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A conexão entre diplomacia, justiça e a crise política de Eduardo Bolsonaro
Enquanto Lula e Trump discutem cooperação contra o crime, a situação do deputado, réu no STF e à beira da cassação, torna-se um ponto focal das tensões bilaterais
Analise
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■   Bernardo Cahue, 10/12/2025

A terceira conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 3 de dezembro de 2025, marcou uma nova etapa na complexa relação bilateral. O tema central foi o combate ao crime organizado transnacional, com Lula propondo ações conjuntas de inteligência e sugerindo que os EUA comecem a prender chefes de facções brasileiros que atuam a partir de seu território. Este diálogo ocorre no contexto de uma crise diplomática iniciada com sanções americanas ao Brasil e se sobrepõe à delicada situação política e jurídica do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos EUA e acumula processos que ameaçam seu mandato e sua liberdade.

A afirmação de Lula — "Vamos prender os brasileiros que estão aí" —, feita um dia após a ligação de 40 minutos com Trump, foi divulgada pelo Palácio do Planalto. A declaração, embora genérica, ressoa como um contraponto diplomático às ações de Eduardo Bolsonaro em solo americano. Desde que deixou o Brasil em fevereiro de 2025, alegando perseguição judicial, o deputado tem se encontrado com representantes do governo Trump e relatado trabalhar a favor da decisão de sobretaxar produtos brasileiros. A Polícia Federal indiciou e o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou Eduardo réu pelo crime de coação no curso do processo, acusando-o de tentar influenciar os rumos dos processos do pai, Jair Bolsonaro, por meio das sanções econômicas.

O Cerco Jurídico e Político a Eduardo Bolsonaro

A trajetória do deputado parece entrar em um ponto de inflexão simultânea em várias frentes. O presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou em 9 de dezembro que Eduardo Bolsonaro já acumulou faltas suficientes para ter o mandato cassado. Dos 71 dias de sessão em 2025, ele faltou a 56, ou quase 79%, ultrapassando amplamente o limite constitucional de um terço de ausências. Motta abreviou o rito processual, que normalmente ocorreria apenas em março de 2026, e deu ao deputado o prazo de cinco sessões para se defender, com expectativa de concluir a cassação ainda naquela semana.

Em paralelo, o processo criminal no STF avança. A Primeira Turma da Corte, em julgamento virtual concluído em 26 de novembro, aceitou por unanimidade a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e tornou Eduardo Bolsonaro réu formalmente. A acusação sustenta que o parlamentar atuou junto ao governo americano para promover as sanções contra o Brasil como forma de pressionar o Judiciário brasileiro nos casos que envolvem sua família. Em entrevista ao Estadão, Eduardo afirmou que considera seu retorno ao país "inviável" no momento, sob o risco de ser preso, e acusou o ministro Alexandre de Moraes de querer "assassinar" Jair Bolsonaro na prisão.

A Análise da Imprensa: Entre a Geopolítica e a Psicopolítica

A cobertura jornalística do caso se divide entre análises da crise diplomática de alto nível e um escrutínio intenso sobre a conduta e o discurso de Eduardo Bolsonaro.

  • Foco na Diplomacia e Consequências: Veículos como G1 e Agência Brasil noticiaram os fatos de forma direta, centrando-se na conversa Lula-Trump e nos trâmites objetivos da cassação e do processo no STF. A BBC trouxe a análise do brasilianista Brian Winter, que caracterizou o Brasil como um "alvo perfeito de baixo custo" para a Casa Branca de Trump e previu que a crise "vai piorar antes de melhorar", especialmente se Jair Bolsonaro fosse preso — o que de fato aconteceu. Winter rejeitou a descrição do Brasil como um regime autoritário, definindo-o como "uma democracia onde a liberdade de expressão foi restringida".
  • Crítica ao Discurso e ao Comportamento: Outros espaços, principalmente em colunas de opinião, focaram na narrativa construída por Eduardo. O colunista Gabriel Wainer, no portal GaúchaZH, foi contundente ao classificar as ações do deputado como "paranoia" e "delírio conspiratório", especialmente após Eduardo sugerir que um assalto a seus avós teria sido "mandado" pelo ministro Alexandre de Moraes. Wainer argumentou que ele "transforma o trauma da própria família em munição contra inimigos imaginários". De forma semelhante, Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo, lembrou episódios passados para caracterizar a "propensão de Jair Bolsonaro a atravessar surtos de paranóia", contextualizando o incidente da tornozeleira eletrônica violada.

Esta cobertura dual reflete a natureza híbrida do caso: um assunto de política externa com profundas repercussões domésticas, personificado em um ator político que opera na interseção entre as duas esferas. A postura de Eduardo Bolsonaro, que incluiu deixar um bilhete com os dizeres "Solta o Bolsonaro" e "Free Bolsonaro" no Muro das Lamentações, em Israel, é tratada pela imprensa ora como um dado político relevante, ora como um sintoma de uma crise narrativa mais ampla.

O Entrelaçamento dos Interesses: Soberania, Justiça e Pressão Externa

O núcleo da crise revela um conflito de visões sobre soberania e justiça. De um lado, o governo Lula e parte do establishment político brasileiro, incluindo os presidentes do Congresso, defendem a autonomia do sistema jurídico nacional frente a pressões externas. A conversa de Lula com Trump sobre prender chefes do crime no exterior pode ser lida como uma afirmação dessa soberania, tentando redirecionar a agenda bilateral para um tema de interesse mútuo, mas sob a égide da cooperação, não da ingerência.

De outro, a estratégia de Eduardo Bolsonaro e, aparentemente, da administração Trump, é a de instrumentalizar a política externa americana para criar alavancagem em um processo judicial doméstico brasileiro. Brian Winter avalia que Trump vê "paralelos quase perfeitos" entre as situações jurídicas dele e de Jair Bolsonaro, tornando o caso pessoal. Essa dinâmica coloca Eduardo não apenas como um réu ou um parlamentar à beira da cassação, mas como um agente ativo em um jogo geopolítico de alto risco.

A antecipação do processo de cassação por Hugo Motta sinaliza que a política institucional brasileira parece decidida a seguir seu curso, independentemente das pressões externas. O fato de uma eventual cassação por faltas não tornar Eduardo inelegível mostra que, embora o parlamento possa cassar seu mandato por descumprir deveres básicos, o debate sobre seus direitos políticos e sua eventual candidatura em 2026 — algo que ele mesmo menciona como uma possibilidade — permanece em aberto e continuará a alimentar a tensão entre Brasília e Washington.

Com informações de: G1, Estadão, BBC News Brasil, Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Congresso em Foco, GaúchaZH, Correio Braziliense ■

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