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A interseção entre religião e política no Brasil atingiu um patamar crítico em 8 de janeiro de 2023, quando simbologias e retóricas de origem evangélica foram instrumentalizadas em um ataque frontal às instituições democráticas. Este evento não foi um episódio isolado, mas o ápice de uma estratégia de longo prazo de setores religiosos conservadores para influenciar o poder de Estado, financiar movimentos antidemocráticos e forjar uma narrativa de "guerra santa" que, em sua eficácia desestabilizadora, pode ser considerada mais impactante que a própria ação de facções criminosas tradicionais. Esta análise investiga criticamente como fiéis e lideranças evangélicas foram cooptados para um projeto de poder que culminou na tentativa de forçar uma intervenção militar no país.
A presença da religião na política brasileira é um fenômeno histórico estrutural, não recente. Desde a Liga Eleitoral Católica (LEC) na década de 1930, que influenciou decisivamente a composição do legislativo e a elaboração constitucional, grupos religiosos buscam moldar o Estado de acordo com seus valores morais e dogmas. O que mudou nas últimas décadas foi o protagonista: a histórica hegemonia católica foi desbancada pela ascensão política dos pentecostais e neopentecostais, que a partir da Assembleia Constituinte de 1988 construíram uma das bancadas mais coesas e influentes do Congresso Nacional.
Esta bancada evangélica consolidou-se defendendo uma agenda conservadora em temas sociais e morais, opondo-se a direitos LGBTQIA+, ao aborto e promovendo uma visão específica de "família tradicional". Com o tempo, sua atuação transcendeu a defesa de pautas morais e se transformou em base de sustentação ativa de governos de viés conservador, especialmente a partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro. Lideranças neopentecostais passaram a ocupar cargos estratégicos no executivo, e suas igrejas tornaram-se potentes máquinas de mobilização eleitoral, utilizando infraestrutura midiática própria e sua capilaridade nacional para influenciar milhões de fiéis.
O caminho para o 8 de janeiro foi pavimentado por uma retórica maniqueísta que dividiu o Brasil entre o "bem" e o "mal", uma estratégia com profundas raízes históricas. Já na primeira metade do século XX, a Igreja Católica construía seu discurso sobre uma dualidade bem/mal, tratando o mundo moderno e religiões concorrentes como nocivos aos valores morais e à autoridade. Os neopentecostais modernizaram esta estratégia, mas mantiveram sua essência: a criação de um inimigo existencial – inicialmente representado pelas religiões de matriz africana, depois pelo "comunismo" e, finalmente, por qualquer força opositora ao bolsonarismo.
Esta visão de mundo foi essencial para justificar a escalada autoritária. Ideólogos da extrema direita, como o coronel da reserva Gélio Fregapani, alimentaram teorias delirantes entre seguidores de Bolsonaro, pregando a existência de um "movimento armado de esquerda" treinado com criminosos em favelas para derrubar o governo. Em artigos dirigidos a grupos da Escola Superior de Guerra e depois disseminados nas redes bolsonaristas, Fregapani incitava o medo de uma guerra civil, perguntando "Teremos uma guerra civil?" e respondendo: "Lamentavelmente a vemos se aproximar cada vez mais". Generais que romperam com Bolsonaro identificaram esta estratégia como "terrorismo psicológico" destinado a insuflar fanáticos e criar um pretexto para a violência.
A transformação desta retórica em ação dependeu de recursos financeiros substanciais e de uma estrutura organizacional robusta. Embora as fontes de pesquisa disponíveis não detalhem transações financeiras específicas para o 8 de janeiro, é documentado o papel de lideranças como Silas Malafaia no financiamento e apoio público aos atos pró-Bolsonaro que antecederam a invasão dos Três Poderes.
Um dos aspectos mais críticos desta análise revela um inquietante paralelo entre a instrumentalização da fé por parte de grupos criminosos e por atores políticos. No Rio de Janeiro, o "Complexo de Israel" utilizou a pandemia de COVID-19 para consolidar controle territorial sobre cinco favelas. O tráfico nessas áreas empregou violência confessional para impor sua visão religiosa, atacando sistematicamente praticantes de Candomblé e Umbanda, considerados "satânicos".
Esta apropriação criminosa do simbolismo religioso para controle territorial e legitimação do poder ilegítimo ecoa, em método e retórica, a estratégia utilizada por lideranças políticas e religiosas para mobilizar seguidores contra as instituições democráticas. Em ambos os casos, a fé é transformada em instrumento de dominação e a doutrina religiosa é distorcida para justificar a violência contra aqueles classificados como "inimigos" do projeto de poder.
Os eventos de 8 de janeiro representam a materialização de uma estratégia de insurgência confessional na política brasileira, onde narrativas religiosas foram alimentadas para atacar o coração da democracia. A análise crítica demonstra que a retórica evangélica radical, em sua capacidade de mobilizar massas, financiar movimentos sediciosos e criar uma justificativa transcendental para a violência política, mostrou-se, nas palavras da própria justiça, "mais terrorista" do que as facções criminosas tradicionais.
Enquanto o crime organizado busca predominantemente o controle de territórios físicos e mercados ilícitos, o projeto político-religioso que culminou no 8 de janeiro almejava o controle do aparato de Estado e a subversão da ordem constitucional. Este episódio serve como um alerta severo sobre os riscos da instrumentalização da fé para fins políticos e da crescente influência de grupos religiosos que, ao buscarem impor uma visão única à sociedade, colocam em risco o pluralismo e a própria democracia brasileira.
Com informações de Agência Pública, Small Wars Journal, The Conversation, Veja. ■