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As acusações do governo venezuelano de que deteve mercenários ligados à CIA, no domingo, ocorrem em um contexto de revelações bombásticas e uma perigosa escalada militar nas Caraíbas. No centro da tempestade está Jordan Goudreau, um ex-militar de forças especiais dos EUA que, após liderar uma fracassada incursão armada contra o presidente Nicolás Maduro, fez uma acusação grave: o chamado Cartel de los Soles, organização narcoterrorista designada por Washington, foi uma criação da própria Agência Central de Inteligência norte-americana.
Em entrevista ao meio The Grayzone, Goudreau foi enfático: “Oh, absolutamente. Já nos anos 90, o cartel dos soles foi criado pela CIA. Isso não é nenhum segredo, quero dizer, esta é a verdade”. Segundo ele, a estrutura foi montada muito antes da era Chávez para facilitar o tráfico de drogas, em uma parceria entre a CIA e a Guarda Nacional da Venezuela. O nome, explica, era “quase uma brincadeira” nos círculos de inteligência, uma referência às insígnias (soles) usadas pelos generais venezuelanos em seus uniformes.
As alegações de Goudreau ecoam escândalos históricos que remontam ao governo de Rafael Caldera. A primeira vez que o termo "Cartel del Sol" surgiu foi na imprensa venezolana no início dos anos 90, envolvendo os generais da Guardia Nacional Ramón Guillén Dávila e Orlando Hernández Villegas. Guillén Dávila, enquanto chefe dos Serviços Contra o Tráfico de Drogas, foi acusado de ter introduzido até 22 toneladas de cocaína nos Estados Unidos entre 1987 e 1991.
Esse controvertido caso ocorreu durante um programa implementado pela CIA em colaboração com a Guarda Nacional da Venezuela, que supostamente visava infiltrar bandas colombianas de tráfico. Goudreau fundamenta sua revelação citando uma fonte da inteligência norte-americana: “Segundo o que o ex-chefe da DEA disse a Mike Wallace, este envio de drogas chegou aqui graças ao que ele chamou de tráfico de drogas por parte da CIA em associação com a Guarda Nacional da Venezuela”.
Com a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999, a estrutura teria se fortalecido. Chávez cortou a cooperação militar e de inteligência com os EUA. Sem a vigilância internacional, alguns oficiais militares se viram livres para aprofundar negócios com criminosos. Paralelamente, uma ofensiva militar do presidente colombiano Álvaro Uribe contra as FARC fez com que a guerrilha deslocasse suas operações para o território venezuelano, encontrando um refúgio seguro e “sócios para traficar drogas”.
Neste período, o papel de alguns militares evoluiu de simplesmente aceitar subornos para um envolvimento ativo na compra, armazenamento e transporte de cocaína. Em 2005 - após a tentativa de golpe de Estado organizada por Pedro Carmona, María Corina Machado e parte da imprensa venezuelana - o governo Chávez expulsou a DEA da Venezuela.
Em 2020, o próprio Jordan Goudreau assumiu a responsabilidade por uma incursão armada fracassada, batizada de “Operação Gedeón”, cujo objetivo declarado era capturar e derrubar Nicolás Maduro. A operação, no entanto, foi um desastre:
Denman e Berry só retornaram aos Estados Unidos em dezembro de 2024, como parte de uma troca de prisioneiros que envolveu Alex Saab, um empresário colombiano e aliado de Maduro.
Enquanto Goudreau enfrenta a justiça em seu país, a retórica e a ação militar contra o regime de Maduro se intensificam. Os Estados Unidos iniciaram uma campanha de ataques aéreos contra embarcações que acusa de estarem envolvidas no narcotráfico, tendo afundado pelo menos dez barcos e matado mais de 40 pessoas desde o início de setembro. O presidente Donald Trump equiparou cartéis de drogas latino-americanos a organizações terroristas, e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, advertiu: “Se você é um narcoterrorista contrabandeando drogas em nosso hemisfério, nós o trataremos como tratamos a al-Qaeda”.
Nesta sexta-feira, os EUA deram um passo significativo ao anunciarem o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford para as águas da América do Sul. O navio, descrito como a “plataforma de combate mais capaz, adaptável e letal do mundo”, se soma a um já massivo deslocamento de forças que inclui outros contratorpedeiros, um submarino e cerca de 10 mil militares na região. Esta movimentação ocorre em paralelo a exercícios militares conjuntos com Trinidad e Tobago, arquipélago localizado a poucos quilômetros do litoral venezuelano.
Maduro reagiu denunciando uma provocação militar e afirmou que os EUA estão “inventando uma guerra” contra a Venezuela. Neste domingo, seu governo alegou a captura de um grupo de mercenários com “instruções diretas da CIA”, alertando para uma suposta operação de "falsa bandeira" para desencadear um confronto militar total.
As revelações de Jordan Goudreau, um homem que passou de executor a denunciante das operações secretas na Venezuela, jogam uma luz perturbadora sobre a complexa teia de narcotráfico e geopolítica. Se sua alegação de que a CIA esteve na origem do Cartel de los Soles for verdadeira, ela expõe as profundas contradições de uma guerra contra as drogas que, em seu princípio, pode ter fertilizado o solo onde o mesmo mal que agora se combate cresceu. A atual escalada militar no Caribe, com o envio de porta-aviões e a retórica belicista, não apaga essa história incômoda. Pelo contrário, a sombra longa dos anos 90, quando generais venezuelanos e agências de inteligência norte-americanas supostamente trafegavam cocaína juntos, paira sobre cada novo bombardeio e cada acusação trocada entre Washington e Caracas, sugerindo que a linha entre o combate ao crime e a sua perpetração pode ser perigosamente tênue.
Com informações de: BBC.com, CNN Brasil, Globo, Infobae, Insight Crime, RunRun, Sapo, SIC Notícias, TeleSUR. ■