Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
Uma série de postagens rasas e sem fundamento revelam a tentativa de vários usuários nas redes sociais de realizar uma comparação provocativa entre o atual momento, em que um tornado atingiu severamente a cidade paranaense de Rio Bonito do Iguaçu, e o momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi severamente criticado após ausência nas enchentes que atingiram o interior da Bahia em dezembro de 2021. O motivo: Lula está em Belém, no Pará, como anfitrião da COP30.
A forma como os governos respondem a desastres naturais revela suas prioridades e seu compromisso com a população em situações de vulnerabilidade. Uma análise crítica das ações dos governos Bolsonaro e Lula diante de tragédias ambientais expõe diferenças profundas, que vão desde a presença simbólica no território até decisões orçamentárias concretas com impactos diretos na capacidade de resposta do Estado.
A abordagem do governo Lula, conforme relatada na ocasião do tornado no Paraná, caracteriza-se por uma resposta integrada e de alto nível. A mobilização de ministros de Estado para a região atingida, como a então Ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e a possível mobilização de expertise técnica em saúde, sinaliza uma priorização política e técnica do problema. Hoffmann, uma política experiente que já foi ministra-chefe da Casa Civil e presidente nacional do PT, personifica a importância dada pelo Palácio do Planalto à crise.
Essa atuação não se limitou à reação emergencial. O monitoramento da situação em conjunto com o governo estadual, citado pelo ministro Waldez Góes do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, indica uma preocupação com a antecipação dos problemas. Góes, com sua vasta experiência como ex-governador do Amapá, traz para a pasta justamente a perspectiva de quem conhece os desafios regionais do país. Além disso, o anúncio de medidas como a liberação de FGTS para as famílias e verbas para reconstrução aponta para um plano de ação que busca ir além do imediato, endereçando também a complexa fase de recuperação.
Esse modelo de gestão de crise parece coerente com o discurso internacional do presidente Lula. Na COP30, sediada em Belém, ele alertou que "a janela de oportunidade que temos para agir está se fechando rapidamente" e vinculou a crise climática às dinâmicas de desigualdade global. Em outro momento, foi ainda mais enfático: "A Terra não pode mais sustentar o modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis que prevaleceu nos últimos 200 anos". Ações domésticas de resposta a desastres aparecem, portanto, como um braço executivo dessa visão.
Em contraste marcante, a gestão de Bolsonaro foi marcada por uma significativa retração de recursos e por uma postura de distanciamento. Dados levantados mostram que seu governo cortou 95% do orçamento destinado a obras de prevenção e combate a desastres naturais para o ano de 2023. A verba proposta pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) foi de apenas R$ 2,7 milhões, o menor valor desde a criação da rubrica em 2012, durante o governo de Dilma Rousseff.
Esse esvaziamento financeiro ocorreu em um contexto de tragédias recorrentes. Entre 2021 e 2022, desastres na Bahia, em Minas Gerais e em Petrópolis (RJ) tiveram "severas consequências para o povo e para as cidades", conforme destacado na época. Apesar da gravidade, a equipe de transição do governo Lula alertou para a situação alarmante: "Não há orçamento para contenção de desastres naturais. A situação que nós temos hoje, do ponto de vista orçamentário, é praticamente zero de recursos".
Além da questão orçamentária, a postura pessoal do então presidente durante as enchentes na Bahia em dezembro de 2021 tornou-se um símbolo de sua gestão de crises. Em vez de liderar uma mobilização federal ou visitar as áreas afetadas, Bolsonaro editou uma emenda orçamentária e foi andar de jetski em Balneário Camboriú, após autodeclarar férias. A imagem do presidente em um dos balneários mais luxuosos do país, conhecido como a "Dubai brasileira" por seus arranha-céus e turismo de alto padrão, enquanto cidades baianas estavam submersas, transmitiu uma mensagem clara de desconexão com a realidade do desastre.
A comparação entre os dois casos vai além de um mero contraste de estilos de liderança. Ela evidencia a operacionalização de visões de Estado radicalmente opostas:
Portanto, a "comparação esdrúxula" apontada pelo usuário encontra, na verdade, um terreno fértil de contraste factual. As ações dos dois governos não são meramente diferentes; são antagônicas. Elas representam escolhas políticas claras sobre o tamanho do Estado, a importância da prevenção e o próprio significado da liderança em momentos de crise. Enquanto uma estratégia busca construir resiliência e demonstrar presença, a outra, deliberadamente ou por negligência, desidrata os mecanismos de proteção e normaliza a ausência, com consequências diretas e dramáticas para a população vulnerável.
Com informações de Democracy Now!, Folha de S.Paulo, Partido dos Trabalhadores, Phys.org, Wikipedia. ■