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A campanha militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, intensificada desde agosto de 2025 e marcada por mais de 20 ataques a embarcações e mais de 80 mortos, é justificada publicamente como uma operação para "remover narcoterroristas do Hemisfério Ocidental" e proteger os EUA de drogas letais. No entanto, uma análise das alegações, confrontadas com dados de agências antidrogas e do contexto geopolítico, indica que o combate ao narcotráfico serve como um pretexto conveniente para uma estratégia mais ampla: estrangular economicamente o governo de Nicolás Maduro, acessar as vastas reservas de petróleo do país e forçar uma mudança de regime.
A administração Trump construiu uma narrativa detalhada para fundamentar suas ações. O presidente Donald Trump e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, repetidamente acusam a Venezuela e grupos criminosos ligados ao seu governo, como o Cartel de los Soles e o Tren de Aragua, de inundar os Estados Unidos com drogas mortais, especialmente fentanil. Esta acusação é a pedra angular para designar tais grupos como organizações terroristas estrangeiras—uma decisão formalizada por uma ordem executiva em janeiro de 2025. Essa designação é crucial, pois, na visão do governo americano, transforma o combate ao crime em uma campanha contra o terrorismo, abrindo caminho para o uso de operações militares letais sem declarar guerra formalmente.
Quando confrontada com evidências de agências especializadas, a narrativa oficial desmorona. Os dados apresentam três contradições fundamentais:
A escalada seguiu um roteiro claro, sempre centrado na Venezuela e não em países com rotas de tráfico mais significativas. Em fevereiro de 2025, o governo Trump designou formalmente o Tren de Aragua e outros como organizações terroristas. Em agosto, a recompensa pela captura de Maduro foi duplicada para US$ 50 milhões, e foi lançada a "Operação Lança do Sul". A ordem executiva que autorizou o uso da força militar contra cartéis foi assinada, permitindo ações sem a aprovação explícita do Congresso. O desfecho recente foi a apreensão do petroleiro "Skipper", justificada por vínculos com o Irã e o Hezbollah—um alvo que, pela primeira vez, desloca explicitamente o foco do narcotráfico para o petróleo e as sanções internacionais.
Analistas apontam que o rótulo de "narcoterrorismo" cria uma arquitetura jurídica e operacional flexível para a intervenção. Segundo Björn Beam, da Arcano Research, ao declarar um "conflito armado" contra atores não estatais em território venezuelano, Washington "difuminou a fronteira entre a luta contra o terrorismo e o cambio de regime". Isso permite que operações militares evoluam de ataques no mar para ações terrestres seletivas sem novas autorizações políticas. A estratégia conta com apoio logístico de nações caribenhas como República Dominicana, Trinidad e Tobago, e uso de territórios como Curaçao e Aruba, que fornecem bases para vigilância e reconhecimento.
A apreensão do petroleiro "Skipper" trouxe à tona o cerne da disputa. Em sua resposta, o governo venezuelano foi direto: "A verdadeira razão da agressão prolongada contra Venezuela... Sempre se tratou das nossas riquezas naturais, do nosso petróleo". Especialistas concordam que uma campanha sustentada contra a infraestrutura petrolífera venezuelana—seja via bloqueio ou apreensões—teria o poder de paralisar a já combalida economia do país, que depende das exportações de petróleo. A retórica do narcoterrorismo, portanto, serve como um guarda-chuva político conveniente. Ela mobiliza a opinião pública doméstica nos EUA em torno de uma crise de saúde (overdoses), fornece uma justificativa legal expansiva para o uso da força e, o mais importante, desvia a atenção do objetivo estratégico de longo prazo: controlar as maiores reservas de petróleo do mundo e definir o futuro político da Venezuela.
Com informações de: BBC, USA Today, Outras Palavras, CNN Español, Wikipedia, CNN Brasil, Correio Braziliense, CBN Globo ■