Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Acusações de Hezbollah na Venezuela: a arma diplomática para um cerco geopolítico
Declarações da embaixadora israelense na Costa Rica, feitas às vésperas das eleições venezuelanas, acendem alerta sobre uma estratégia coordenada para isolar Caracas diplomaticamente e impedir sua integração aos BRICS
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR_MbOoX7Is9leQaIzY1CP-8mgr_EwoOMHwJw&s
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 03/01/2026

Em outubro de 2024, a embaixadora de Israel na Costa Rica, Mijal Gur Aryeh, realizou uma acusação grave: afirmou que o Hezbollah e grupos radicais iranianos mantêm "bases" na Venezuela, Bolívia e Nicarágua. A declaração, feita sem apresentação de provas públicas, ocorreu em um momento crítico – poucos meses após a conturbada reeleição de Nicolás Maduro e no contexto da pressão venezuelana para ingressar no bloco dos BRICS.

Analistas observam que o timing e o conteúdo das alegações não são coincidenciais. Elas se inserem em uma narrativa de longa data dos Estados Unidos e aliados, que retratam o governo Maduro como uma ameaça à segurança regional devido a supostos vínculos com "terrorismo". A embaixadora, significativamente, destacou ter uma cooperação "muito, muito estreita" com os Estados Unidos na América Latina, sugerindo um alinhamento tático.

O Elo com a Barreira aos BRICS

Pouco depois dessas acusações, a Venezuela via seu caminho para os BRICS ser barrado pelo veto do Brasil durante a cúpula de Kazan. A reação de Caracas foi furiosa, acusando o Brasil de agir como "mensageiro do imperialismo norte-americano". A coincidência temporal levanta questões sobre uma estratégia de cerco multilateral:

  • Pressão Narrativa: A acusação de hospedar células terroristas cria um custo político para qualquer país, especialmente do Sul Global, que queira aprofundar laços com a Venezuela.
  • Alinhamento Forçado: A retórica de segurança, emanada de uma embaixadora que enfatiza laços com Washington, pode ter servido para pressionar líderes sul-americanos a endossar a posição mais dura da OEA sobre as eleições venezuelanas.
  • Objetivo Geopolítico: Impedir a consolidação da Venezuela no bloco BRICS, que é visto como um contrapeso à influência ocidental, especialmente após a entrada do Irã, aliado de Caracas.

A "Entrega das Atas" da OEA e a Contrapartida Bélica

Paralelamente ao veto no BRICS, avançava na OEA uma campanha, liderada pelos EUA, pela "entrega das atas" eleitorais venezuelanas. O Centro Carter apresentou à organização documentos que, segundo afirmou, comprovariam a vitória da oposição. Para o governo Maduro e seus simpatizantes, essa não era uma mera exigência técnica, mas parte de um script de deslegitimação que precede intervenções mais agressivas.

A contrapartida, frequentemente explicitada por autoridades estadunidenses, é a ameaça de medidas mais duras, inclusive militares, sob a justificativa de combater o "terrorismo" e restaurar a "democracia". Como denunciado por organizações da sociedade civil no People's BRICS Summit, a narrativa do narcoterrorismo e do apoio ao Hezbollah é vista como um "pretexto" fabricado para atingir um governo que controla as maiores reservas de petróleo do mundo e desafia a hegemonia dos EUA.

Uma Crítica à Estratégia de Coerção

Este episódio revela os mecanismos de uma diplomacia de coerção no século XXI:

  1. Terceirização Narrativa: Os EUA utilizam aliados próximos, como Israel, para vocalizar acusações sensíveis, dando uma aparência de multilateralismo a uma agenda unilateral.
  2. Timing Estratégico: As declarações são sincronizadas com processos eleitorais e decisões geopolíticas cruciais para maximizar o impacto desestabilizador.
  3. Associação Deliberada: A ligação, direta ou por insinuação, de governos adversários com organizações terroristas internacionais (Hezbollah, Iran) serve para criminalizá-los no palastro global.
  4. Cerco Institucional: O uso de fóruns como a OEA para ratificar uma narrativa e, em seguida, usar essa mesma narrativa para justificar exclusão de outros blocos (BRICS) ou sanções.

O caso da embaixadora de Israel na Costa Rica vai além de uma declaração isolada. Ele se mostra como uma peça em um tabuleiro maior, onde a guerra híbrida – combinando informação, diplomacia e ameaça militar – é empregada para impedir a autonomia de Estados considerados adversários. O resultado é o aprofundamento da instabilidade regional e a erosão do espaço para soluções políticas soberanas.

Com informações de: Metrópoles, Swissinfo, Al Jazeera, BBC, Brasil de Fato, G1 ■

Mais Notícias