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As negociações para um acordo de paz na Ucrânia, impulsionadas agressivamente pela administração Trump, passaram por transformações radicais em poucos dias. O que começou como um plano de 28 pontos, amplamente visto como um reflexo das exigências do Kremlin, foi substancialmente revisado após a resistência feroz de Kiev e seus aliados europeus, revelando uma complexa teia de interesses e pressões diplomáticas.
O ponto de partida do plano americano está envolto em controvérsia. Investigações jornalísticas revelaram que a proposta de 28 pontos foi elaborada a partir de um "não-documento" – uma comunicação diplomática não oficial – de autoria russa, apresentado ao governo Trump em outubro. Este documento continha posições que Moscou já havia apresentado anteriormente, incluindo a cessão de territórios ucranianos no leste, que já haviam sido rejeitadas por Kiev.
Quando os detalhes deste plano vazaram, foram recebidos com ceticismo por legisladores e aliados ocidentais. Inicialmente, o secretário de Estado Marco Rubio chegou a descrevê-lo, em conversas com senadores, como uma "lista de desejos russos", embora o Departamento de Estado tenha posteriormente negado essa caracterização. A versão original incluía pontos inaceitáveis para a Ucrânia, como:
A revelação do plano criou um ambiente "muito tenso" no início do encontro em Genebra, conforme descrito pelo vice-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Serhiy Kyslytsya. A situação só foi desbloqueada após duas horas de negociações entre o chefe do Gabinete Presidencial ucraniano, Andriy Yermak, e a delegação americana.
Apás as tensas negociações em Genebra e a pressão diplomática, o plano original sofreu uma significativa metamorfose. Relatos indicam que o documento foi reduzido de 28 para 19 pontos, com a remoção ou reformulação de algumas das cláusulas mais pró-Rússia. As principais concessões obtidas por Kiev incluem:
O presidente Zelensky confirmou publicamente as alterações, declarando que "a partir de agora, depois de Genebra, há menos pontos, não mais 28, e muitas coisas boas foram levadas em consideração".
Apesar do progresso nas discussões entre EUA e Ucrânia, o maior obstáculo permanece: a posição da Rússia. O assessor presidencial russo, Yuri Ushakov, afirmou que Moscou recebeu a versão revisada, mas que ela "naturalmente, estará sujeita a revisão e modificação" por sua parte. Ele deixou claro que não há possibilidade de "qualquer concessão ou abandono de nossas abordagens aos pontos principais" , indicando que as concessões feitas a Kiev podem ser inaceitáveis para o Kremlin.
Paralelamente, a diplomacia americana mantém canais abertos com Moscou. O enviado especial Steve Witkoff deve se reunir com Vladimir Putin, enquanto o secretário do Exército, Dan Driscoll, já se reuniu com representantes russos em Abu Dhabi. Trump, por sua vez, abandonou seu ultimato inicial que dava à Ucrânia até o feriado de Ação de Graças (27 de novembro) para aceitar o plano, afirmando agora que seu "prazo é quando tudo acabar".
As negociações revelam um jogo diplomático complexo, em que o plano inicial americano, percebido como excessivamente favorável à Rússia, foi substancialmente reequilibrado pela resistência ucraniana e europeia. No entanto, a arquitetura de paz que emerge é ainda frágil e incompleta, com as questões centrais – território e alianças militares – deliberadamente adiadas para uma fase posterior.
O sucesso ou fracasso final dependerá não apenas da vontade de Kiev em aceitar um acordo que ainda exige duras concessões territoriais, mas, crucialmente, de se Moscou estará disposta a abrir mão de suas exigências maximalistas. O momento decisivo se aproxima, e a paz na Ucrânia permanece um objetivo nobre, mas ainda distante.
Com informações de: BBC, G1, CNN Brasil, UOL, Veja, O Globo, Folha de S.Paulo ■