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O projeto de retomar o Planalto em 2026 pela extrema-direita brasileira enfrenta seu momento mais crítico. Uma sucessão de revezes – da prisão de sua principal liderança à desistência de seu candidato mais competitivo e pesquisas eleitorais desfavoráveis – levou este campo político a uma reconfiguração forçada. Neste contexto, ganha força uma cartada que alia a manipulação do discurso de segurança pública à abertura para uma intervenção internacional, numa tentativa de criar um novo eixo de mobilização política.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a ser apontado pela inteligência de mercado e por pesquisas como o nome mais viável para liderar a oposição na corrida presidencial de 2026. No entanto, após meses de hesitação e um cenário de fragmentação da direita, Tarcísio anunciou publicamente sua decisão: não disputará a Presidência e buscará a reeleição para o governo paulista. O anúncio formal, feito em coletiva no interior de São Paulo, enterra o chamado "projeto Tarcísio 2026", que já dava claros sinais de esgotamento.
Os motivos para a recusa são múltiplos. A fragmentação e as disputas internas no bolsonarismo foram um fator central. Tarcísio enfrentou ataques públicos de Eduardo Bolsonaro, que também aspira à candidatura presidencial, e viu-se alvo de uma campanha nas redes sociais com a hashtag "#TarcísioTraidor" após tentar se posicionar como interlocutor com os EUA durante a crise das tarifas. Além disso, a condenação e prisão de Jair Bolsonaro criaram um ambiente de instabilidade e incerteza sobre quem detém a última palavra nas articulações da direita. Sem o apoio unificado do clã Bolsonaro, a candidatura de Tarcísio tornou-se inviável. Sua estratégia agora é consolidar seu poder em São Paulo, evitando os riscos de uma campanha nacional que poderia levá-lo a deixar o cargo já em abril de 2026.
A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, decretada pelo ministro Alexandre de Moraes do STF, representou mais do que uma derrota jurídica; foi um golpe severo na capacidade de articulação política da extrema-direita. Bolsonaro, que sempre centralizou as decisões, viu-se submetido a um isolamento social que marca o fim de suas viagens pelo país, reuniões e telefonemas diários com lideranças para definir os rumos do campo conservador.
Esse vácuo de poder acirrou as disputas pela sucessão. Enquanto Eduardo Bolsonaro mantém sua pretensão presidencial, outras figuras como os governadores Ratinho Jr. (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG) emergem como planos B e C. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, já sinalizou que, sem Tarcísio, o partido tem outros nomes "preparados para comandar o Brasil". Essa divisão, longe de fortalecer a oposição, fragmenta o eleitorado e beneficia o projeto de reeleição do presidente Lula.
As pesquisas de intenção de voto, em particular as realizadas pelo instituto AtlasIntel, pintam um quadro desolador para a extrema-direita. Em cenários de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece consistentemente na liderança, com cerca de 51% dos votos, uma margem confortável que aponta para a possibilidade de vitória já no primeiro turno.
Em um dos cenários mais realistas, que inclui Tarcísio de Freitas como adversário, Lula tem 51,3% contra 30,4% do governador paulista. A pesquisa, encomendada pela Bloomberg e com mais de 14 mil entrevistados, também mostra Lula vencendo em todas as regiões do país em um eventual segundo turno contra Tarcísio. Esses números refletem não apenas a aprovação do governo, mas também a incapacidade da oposição de apresentar um projeto unificado e um candidato competitivo.
Diante da impossibilidade de vencer pelo voto, setores da extrema-direita passaram a adotar uma narrativa que pode pavimentar o caminho para uma intervenção internacional. A estratégia consiste em classificar facções criminosas brasileiras como "grupos terroristas", um movimento recentemente adotado pelos governos de Argentina e Paraguai, que enquadraram o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sob essa denominação.
Essa não é uma mera mudança semântica. A classificação como terrorismo é vista por analistas e pelo próprio governo Lula como o principal pretexto para justificar intervenções militares estrangeiras na região, seguindo o roteiro já aplicado pelos EUA em outros países. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), alertou que a medida busca "colocar o Brasil no radar do intervencionismo militar de Donald Trump na América Latina".
O alinhamento da Argentina de Javier Milei e Patricia Bullrich com a política externa dos EUA é evidente. Após a megaoperação no Rio de Janeiro, a ministra Bullrich não apenas referiu-se às facções como "narcoterroristas", como também anunciou o envio do Exército argentino para a fronteira com o Brasil, justificando a ação com uma "teoria da debandada" dos criminosos. Esse movimento militar em um país vizinho, sob um discurso de combate ao terrorismo, cria um precedente perigoso e inédito na região.
No Congresso Nacional, a bancada bolsonarista tenta avançar com um projeto de lei que enquadra as facções na Lei Antiterrorismo. O texto, que deve ser relatado pelo deputado licenciado Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de Segurança no governo Tarcísio, prevê penas mais severas e permite a punição de meros atos preparatórios, além de, na avaliação de críticos, facilitar uma eventual atuação de agências internacionais de contraterrorismo no território brasileiro.
A extrema-direita brasileira se vê encurralada. Sem liderança unificada, sem um candidato viável e com pesquisas eleitorais desfavoráveis, a opção por uma narrativa alarmista sobre segurança pública e a abertura para soluções intervencionistas representam uma cartada de alto risco. Esta estratégia, porém, esbarra na resistência do governo Lula, que defende a soberania nacional e vê com preocupação a equiparação entre criminalidade e terrorismo. O desfecho deste confronto não definirá apenas o resultado das eleições de 2026, mas o próprio conceito de democracia e autodeterminação do Brasil.
Com informações de: CNN Brasil, G1, O Globo, Jornal do Tocantins, Metrópoles, Agência Pública, 18 Horas, Portal do PCdoB, CartaCapital. ■