Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A cobertura jornalística no Brasil, frequentemente operando em um ambiente de alta polarização, pode cair em armadilhas de seletividade. Dois casos emblemáticos ilustram essa dinâmica: a crítica consistente ao machismo na figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em contraste com a desqualificação de um atentado contra sua caravana, e o tratamento dado ao ataque sofrido por Jair Bolsonaro (PL).
A colunista Mariliz Pereira Jorge, da Folha de S.Paulo, tem sido uma voz incisiva na crítica ao que classifica como o machismo estrutural do presidente Lula. Em suas colunas, ela argumenta que, apesar de Lula se colocar como apoiador das causas feministas, suas ações e palavras não convergem com esses valores.
Dentre os exemplos citados pela jornalista, destacam-se:
Esta postura crítica, no entanto, gera questionamentos quando se observa a suposta leniência da mesma comentarista e de outros setores da imprensa com frases machistas proferidas por outras figuras políticas. Em conversa com o jornalista Reinaldo Azevedo, em que o mesmo em tom enfático disse, relativo às agressões verbais de Jair Bolsonaro à deputada petista Maria do Rosário, que "uma deputada não pode ser chamada de puta!" (sic), Mariliz Pereira Jorge respondeu, de forma a contra argumentar o jornalista: "Eu acho que pode." Será que ela mesma toleraria de forma tão contemporizadora se, no caso da frase de Reinaldo Azevedo, a palavra "deputada" fosse trocada por "jornalista"?
Outra faceta dessa suposta seletividade aparece na cobertura de ataques violentos a figuras políticas. O esfaqueamento de Jair Bolsonaro em 2018 em Juiz de Fora (MG) foi amplamente noticiado como um atentado e seguiu sendo tratado com seriedade pela grande mídia. Investigações da Polícia Federal concluíram que o autor, Adélio Bispo, agiu sozinho e foi considerado inimputável pela Justiça devido a um transtorno delirante persistente. A circulação de teorias falsas tentando associar o PT ao crime foi reiteradamente desmentida por veículos e agências de checagem.
Em contraste, o ataque a tiros contra a caravana de Lula no Paraná, também em 2018, foi cercado de um ceticismo midiático que frequentemente beirava a desqualificação. Um levantamento do projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado à USP, mostrou que, das dez notícias mais compartilhadas sobre o caso no Facebook, seis eram falsas. A esmagadora maioria dessas fake news sustentava a narrativa de que o atentado havia sido uma encenação orquestrada pelo próprio PT para ganhar simpatia política.
Embora Lula seja alvo de críticas por suas declarações, uma análise comparativa com seu antecessor revela nuances importantes. A colunista Mariliz Pereira Jorge faz questão de diferenciar o que classifica como machismo estrutural de Lula da misoginia em estado bruto que atribui a Bolsonaro. Enquanto o primeiro estaria enraizado em um padrão de pensamento de sua geração, o segundo representaria um desprezo ativo e declarado pelas mulheres.
Para ilustrar essa diferença, a Folha compilou frases machistas de ambos os presidentes :
Esta distinção, no entanto, não é aceita de forma universal. Para parte do público, a crítica contundente a um e a relativização do outro, ainda que baseada em nuances, configura o que se pode chamar de um "machismo seletivo" na análise política, onde o rigor da denúncia varia de acordo com o agente e não apenas com o ato em si.
A análise da cobertura de certos episódios políticos revela um campo minado por narrativas seletivas. Por um lado, a crítica ao machismo na política é necessária e deve ser aplicada a todos os agentes públicos, independente de espectro ideológico. A existência de um histórico mais ou menos agressivo não deve servir de atenuante para a cobrança por um comportamento ético e igualitário.
Por outro lado, a desqualificação de ataques reais – como o sofrido pela caravana de Lula – através da amplificação de teorias conspiratórias infundadas, em contraste com o tratamento factual dado a eventos similares envolvendo outras figuras, alimenta a percepção de um jornalismo que, por vezes, deixa a isenção em segundo plano, favorecendo narrativas pré-estabelecidas.
E, de fato, a crítica ao "machismo estrutural" de Lula é sempre baseada nas escolhas, que não são nem de longe as preferências de indicação do conglomerado, sempre de acordo com suas editorias e suas subserviências ao neoliberalismo. No fim, são essas assimetrias que fragilizam a credibilidade da imprensa e aprofundam a desconfiança da sociedade nas instituições.
Com informações de Folha, Veja, Revista Fórum, Estadão, El País e Câmara dos Deputados. ■