivo era claro: vasculhar contatos, mensagens e posts em redes sociais em busca de qualquer indício de apoio à operação norte-americana, com suspeitos sujeitos a prisão.
Este aparato de vigilância e controle constitui o que analistas descrevem como um verdadeiro "cerco repressivo", criando um clima em que celebrações públicas pela saída de Maduro são não apenas desencorajadas, mas perigosas. "Há medo. Há civis armados aqui. Você nunca sabe o que pode acontecer, eles podem atacar as pessoas", desabafou uma residente de Caracas ao The Guardian. Um decreto de emergência emitido pelo governo interino ordenou explicitamente a detenção de qualquer pessoa envolvida na "promoção ou apoio ao ataque armado dos Estados Unidos". Nesse contexto, a narrativa midiática que simplesmente aponta uma "ausência de comemorações" ou um "silêncio" nas ruas falha em investigar as causas profundas desse fenômeno: não é necessariamente indiferença, mas sim repressão ativa e medo.
As críticas à cobertura midiática atual encontram um perturbador paralelo nos eventos de abril de 2002. Durante o golpe que depôs Hugo Chávez por 47 horas e levou Pedro Carmona ao poder, uma notável omissão e um "silêncio suspeito" pairaram sobre setores da mídia internacional e brasileira. Naquele momento, como destacado por análises da época, grandes veículos trataram a queda de Chávez com alívio ou como uma "boa notícia", focando nas falhas do governo e minimizando a natureza golpista dos eventos.
Mais grave foi a atuação da mídia privada venezuelana. Após apoiar ostensivamente as manifestações que precederam a queda de Chávez, as principais emissoras do país fizeram um acordo para não exibir nem mencionar os protestos massivos que aconteciam em favor do presidente deposto, que culminaram em seu retorno ao poder. Este silêncio ativo, uma escolha editorial para ignorar a realidade das ruas, é um precedente histórico crucial para entender as suspeitas sobre a cobertura atual. Naquele caso, a narrativa da "normalidade" pós-golpe serviu para legitimar um governo de fato, assim como hoje pode servir para legitimar uma nova ordem sob pressão.
Em 3 de janeiro de 2026, enquanto o mundo observava as consequências do ataque, dois movimentos opostos tomaram as ruas de Caracas. De um lado, apoiadores de Maduro marcharam em direção ao Palácio de Miraflores para defender o governo e condenar a intervenção estrangeira. Do outro, setores da oposição que celebraram a captura do presidente se viram contidos pelo aparato de segurança e pelo medo dos colectivos.
Aqui, a narrativa da "ausência" de comemorações foi desafiada. A emissora privada venezuelana Venevision, em uma cobertura que se destacou pelo contraste, reportou que houve, sim, manifestações de alegria por parte de opositores em pontos da capital, ainda que de caráter mais tímido e contido se comparadas à mobilização chavista. Este detalhe é fundamental: ele desmonta a ideia de um consenso silencioso e revela um cenário polarizado, onde a expressão de um dos lados é suprimida pela força, não pela inexistência. Ignorar essa nuance é repetir o erro de 2002, quando a imensa mobilização popular pró-Chávez foi inicialmente ignorada por grande parte da imprensa.
A crise venezuelana de 2026, desencadeada por uma intervenção militar sem precedentes, é complexa e multifacetada. Reduzi-la a uma narrativa de "silêncio" ou "normalidade" nas ruas é um desserviço jornalístico que ignora lições históricas dolorosas. A análise crítica deve levar em conta:
O verdadeiro jornalismo reside na capacidade de escutar não apenas os gritos, mas também os sussurros sufocados pelo medo, e de lembrar que, na história recente da Venezuela, o silêncio midiático já foi, ele mesmo, um ator político.
Com informações de: Security Council Report, CNN, The Guardian, CGTN, Diario El Independiente, Aristegui Noticias, Caracas Chronicles, Wikipedia, Consultor Jurídico, Conecta Arizona ■