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A denúncia de Jordan Goudreau contra a CIA toma corpo com declaração de Maduro
Revelações de Maduro sobre prisões de militares norte-americanos a pedido da CIA reacendem o debate sobre as origens do narcotráfico na Venezuela e as operações secretas dos EUA
Analise
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/B2A5/production/_112233754_36194a00-c100-4548-a8dd-1685326e5674.jpg.webp
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■   Bernardo Cahue, 26/10/2025

As acusações do governo venezuelano de que deteve mercenários ligados à CIA, no domingo, ocorrem em um contexto de revelações bombásticas e uma perigosa escalada militar nas Caraíbas. No centro da tempestade está Jordan Goudreau, um ex-militar de forças especiais dos EUA que, após liderar uma fracassada incursão armada contra o presidente Nicolás Maduro, fez uma acusação grave: o chamado Cartel de los Soles, organização narcoterrorista designada por Washington, foi uma criação da própria Agência Central de Inteligência norte-americana.

Em entrevista ao meio The Grayzone, Goudreau foi enfático: “Oh, absolutamente. Já nos anos 90, o cartel dos soles foi criado pela CIA. Isso não é nenhum segredo, quero dizer, esta é a verdade”. Segundo ele, a estrutura foi montada muito antes da era Chávez para facilitar o tráfico de drogas, em uma parceria entre a CIA e a Guarda Nacional da Venezuela. O nome, explica, era “quase uma brincadeira” nos círculos de inteligência, uma referência às insígnias (soles) usadas pelos generais venezuelanos em seus uniformes.

Origens na sombra: a parceria CIA-Guardia Nacional nos Anos 90

As alegações de Goudreau ecoam escândalos históricos que remontam ao governo de Rafael Caldera. A primeira vez que o termo "Cartel del Sol" surgiu foi na imprensa venezolana no início dos anos 90, envolvendo os generais da Guardia Nacional Ramón Guillén Dávila e Orlando Hernández Villegas. Guillén Dávila, enquanto chefe dos Serviços Contra o Tráfico de Drogas, foi acusado de ter introduzido até 22 toneladas de cocaína nos Estados Unidos entre 1987 e 1991.

Esse controvertido caso ocorreu durante um programa implementado pela CIA em colaboração com a Guarda Nacional da Venezuela, que supostamente visava infiltrar bandas colombianas de tráfico. Goudreau fundamenta sua revelação citando uma fonte da inteligência norte-americana: “Segundo o que o ex-chefe da DEA disse a Mike Wallace, este envio de drogas chegou aqui graças ao que ele chamou de tráfico de drogas por parte da CIA em associação com a Guarda Nacional da Venezuela”.

O Fortalecimento da Estrutura sob Hugo Chávez

Com a chegada de Hugo Chávez ao poder em 1999, a estrutura teria se fortalecido. Chávez cortou a cooperação militar e de inteligência com os EUA. Sem a vigilância internacional, alguns oficiais militares se viram livres para aprofundar negócios com criminosos. Paralelamente, uma ofensiva militar do presidente colombiano Álvaro Uribe contra as FARC fez com que a guerrilha deslocasse suas operações para o território venezuelano, encontrando um refúgio seguro e “sócios para traficar drogas”.

Neste período, o papel de alguns militares evoluiu de simplesmente aceitar subornos para um envolvimento ativo na compra, armazenamento e transporte de cocaína. Em 2005 - após a tentativa de golpe de Estado organizada por Pedro Carmona, María Corina Machado e parte da imprensa venezuelana - o governo Chávez expulsou a DEA da Venezuela.

A farsa da "Operação Gedeón" e o preço do fracasso

Em 2020, o próprio Jordan Goudreau assumiu a responsabilidade por uma incursão armada fracassada, batizada de “Operação Gedeón”, cujo objetivo declarado era capturar e derrubar Nicolás Maduro. A operação, no entanto, foi um desastre:

  • Resultou na morte de oito pessoas e na captura de mais de uma dezena, incluindo dois ex-membros das Forças Especiais do Exército dos EUA, Luke Denman e Airan Berry.
  • Goudreau, que não participou pessoalmente da ação, foi recentemente preso e indiciado por acusações federais nos EUA.
  • O Departamento de Justiça norte-americano alega que Goudreau conspirou para exportar ilegalmente rifles do tipo AR, dispositivos de visão noturna e outros equipamentos militares dos EUA para a Colômbia, com o objetivo de realizar atividades na Venezuela.

Denman e Berry só retornaram aos Estados Unidos em dezembro de 2024, como parte de uma troca de prisioneiros que envolveu Alex Saab, um empresário colombiano e aliado de Maduro.

A nova rota da cocaína e a escalada militar no Caribe

Enquanto Goudreau enfrenta a justiça em seu país, a retórica e a ação militar contra o regime de Maduro se intensificam. Os Estados Unidos iniciaram uma campanha de ataques aéreos contra embarcações que acusa de estarem envolvidas no narcotráfico, tendo afundado pelo menos dez barcos e matado mais de 40 pessoas desde o início de setembro. O presidente Donald Trump equiparou cartéis de drogas latino-americanos a organizações terroristas, e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, advertiu: “Se você é um narcoterrorista contrabandeando drogas em nosso hemisfério, nós o trataremos como tratamos a al-Qaeda”.

Nesta sexta-feira, os EUA deram um passo significativo ao anunciarem o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford para as águas da América do Sul. O navio, descrito como a “plataforma de combate mais capaz, adaptável e letal do mundo”, se soma a um já massivo deslocamento de forças que inclui outros contratorpedeiros, um submarino e cerca de 10 mil militares na região. Esta movimentação ocorre em paralelo a exercícios militares conjuntos com Trinidad e Tobago, arquipélago localizado a poucos quilômetros do litoral venezuelano.

Maduro reagiu denunciando uma provocação militar e afirmou que os EUA estão “inventando uma guerra” contra a Venezuela. Neste domingo, seu governo alegou a captura de um grupo de mercenários com “instruções diretas da CIA”, alertando para uma suposta operação de "falsa bandeira" para desencadear um confronto militar total.

Uma verdade inconveniente começa a se desenhar

As revelações de Jordan Goudreau, um homem que passou de executor a denunciante das operações secretas na Venezuela, jogam uma luz perturbadora sobre a complexa teia de narcotráfico e geopolítica. Se sua alegação de que a CIA esteve na origem do Cartel de los Soles for verdadeira, ela expõe as profundas contradições de uma guerra contra as drogas que, em seu princípio, pode ter fertilizado o solo onde o mesmo mal que agora se combate cresceu. A atual escalada militar no Caribe, com o envio de porta-aviões e a retórica belicista, não apaga essa história incômoda. Pelo contrário, a sombra longa dos anos 90, quando generais venezuelanos e agências de inteligência norte-americanas supostamente trafegavam cocaína juntos, paira sobre cada novo bombardeio e cada acusação trocada entre Washington e Caracas, sugerindo que a linha entre o combate ao crime e a sua perpetração pode ser perigosamente tênue.

Com informações de: BBC.com, CNN Brasil, Globo, Infobae, Insight Crime, RunRun, Sapo, SIC Notícias, TeleSUR. ■

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