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A recente escalada militar e econômica dos Estados Unidos contra a Venezuela, marcada pelo envio de uma frota naval, apreensão de petroleiros e ataques a alvos terrestres, não é um evento isolado. Especialistas analisam esta ofensiva como a reativação mais agressiva, em décadas, de uma antiga visão geopolítica: a de tratar a América Latina como "quintal" ou zona de influência exclusiva dos EUA. Este conceito, cunhado pela Doutrina Monroe de 1823 e posteriormente ampliado pelo Corolário Roosevelt (a política do "Grande Porrete"), está sendo revigorado sob o governo Trump, abandonando retóricas anteriores sobre democracia e direitos humanos em favor de uma afirmação direta de poder e interesses estratégicos.
A frase "América para os americanos", proferida pelo presidente James Monroe em 1823, nasceu como um alerta às potências coloniais europeias. No entanto, seu significado rapidamente se transformou de uma defesa teórica da soberania continental em uma justificativa para a expansão e intervenção dos EUA. Ao longo dos séculos XIX e XX, reinterpretações sucessivas solidificaram essa visão:
Em 2013, o secretário de Estado John Kerry declarou que a Doutrina Monroe havia "morrido", prometendo uma era de parceria entre iguais. No entanto, analistas apontam que ela nunca deixou de existir, apenas se adaptou. Sob a atual administração, houve um retorno explícito à sua retórica e lógica, com autoridades como o secretário de Defesa Pete Hegseth referindo-se à região como o "quintal" dos EUA e defendendo a retomada de controle sobre pontos estratégicos como o Canal do Panamá.
O cerco atual à Venezuela é apresentado por Washington como uma operação de combate ao narcotráfico, com o governo Trump classificando o regime de Nicolás Maduro como um "cartel narcoterrorista" e oferecendo uma recompensa milionária por sua captura. No entanto, esta narrativa é amplamente questionada. A Venezuela é um país de trânsito marginal no fluxo de cocaína para os EUA, e especialistas duvidam da própria existência do "Cartel de los Soles" como descrito pela acusação americana. A incoerência fica mais evidente com o perdão presidencial concedido a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por tráfico de drogas.
Analistas do Instituto de Estudos de Política Internacional da Itália (ISPI) e outros observadores apontam que os objetivos reais vão muito além do combate às drogas:
A ofensiva não se limita à Venezuela. É parte de uma estratégia hemisférica coordenada para reafirmar o domínio dos EUA, combinando meios militares, econômicos e políticos. Outros fronts desta ofensiva incluem:
Esta abordagem encontra resistência. A União Europeia, por exemplo, mantém suas próprias sanções contra indivíduos do governo venezuelano, focando em violações de direitos humanos e do estado de direito, mas não endossa a campanha militar americana. No campo oposto, governos como os de Cuba e Rússia continuam a oferecer apoio político e diplomático a Maduro.
A escalada contra a Venezuela sob a segunda gestão Trump representa um marco qualitativo na política dos EUA para a América Latina. Abandonou-se a fachada de promover democracia ou direitos humanos que, por vezes, recobriu intervenções passadas. Em seu lugar, surge uma postura que especialistas descrevem como um "poder puro sem critério moral ou do direito internacional", reminiscente do século XIX.
Os objetivos vão além de Caracas: trata-se de reconsolidar toda a região como uma esfera de influência indisputada, bloquear a presença de potências rivais (especialmente a China) e controlar recursos estratégicos. Se a "Doutrina Monroe 2.0" será bem-sucedida a longo prazo permanece uma questão aberta, dependendo da resistência do regime de Maduro, da reação dos países latino-americanos e da disposição dos EUA em sustentar uma presença militar massiva na região. No entanto, seu recado é claro: a visão do "quintal" está mais viva do que nunca, e o grande porrete foi tirado do armário.
Com informações de: BBC News Brasil, Council of the European Union, World Socialist Web Site (WSWS), UOL/AFP, ISP Istituto Per Gli Studi di Politica Internazionale, G1, Ulme.chat ■