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Imagens de um presidente algemado: a construção visual da narrativa
Agendamento e enquadramento midiáticos hegemônicos insistem em práticas que ultrapassam objetivo jornalístico e se transformam em estratégias de tentativa massiva de convencimento da população
Analise
Foto: https://img.nsctotal.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Trump-divulga-primeira-foto-de-Nicolas-Maduro-preso-algemado-e-vendadoos-numeros-sorteados-do-concurso-2869-Lotomania-com-premio-de-R-9-milhoes--720x405.jpg
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■   Bernardo Cahue, 04/01/2026

A primeira imagem de Nicolás Maduro sob custódia norte-americana não foi apenas um registro jornalístico; foi um instrumento narrativo de poder. Divulgada amplamente, a foto mostrava o presidente venezuelano com óculos escuros e fones de ouvido, uma encenação visual de subjugação e criminalização. Os detalhes foram minuciosamente descritos pela imprensa: o moletom, a possível algema, a postura imobilizada. A cobertura transformou um chefe de Estado em um prisioneiro de alta segurança, utilizando elementos visuais que "bloqueiam completamente a visão" e "impedem o entendimento do ambiente" para o próprio detido . Essa divulgação massiva, acompanhada pelo relato de que o presidente Donald Trump assistiu à captura "como ver um programa televisivo", reforça um enquadramento específico: a ação como um espetáculo de justiça, onde os EUA são os executores e Maduro, o vilão capturado.

A linguagem textual complementou a mensagem das imagens. Veículos referiram-se consistentemente a Maduro como "ditador", um termo carregado que se tornou quase um prefixo ao seu nome, apesar da complexidade política venezuelana e de sua base em processos eleitorais. Esse enquadramento constante serve como uma forma de agendamento (agenda-setting) e de enquadramento (framing), direcionando a opinião pública a aceitar premissas específicas antes mesmo de qualquer debate sobre os méritos legais ou as consequências geopolíticas da ação militar. A narrativa é unidimensional: trata-se da queda de um ditador, nunca da captura extraterritorial e militar de um presidente em exercício por uma potência estrangeira.

O Financiamento como Instrumento de Poder: USAID, NED e o Ecossistema Midiático

Por trás da uniformidade de certas narrativas, existe um histórico documentado de financiamento. A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e a Fundação Nacional para a Democracia (NED) têm atuado como braços financeiros da política externa norte-americana, canalizando recursos para veículos de comunicação em países considerados alvos. Um relatório de 2025 detalha como o corte desses fundos pelo governo Trump "sufoca a mídia crítica de Cuba, Venezuela e Nicarágua", revelando a dependência criada. Para alguns veículos, o financiamento internacional representava até 50% do orçamento anual.

Essa dependência gera um paradoxo e uma vulnerabilidade. Por um lado, esses veículos surgem como contraponto a meios estatais em regimes com controle sobre a imprensa. Por outro, sua sustentabilidade fica atrelada aos interesses e às mudanças políticas de Washington. Quando o financiamento é cortado, o resultado são "demissões em massa" e um "apagão informativo" , como ocorreu na Nicarágua. Esse mecanismo vai além do apoio direto; é uma forma de guerra cultural e de soft power. Análises especializadas apontam que a USAID opera com um orçamento bilionário na América Latina para promover uma "guerra cultural", infiltrando-se em setores como música e esporte para "erodir identidades coletivas" e promover narrativas favoráveis. O objetivo, nas palavras de um pesquisador, não é filantropia, mas "engenharia social".

O Caso Brasileiro como Paralelo: A "Vazajato" e as Suspeitas de Interferência

O padrão de construção de narrativas e o questionamento sobre a interferência de atores externos encontram um eco significativo no Brasil, no caso da Operação Lava Jato. As revelações da "Vazajato" em 2019, com diálogos entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, expuseram uma coordenação indevida entre juiz e acusação e um viés político explícito. Para uma ex-funcionária do Departamento de Estado dos EUA, as mensagens vazadas "afetam seriamente a reputação" de ambos e mostram "o viés político de alguns membros da equipe" .

