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A paisagem política que cerca a família Bolsonaro no final de 2025 é a de um deserto em expansão. O que antes se apresentava como um movimento de massas capaz de levar multidões às ruas, hoje se reduz a cenas de poucas dezenas de apoiadores, divisões familiares, rejeição de bases tradicionais e um esforço desesperado para evitar que seu patriarca, Jair Bolsonaro, definhe na prisão. A condenação definitiva do ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) não foi apenas um veredito judicial, mas o catalisador de uma implosão política acelerada, expondo fraturas, calculismos malsucedidos e um isolamento crescente. Esta análise traça os múltiplos fronts desse colapso, mostrando como a estrela que ascendeu prometendo unir a direita se apaga em meio a uma última e arriscada jogada pela anistia.
A imagem mais emblemática do esvaziamento bolsonarista ocorreu em 30 de novembro, em frente ao Museu Nacional da República. Convocado para pedir a anistia e a liberdade de Jair Bolsonaro, o ato reuniu cerca de 130 pessoas, uma fração mínima do que o movimento já mobilizou no passado. A concentração foi tão pequena que parte do público preferiu se abrigar na sombra, e o evento, previsto para durar até as 17h, foi encerrado antes das 16h. A presença política foi igualmente esparsa, limitando-se à vereadora Flávia Berthier (PL-MA) e ao deputado federal Marcos Pollon (PL-MS). Em entrevista, um organizador tentou justificar o fracasso alegando que as pessoas estariam "amedrontadas" de sair de casa, prometendo novos atos em outras capitais. No entanto, o contraste entre a retórica de um movimento popular vigoroso e a realidade de uma manifestação minguada é gritante e serve como termômetro incontestável do declínio.
Enquanto o apoio de base murchava, uma estratégia de pressão externa idealizada principalmente pelo deputado licenciado Eduardo Bolsonaro mostrou-se um estrondoso fracasso de cálculo político. Eduardo, vivendo nos Estados Unidos e atuando como "conselheiro informal" para o governo de Donald Trump, foi um dos articuladores das sanções contra o Brasil, incluindo o "tarifaço" de 50% sobre produtos brasileiros e a ameaça de aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades. A justificativa era que a pressão econômica forçaria o sistema político brasileiro a conceder anistia a Jair Bolsonaro. O resultado foi o oposto: a medida gerou ampla rejeição popular e uniu setores contrários em torno da defesa da soberania nacional.
Um dos golpes mais simbólicos ao núcleo duro do bolsonarismo veio de uma base de apoio que se considerava inabalável: os caminhoneiros. Convocados para uma greve nacional em 4 de dezembro em defesa da anistia, a resposta das lideranças da categoria foi um sonoro e público não. Wallace Landim, o Chorão, presidente da Abrava, foi direto: "Quem estiver insatisfeito que vá para a rua fazer seu movimento. Mas usar o caminhoneiro... para defender político A ou político B eu não concordo". Carlos Alberto Litti Dahmer, da CNTTL, foi além: "Não dá para querer anistiar quem tentou transformar a democracia de um país através de um golpe". A reverberação negativa nas redes sociais entre caminhoneiros comuns foi intensa, com muitos gravando vídeos para negar a paralisação e criticar o ex-presidente, sinalizando uma ruptura profunda com um pilar histórico de apoio.
No campo eleitoral, o projeto de sucessão bolsonarista também naufraga. Com Jair Bolsonaro inelegível e preso, a tentativa de Flávio Bolsonaro de assumir o protagonismo e se lançar como candidato em 2026 tem sido um caminho de derrotas e desgastes. Sua atuação é vista com desconfiança dentro do próprio PL, e ele enfrenta sérios obstáculos:
Diante desse cenário de cerco total – com o patriarca preso e condenado, um filho exilado e investigado, outro filho político fragilizado e sem apoio, e as bases sociais e econômicas evaporando – a anistia "ampla, geral e irrestrita" transformou-se na única moeda de troca restante. É a cartada final de Jair Bolsonaro para tentar escapar do esquecimento na cadeia. No entanto, essa jogada esbarra em enormes dificuldades: a rejeição da opinião pública a um perdão para condenados por atos golpistas, a relutância do Congresso em pautar o tema sob o risco de mais retaliações internacionais e a própria falta de força política da família para impor essa agenda.
O ciclo bolsonarista, que prometia uma reconfiguração duradoura da direita brasileira, chega a um ponto de quase dissolução. O que resta é uma família dividida, uma liderança encarcerada, um partido em fuga e uma base que não mais comparece aos chamados. A estrela que um dia brilhou com intensidade no céu político brasileiro não simplesmente se apagou; ela implodiu, consumida por suas próprias contradições, cálculos errados e pela resistência das instituições que tentou subverter.
Com informações de Poder360, UOL, Diário do Centro do Mundo, Gazeta do Povo, CBN, ICL Notícias, Goiás 246, BBC ■