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Retrospectiva 2025: a ordem frágil de um mundo fragmentado
O ano encerrou ciclos históricos e abriu novas frentes de tensão, com democracias testadas, guerras em tréguas precárias e uma reconfiguração geopolítica acelerada pela corrida tecnológica e por recursos estratégicos
Analise
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■   Bernardo Cahue, 01/01/2026

O Capítulo Judicial Brasileiro: Condenações Históricas e os Limites da Justiça

O Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou em dezembro um dos julgamentos mais significativos da história democrática brasileira, condenando 29 pessoas pela trama golpista que visava manter o ex-presidente Jair Bolsonaro no poder após as eleições de 2022. O núcleo principal, incluindo Bolsonaro, recebeu penas que somam décadas de prisão, com a sentença do ex-presidente chegando a 27 anos e três meses.

Contudo, a aplicação das penas revela um processo em andamento e nuances jurídicas. Até o final do ano, apenas as condenações do núcleo 1 (de Bolsonaro) haviam sido executadas, com os demais casos ainda em fase de recurso. Além disso, o ministro Alexandre de Moraes abriu possibilidade para que dois militares condenados com penas baixas – coronel Márcio Resende (3 anos e 5 meses) e tenente-coronel Ronald Ferreira (1 ano e 11 meses) – firmem acordos de não persecução penal, evitando o cárcere mediante confissão e prestação de serviços à comunidade. Esses acordos sinalizam diferenciações na responsabilização, aplicadas àqueles com participação considerada secundária e sem violência.

Gaza: A "Pesadilha Interminável" e a Frágil Esperança em Meio aos Escombros

Após dois anos de um conflito devastador, os palestinos em Gaza recebem 2026 "exaustos, doloridos e com a frágil esperança" de que a guerra possa terminar. Um cessar-fogo em vigor desde 10 de outubro de 2025 trouxe um alívio precário, mas a paisagem é de destruição absoluta: a vida diária é uma luta por sobrevivência entre ruínas, com eletricidade escassa e centenas de milhares vivendo em barracas improvisadas.

As dimensões da tragédia são históricas. Dados do Ministério da Saúde de Gaza, citados em levantamento, apontam para mais de 70 mil mortos palestinos, sendo a grande maioria civis. A infraestrutura foi dizimada, com 90% dos edifícios danificados ou destruídos e o deslocamento forçado de aproximadamente dois milhões de pessoas. Enquanto crianças escrevem "2026" na areia como gesto de esperança, a reconstrução esbarra em uma crise humanitária profunda, sanções militares contínuas e um bloqueio que dificulta a entrada de ajuda essencial, mantendo a população refém de uma normalidade que ainda não chegou.

A Busca Americana por Recursos e a "Doutrina Donroe" em Ação

A estratégia dos Estados Unidos sob Donald Trump para garantir suprimentos de terras raras e minerais críticos seguiu dois caminhos paralelos em 2025: a diplomacia de acordos e a pressão militar.

  • Rota Diplomática (Ucrânia): Em abril, EUA e Ucrânia assinaram um acordo histórico para exploração conjunta de minerais, incluindo terras raras, lítio e grafite. Trump afirmou que o pacto era condição para fornecer garantias de segurança a Kiev, vinculando explicitamente apoio à acesso a recursos. O acordo, parte de um Fundo de Investimento para Reconstrução, visa reduzir a dependência da China, que domina 90% do mercado global.
  • Rota de Pressão (Venezuela): No Caribe, os EUA iniciaram uma ofensiva militar, apreendendo petroleiros e impondo bloqueio, oficialmente para combater o narcotráfico. O presidente Nicolás Maduro acusou: "Não é Maduro, é o petróleo que querem. Não é Maduro, é o ouro, as terras raras". Analistas enxergam nessa movimentação uma releitura da Doutrina Monroe, agora chamada de "Doutrina Donroe", buscando reafirmar influência e controle sobre recursos na América Latina.

Essas ações, junto a tarifas comerciais agressivas, ilustram uma política externa transacional e orientada por interesses materiais imediatos, que tem gerado atritos com aliados e aumentado a instabilidade regional.

A Ascensão Tecnológica da China e a Nova Fronteira da Competição

Enquanto os EUA buscam assegurar inputs materiais, a China avança aceleradamente na fronteira imaterial da economia do conhecimento. O mercado de Inteligência Artificial do país deve superar 1 trilhão de yuans (cerca de R$ 770 bilhões) até o final de 2025. Este crescimento é sustentado por:

  1. Domínio em Propriedade Intelectual: a China detém cerca de 60% das patentes globais de IA.
  2. Integração Industrial: o uso de grandes modelos de linguagem na produção industrial saltou de 19,9% (2024) para 25,9% (2025).
  3. Autonomia em Chips: no último trimestre de 2024, mais de 50% dos chips em data centers chineses já eram de fabricação doméstica.

A iniciativa IA Plus, do Conselho de Estado, visa integrar profundamente a IA em setores estratégicos até 2027. Esse avanço coloca a China não apenas como competidora, mas como potencial definidora de padrões e arquitetura da próxima geração tecnológica, representando um risco competitivo de longo prazo para a hegemonia das empresas de tecnologia americanas.

O Crepúsculo do Governo Trump: Crise Interna e Impulso Beligerante

O segundo mandato de Donald Trump termina 2025 marcado por desgaste crescente, polarização e uma agenda voltada para políticas de efeito imediato com vistas às eleições de meio de mandato de 2026. Internamente, a popularidade de suas políticas de imigração caiu, e a caça a imigrantes enfrenta resistência de prefeituras e perde apoio até dentro do Partido Republicano. A economia, embora resiliente, não tem sido suficiente para conter a fragmentação política e a incerteza institucional.

Na política externa, o ano foi de acordos voláteis de cessar-fogo (como os que envolvem Gaza) em vez de paz duradoura, e de uma guinada para o unilateralismo. A postura beligerante no Caribe e a imposição de tarifas comerciais são partes de uma estratégia mais ampla de protecionismo e afirmação de poder, que analistas preveem se intensificar em 2026, com a América Latina como palco principal. O mundo se pergunta, portanto, não sobre a direção, mas sobre a intensidade e as consequências imprevisíveis desse estilo de governar na última etapa do mandato.

Conclusão: Os Pilares de uma Nova (Des)Ordem

2025 demonstrou que as instituições democráticas, embora sob estresse, podem ser resilientes, como visto no Brasil. Simultaneamente, mostrou que a competição geopolítica do século XXI se dará em um tabuleiro multidimensional: no campo judicial, nos escombros de guerras por procuração, nos fundos marinhos ricos em minerais e nos algoritmos de inteligência artificial. A fragilidade dos cessar-fogos, a volatilidade das alianças e a corrida desesperada por recursos e supremacia tecnológica sugerem que a ordem emergente é menos estável e mais perigosa. O ano de 2026 se inicia, portanto, com uma interrogação aberta sobre a capacidade dos sistemas globais de absorverem esses choques simultâneos sem rupturas maiores.


Com informações de Agência Brasil, Wikipedia, TV BRICS, BBC, G1, CNN Brasil, Barron's, Valor Econômico ■

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