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A contabilidade dos mortos tornou-se um campo de batalha paralelo na guerra entre Rússia e Ucrânia. Enquanto fontes oficiais de ambos os lados divulgam números que servem a propósitos políticos e morais, análises independentes tentam desvendar a magnitude real da tragédia. O ano de 2025 trouxe uma escalada sombria: o ritmo de baixas militares russas atingiu seu ponto mais acelerado desde o início da invasão em larga escala, em 2022, com um aumento de cerca de 40% na frequência de mortes em relação a 2024. A alegação de que mais de 400.000 russos foram mortos ou feridos para conquistar uma fração minúscula do território ucraniano sintetiza a brutal lógica de desgaste que caracteriza os combates atuais.
O Kremlin mantém um silêncio quase absoluto sobre suas perdas. A última atualização oficial russa data de setembro de 2022, quando o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, anunciou 5.937 mortos. Desde então, o vácuo é preenchido por investigações meticulosas de jornalistas independentes. O Serviço Russo da BBC, em parceria com o veículo independente Mediazona, mantém uma lista de nomes confirmados por meio de obituários, notícias locais, redes sociais e registros de cemitérios.
Até novembro de 2025, essa contagem confirmou os nomes de quase 160.000 soldados russos mortos. No entanto, especialistas consultados pela BBC advertem que essa lista representa apenas a "ponta do iceberg", estimando que captura entre 45% e 65% do total real. Isso elevaria o número de mortos no lado russo para um intervalo devastador: entre 243.000 e 352.000. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) apresenta uma estimativa alinhada, calculando o total de russos mortos e feridos em cerca de 1,1 milhão, com aproximadamente 250.000 mortes.
Este aumento dramático em 2025 está diretamente ligado a uma mudança tática do Kremlin. Determinada a consolidar ganhos territoriais antes de possíveis negociações de paz influenciadas pelo novo cenário político em Washington, a Rússia intensificou o uso de assaltos de infantaria em massa, muitas vezes apelidados de táticas de "moedor de carne". Esta estratégia, que recorre pesadamente a ex-presidiários e mercenários, visa romper as defesas ucranianas em pontos estratégicos como Pokrovsk, mas a um custo humano exorbitante e com ganhos territoriais mínimos.
Do lado ucraniano, a divulgação de números também é estratégica e limitada. O presidente Volodymyr Zelenskyy afirmou em fevereiro de 2025 que 31.000 soldados ucranianos haviam sido mortos. Esta é a única figura oficial recente, mas especialistas e aliados consideram-na conservadora. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington, estima que as mortes ucranianas podem variar entre 60.000 e 10.000. A análise da BBC, cruzando diferentes fontes, sugere que o total de ucranianos mortos pode chegar a aproximadamente 140.000.
.Este vácuo de informação oficial abre espaço para campanhas maciças de desinformação. Em agosto de 2025, grupos "hacktivistas" pró-Kremlin, como o Killnet, alegaram ter hackeado bancos de dados ucranianos que provariam a perda de 1,7 milhão de soldados ucranianos. A narrativa, amplificada por veículos estatais russos como a RT, foi prontamente desmontada por verificadores de fatos. Especialistas apontaram que a Ucrânia nunca mobilizou um exército desse tamanho – o presidente Zelenskyy mencionou em janeiro de 2025 uma força de cerca de 880.000 pessoas – e que a campanha tinha todos os sinais de uma operação de desinformação coordenada para minar a moral.
A análise crítica dos números revela uma verdade estratégica crucial: a guerra degenerou em um conflito de atrito extremo, onde avanços territoriais são mínimos e desproporcionais ao custo humano. Dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) indicam que, mesmo após a cúpula do Alasca entre Putin e Trump em agosto de 2025 – que intensificou os esforços de paz –, os avanços russos continuaram a um ritmo lento e penoso.
Por exemplo, na batalha chave pela cidade de Pokrovsk, as forças russas, após entrarem nos subúrbios em julho de 2025, avançaram a uma média de apenas 0,12 quilômetros por dia. Após mais de 118 dias de combates intensos, ainda não haviam consolidado o controle total sobre a cidade. Em termos de território total, estimativas de dezembro de 2025 indicam que a Rússia controla cerca de 19,69% do território ucraniano, incluindo a Crimeia anexada em 2014. Isto significa que, apesar do imenso sacrifício humano, os ganhos desde o início da invasão em 2022 são limitados.
Esta realidade de desgaste é sustentada por uma máquina de recrutamento russo que evita uma mobilização geral impopular. Em vez disso, o estado recorre a pagamentos altíssimos, campanhas em universidades e, de forma mais sinistra, oferece contratos militares a detidos sob acusações criminais como uma saída da prisão. Até outubro de 2025, mais de 336.000 pessoas haviam se alistado voluntariamente no ano, um fluxo que, segundo as autoridades russas, supera as perdas mensais.
Por trás da guerra dos números estão famílias devastadas e um país, a Ucrânia, que sofre profundamente no campo civil. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos documentou, de fevereiro de 2022 a novembro de 2024, a morte de 12.162 civis ucranianos e ferimentos em outros 26.919. Ataques a infraestrutura energética, hospitais e escolas causaram sofrimento massivo.
Esta carnificina forma o pano de fundo das frágeis negociações de paz. O Kremlin, apesar das perdas colossais, mostra pouca inclinação para concessões. Analistas do ISW observam que a Rússia continua a estabelecer condições para rejeitar qualquer acordo que não atenda a todas as suas exigências maximalistas, usando a narrativa de uma "vitória inevitável" como pressão. Enquanto isso, as estimativas de perdas tornam-se moeda de troca: números altos de baixas russas fortalecem o argumento ucraniano por mais apoio militar ocidental, enquanto números inflados de baixas ucranianas são usados por Moscou para vender a ideia de que Kiev está à beira do colapso.
A conclusão é que, na Ucrânia, os números não são apenas estatísticas. São armas de informação, ferramentas de mobilização e, acima de tudo, um reflexo opaco de uma tragédia humana de escala continental. A verdade completa sobre quantos morreram pode levar anos, ou mesmo décadas, para ser totalmente conhecida, mas as estimativas disponíveis já pintam um quadro de sacrifício quase incompreensível por ganhos territoriais que, no mapa, parecem insignificantes.
Com informações de: BBC News, DN Portugal, Wikipédia, Euronews, Human Rights Watch, SIC Notícias, Institute for the Study of War ■