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Globo expõe cadáveres em cobertura de operação policial no Rio; prática reacende debate ético
Os limites da divulgação de imagens de pessoas mortas e a dicotomia entre interesse público e respeito às vítimas
Analise
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■   Bernardo Cahue, 29/10/2025

Imagens de dezenas de corpos expostos em uma praça no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foram amplamente veiculadas na capa do site G1 e em outros portais do Grupo Globo nesta quarta-feira, 29 de outubro de 2025. As fotografias mostram cadáveres alinhados no chão, muitos com marcas de ferimentos a bala, após serem retirados por moradores de uma área de mata onde ocorreram confrontos em uma megaoperação policial.

A exposição das vítimas reacendeu o debate sobre os limites éticos do jornalismo ao retratar a violência, especialmente quando as imagens podem ser interpretadas tanto como registro de uma "barbárie" quanto como demonstração de força estatal.

Os fatos que motivaram a cobertura

Na terça-feira, 28 de outubro, uma megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha resultou em pelo menos 128 mortes, de acordo com informações combinadas do balanço oficial e dos corpos encontrados posteriormente na mata. Inicialmente, o governo do RJ informou sobre 64 mortos - 60 supostos criminosos e 4 policiais. Entretanto, na madrugada de quarta-feira, moradores levaram pelo menos 64 corpos para a Praça São Lucas, no Complexo da Penha, que não constavam na contabilidade oficial.

O secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou que será feita uma perícia para verificar se essas mortes têm relação com a operação. Moradores relataram que os corpos foram retirados da área de mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde ocorreram intensos confrontos, e foram colocados na praça para facilitar o reconhecimento por familiares.

O dilema ético: registro jornalístico ou sensacionalismo?

A exposição de cadáveres pelo jornalismo brasileiro não é inédita, mas continua gerando controvérsias quanto aos seus limites. Por um lado, o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros estabelece no capítulo III, inciso II, que é vedado ao profissional "divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes".

Por outro lado, veículos de imprensa frequentemente justificam tais publicações argumentando que:

  • Retratam a realidade crua da violência, servindo como denúncia social
  • Atendem ao interesse público ao mostrar a magnitude dos eventos
  • Documentam possíveis excessos por parte das forças de segurança

Rogério Christofoletti, autor do livro "Ética no Jornalismo", defende que "consciente ou inconscientemente, firmamos um pacto de confiança com a mídia, porque acreditamos que o jornalismo é uma forma de narrativa do presente que tem correspondência com o que entendemos por realidade".

Evolução das políticas de cobertura

Vale destacar que o próprio Grupo Globo anunciou mudanças em sua política de cobertura jornalística após o ataque à creche em Blumenau, em abril de 2023. Na ocasião, o apresentador William Bonner informou que os veículos do grupo não publicariam mais nomes ou imagens de autores de massacres, com o objetivo de "evitar dar fama aos assassinos para não inspirar autores de novos massacres".

Essa mudança seguiu recomendações de estudos científicos, incluindo pesquisa publicada na revista Plos One, que "encontrou evidências significativas de que tiroteios em escolas e assassinatos em massa envolvendo armas de fogo são incentivados por eventos semelhantes no passado". O chamado "efeito contágio" ocorre quando a notoriedade dada aos criminosos funciona como um fator motivacional para novos crimes.

Pouparam somente a TV

Durante a cobertura do Bom Dia Rio a equipe de reportagem fez questão de "poupar o telespectador" das cenas fortes na Praça São Lucas. No momento em que as pessoas resolveram levantar a lona que cobria os mais de quarenta corpos no momento da chegada da Defesa Civil Estadual, o repórter Jeferson Monteiro e o cinegrafista Guilherme Meira fizeram questão de virar a câmera ao contrário. Nos sites, entretanto, a abordagem foi outra: imagens aéreas de drones e foco nos carros que chegavam a todo momento com a imagem nítida e clara dos mortos durante a operação.

O contexto histórico das operações policiais no Rio

A operação que resultou nas mortes foi batizada de "Contenção" e mobilizou cerca de 2,5 mil agentes. As investigações que levaram à ação duraram mais de um ano e tinham como objetivo cumprir 100 mandados de prisão contra lideranças do Comando Vermelho.

Este não é o primeiro episódio de violência policial com grande número de vítimas no Rio. Em 1993, a Chacina de Vigário Geral resultou na morte de 21 pessoas, com cobertura jornalística que também exibiu imagens fortes dos corpos, mostrando uma triste continuidade no histórico de violência na cidade.

O debate sobre como cobrir esses eventos de forma ética permanece complexo, equilibrando o direito à informação, o respeito pelas vítimas e suas famílias, e o papel do jornalismo em retratar a realidade sem se tornar instrumento de espetacularização da violência.

Com informações de G1, Terra, Valor Econômico, Jornal da Cidade Online e Sitecoreto. ■

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