O caso se conecta à narrativa sobre a Venezuela através de duas camadas. Primeiro, pela semelhança no tratamento midiático: a cobertura do caso do triplex de Guarujá, que levou à condenação de Lula, foi amplamente baseada nas versões do Ministério Público, com grande destaque às provas apresentadas por Moro, enquanto as contestações da defesa e as complexidades jurídicas receberam menor espaço. Segundo, pelas alegações nunca totalmente esclarecidas sobre conexões internacionais. Embora as alegações sobre Moro e Dallagnol terem ligações com agências de inteligência dos EUA, como a CIA sejam objeto de disputa, o fato de circularem em veículos específicos e serem ignorados pela grande mídia comercial ilustra a seletividade na pauta. A "Vazajato" revelou procuradores discutindo como uma entrevista de Lula poderia "eleger o Haddad", evidenciando uma preocupação eleitoral que deveria ser alheia a agentes da justiça, mas esse ângulo foi frequentemente minimizado em narrativas mainstream.

As Omissões Seletivas: O que a Narrativa Hegemônica Deixa de Fora

Uma análise crítica exige olhar não apenas para o que é dito, mas para o que é sistematicamente omitido. Na cobertura da captura de Maduro, praticamente não há espaço para o contexto histórico mais amplo das relações EUA-Venezuela ou para as alegações feitas pelas próprias autoridades norte-americanas em outros contextos. Por exemplo, declarações do ex-presidente Trump sugerindo que o "Cartel de los Soles" seria uma criação informal da CIA, ou que a acusação de "petróleo roubado" envolvia, na visão venezuelana, uma disputa sobre a nacionalização de recursos e o pagamento de royalties por exploração, são raramente citadas como parte do debate.

Da mesma forma, a repercussão internacional que condena a ação militar é frequentemente relegada a um plano secundário. Líderes de países como México, Colômbia, Chile e o próprio Brasil classificaram a operação como um "precedente perigoso" e uma violação do direito internacional. A Rússia a chamou de "ato de agressão armada", e a União Europeia, mesmo não reconhecendo a legitimidade de Maduro, pediu respeito aos princípios legais internacionais. Essas vozes dissonantes da narrativa triunfalista "libertadora" não recebem o mesmo destaque ou análise profunda, criando uma impressão de consenso internacional que, na realidade, não existe.

O Poder Narrativo entre a Geopolítica e o Consenso Fabricado

A cobertura do caso Maduro, vista em conjunto com padrões observados em outros contextos como o Brasil, revela um mecanismo complexo de poder. Não se trata de uma simples conspiração midiática, mas de um ecossistema estruturado por:

  • Interesses econômicos e geopolíticos de grandes potências, que utilizam o financiamento (USAID, NED) como ferramenta de influência .
  • Alinhamento editorial de grandes conglomerados de mídia com visões de mundo específicas, que enquadram conflitos em dicotomias simplistas (ditadura vs. democracia).
  • Práticas jornalísticas que privilegiam fontes oficiais apenas de um lado do conflito, desconsiderando contextos históricos e vozes dissidentes, inclusive, de atuais potências econômicas mundiais.
  • Estratégias visuais e de linguagem que criminalizam e desumanizam o "inimigo", facilitando a aceitação pública de ações extremas.

O resultado é uma narrativa hegemônica que serve a objetivos políticos específicos, marginalizando interpretações alternativas e omitindo informações que complicam o relato maniqueísta. A democratização da informação exige, portanto, não apenas acesso a fatos, mas uma desconstrução atenta das lentes através das quais esses fatos são apresentados. A verdadeira análise jornalística crítica reside na capacidade de questionar justamente as histórias que parecem mais óbvias e consensuais.

Com informações de: G1, BBC News Brasil, CNN Brasil, Swissinfo.ch, Veja, Diálogos do Sul/Opera Mundi ■

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