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Protestos minguados, aliados em fuga e disputas internas escancaram isolamento dos Bolsonaro
A condenação e prisão do ex-presidente desencadeiam uma série de reveses que expõem a fragilização de sua liderança e as fissuras em seu campo político
Analise
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■   Bernardo Cahue, 04/12/2025

O ano de 2025 marca um ponto de inflexão na trajetória política de Jair Bolsonaro e de seu círculo mais próximo. Com o ex-presidente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado e fisicamente confinado, as bases de seu poder – construídas sobre mobilização de ruas, alianças com setores-chave como os caminhoneiros e um forte controle sobre o seu partido – estão se revelando frágeis. Três eventos recentes formam um mosaico elucidativo deste isolamento crescente: a baixíssima adesão a um protesto por sua anistia, a rejeição formal de suas convocações por parte dos caminhoneiros, e o desgaste causado pela tentativa de Michelle Bolsonaro de assumir as rédeas das articulações políticas.

O confinamento de Bolsonaro vai além das paredes da sala da Polícia Federal onde está preso. Sua comunicação com o mundo exterior é severamente restrita, limitada a visitas familiares e de advogados previamente autorizadas, sem acesso a celular ou redes sociais. Este cenário criou um vácuo de liderança imediata, um terreno fértil para disputas de sucessão e, como visto nas ruas, para a dissipação do fervor que antes garantia multidões em suas defesas.

O silêncio das ruas: a manifestação que não ecoou

Um dos termômetros mais sensíveis do apoio político popular é a capacidade de mobilizar pessoas para um evento público. Neste aspecto, o campo bolsonarista sofreu um revés significativo. Uma convocatória para uma "mega-manifestação" em Brasília, com o objetivo central de pressionar pela alteração da Lei da Anistia de 1979 para beneficiar Bolsonaro e os envolvidos nos atos de 8 de janeiro, resultou em uma presença pífia de aproximadamente 130 pessoas.

Este número, irrisório para os padrões das mobilizações que marcaram os últimos anos, sinaliza mais do que desinteresse. Ele reflete:

  • Esgotamento da pauta: A tentativa de equiparar a situação de Bolsonaro à dos perseguidos políticos da ditadura militar é vista por especialistas como um "cinismo" e uma "incoerência constitucional".
  • Fadiga da base: Após anos de tensão política constante, parte da base pode estar experienciando um cansaço, agravado pela condenação judicial definitiva de seu líder.
  • Falta de condução central: A ausência física e digital de Bolsonaro, antes um aglutinador e mobilizador direto via redes sociais, demonstra ter um impacto tangível na capacidade de convocação.

A Fissura com a Base: Caminhoneiros Rejeitam a Politização

Se as ruas se calaram, um pilar histórico de apoio e capacidade de pressão também deu sinais claros de ruptura. Setores dos caminhoneiros, instrumentalizados politicamente em momentos anteriores, agora publicamente rejeitam o chamado para uma paralisação em defesa de Bolsonaro. A convocação, feita por figuras sem representatividade formal perante as entidades nacionais do setor, foi rapidamente desautorizada.

As principais entidades da categoria tomaram uma posição dura e unânime:

  • A Fetrabens (Federação dos Caminhoneiros Autônomos de São Paulo) afirmou não participar, não convocar e nem ter deliberado sobre o ato, ressaltando que a "União Brasileira dos Caminhoneiros" não tem legitimidade para falar em nome da categoria.
  • A CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística) posicionou-se de forma semelhante, declarando não compactuar com "movimentos de manipulação política".

Este episódio evidencia um aprendizado do setor após as paralisações de 2018. As lideranças formais, preocupadas com a credibilidade e as reivindicações trabalhistas concretas (como piso de frete e aposentadoria), buscam ativamente se distanciar de agendas político-partidárias que possam dividir a categoria e desvirtuar suas demandas originais. É um claro sinal de que o apoio de setores estratégicos não é incondicional e pode se esvair quando a associação se torna um risco à imagem e aos interesses da categoria.

A guerra pela sucessão: Michelle e o desgaste com os aliados

Internamente, o isolamento se manifesta como uma disputa acirrada pelo controle do projeto político. Com Bolsonaro fora de cena, sua esposa, Michelle Bolsonaro, tenta assumir um protagonismo que tem gerado atritos em duas frentes principais: com os filhos do ex-presidente e com os partidos aliados do centrão e da direita.

O episódio mais emblemático ocorreu no Ceará, onde Michelle criticou publicamente e de forma contundente uma articulação do PL local para formar uma aliança com o ex-governador Ciro Gomes, agora filiado ao PSDB. Ela classificou o movimento como "precipitado" e declarou: "Fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, isso não dá".

Esta intervenção:

  1. Desencadeou uma crise familiar: Flávio Bolsonaro rebateu publicamente, acusando Michelle de ser "autoritária" e de ter "atropelado" um acordo que teria o aval do próprio ex-presidente.
  2. Causou irritação no Centrão e na direita: Lideranças políticas destes grupos veem com maus olhos a intromissão da família Bolsonaro em costuras estaduais complexas, preferindo um pragmatismo que amplie alianças em vez de restringi-las por lealdades pessoais.
  3. Revelou a luta pelo legado: A ação de Michelle é interpretada como uma tentativa de se firmar como a guardiã e porta-voz oficial do marido preso, blindando a influência da família e mobilizando o eleitorado conservador e feminino, sua base de atuação.

Um projeto político em xeque

Os três eixos analisados – a mobilização de rua, o apoio de setores organizados e a coesão da coalizão política – apontam para a mesma direção: um progressivo e acelerado isolamento do clã Bolsonaro. A prisão do principal líder não só o removeu fisicamente do jogo, como também expôs a falta de robustez institucional e de lideranças consensuais para sustentar seu projeto no curto prazo.

O partido, agora dividido entre a ala familiar, o pragmatismo do centrão e as ambições de novas lideranças estaduais, enfrenta uma crise de direção. As ruas, outrora palco de demonstrações de força, não respondem mais aos chamados. Aliados históricos, temendo o desgaste, começam a demarcar distância. O momento é de reacomodação de forças dentro da direita brasileira, e as evidências sugerem que o núcleo bolsonarista emerge deste processo mais fraco e menos central do que jamais esteve desde sua ascensão. O isolamento, portanto, não é apenas físico ou judicial; é, sobretudo, político.

Com informações de: Poder360, Bahia.ba, Conjur, G1, Portal Terra da Luz, Gazeta do Povo, Brasil 247, BBC, O Globo ■

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