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Horas antes de tropas dos Estados Unidos invadirem a Venezuela e capturarem o presidente Nicolás Maduro, as redações do New?York?Times e do Washington?Post já tinham conhecimento detalhado da operação. Apesar disso, optaram por não publicar a notícia, aguardando até que as forças norte?americanas já estivessem fora do país. A revelação, feita originalmente pelo site Semafor, expõe um raro – e polêmico – episódio de cooperação entre a grande imprensa e o governo em plena missão militar.
No domingo seguinte, o secretário de Estado Marco?Rubio agradeceu publicamente aos veículos por terem mantido silêncio. “Agradecemos por isso, porque vidas poderiam ter sido perdidas. Vidas americanas”, disse Rubio no programa This?Week da ABC. O elogio oficial a redações que costumam ser alvo de ataques do presidente Donald?Trump soou como um reconhecimento de que, em situações de alto risco, a imprensa tradicional ainda aceita seguir o roteiro do poder.
Nos Estados Unidos não há mecanismo legal que permita ao governo censurar informações classificadas; a escolha de adiar a publicação foi, portanto, inteiramente editorial. O New?York?Times, por exemplo, começou a cobrir as explosões em Caracas por volta das 2?h, mas só confirmou a captura de Maduro depois que Trump divulgou a informação em suas redes sociais, cerca de duas horas depois. Essa postura insere?se numa longa tradição do jornalismo norte?americano de conter informações sensíveis a pedido do governo, sob a alegação de proteger vidas ou a segurança nacional – como ocorreu na invasão da Baía dos Porcos (1961) e na operação que matou Osama?bin?Laden (2011).
O caso levanta uma questão incômoda: ao segurar a notícia, a imprensa tornou?se cúmplice tácita da operação militar. O título “Golpe na Venezuela foi midiático?militar” não é mera retórica; reflete a estratégia de usar o silêncio midiático como escudo para as tropas. Enquanto a população venezuelana era surpreendida por explosões e tiros, os cidadãos norte?americanos – e o mundo – permaneciam alheios ao que ocorria. Só depois que a missão foi considerada “segura” é que a imprensa liberou a informação, já enquadrada pela narrativa oficial de sucesso.
Paralelamente ao silêncio inicial, o próprio New?York?Times publicou, no sábado (3?de?janeiro), um editorial classificando o ataque dos EUA à Venezuela como “ilegal e imprudente”. A contradição é evidente: o mesmo jornal que optou por não informar o público no momento crítico, depois condenou a ação como uma violação do direito internacional. Essa dualidade revela a tensão permanente entre o papel de vigilância (watchdog) e a tendência de colaboração com o poder estabelecido em nome da “segurança”.
A decisão do Times e do Post pode ter de fato contribuído para evitar baixas norte?americanas, como argumentou Rubio. No entanto, o episódio deixa marcas profundas na credibilidade jornalística: até que ponto a imprensa deve abdicar de seu dever de informar para servir a interesses militares? Em um contexto de relações já deterioradas entre a Casa Branca e a mídia, a cooperação tácita nesta operação mostra que, quando se trata de guerra, os limites éticos podem ser flexibilizados – e o silêncio pode ser a arma mais eficaz de todas.
Com informações de: Diário do Centro do Mundo, Público, 3Climas, NYT ■