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O politicamente correto da imprensa só funciona contra o PT
Crítica midiática a Lula e a relativização de ataques contra sua figura expõem padrões narrativos que vão além da análise factual
Analise
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■   Bernardo Cahue, 21/10/2025

A cobertura jornalística no Brasil, frequentemente operando em um ambiente de alta polarização, pode cair em armadilhas de seletividade. Dois casos emblemáticos ilustram essa dinâmica: a crítica consistente ao machismo na figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em contraste com a desqualificação de um atentado contra sua caravana, e o tratamento dado ao ataque sofrido por Jair Bolsonaro (PL).

O Machismo Estrutural e a Crítica Concentrada

A colunista Mariliz Pereira Jorge, da Folha de S.Paulo, tem sido uma voz incisiva na crítica ao que classifica como o machismo estrutural do presidente Lula. Em suas colunas, ela argumenta que, apesar de Lula se colocar como apoiador das causas feministas, suas ações e palavras não convergem com esses valores.

Dentre os exemplos citados pela jornalista, destacam-se:

  • A declaração de que colocou uma "mulher bonita" – a ministra Gleisi Hoffmann – na Secretaria de Relações Institucionais para melhorar a relação com o Congresso (por mais que ignorem a resposta de Lula aos comentários odiosos sobre mulheres petistas, proferidos um dia antes por Bolsonaro).
  • O comentário, em meio a uma condenação da violência doméstica, de que "se o cara é corintiano, tudo bem", trivializando a gravidade do assunto.
  • A justificativa para não priorizar a nomeação de uma mulher ao STF, afirmando que quer "uma pessoa gabaritada", ignorando a "histórica sub-representação feminina no tribunal, que em 134 anos teve apenas três ministras", segundo a jornalista, que teria apoiado a indicação "de uma mulher negra".
  • A declaração constrangedora sobre ter "tesão de 20" e usar sua esposa, Janja, como "testemunha ocular" para provar seu vigor.

Esta postura crítica, no entanto, gera questionamentos quando se observa a suposta leniência da mesma comentarista e de outros setores da imprensa com frases machistas proferidas por outras figuras políticas. Em conversa com o jornalista Reinaldo Azevedo, em que o mesmo em tom enfático disse, relativo às agressões verbais de Jair Bolsonaro à deputada petista Maria do Rosário, que "uma deputada não pode ser chamada de puta!" (sic), Mariliz Pereira Jorge respondeu, de forma a contra argumentar o jornalista: "Eu acho que pode." Será que ela mesma toleraria de forma tão contemporizadora se, no caso da frase de Reinaldo Azevedo, a palavra "deputada" fosse trocada por "jornalista"?

O Tratamento Assimétrico de Atentados Políticos

Outra faceta dessa suposta seletividade aparece na cobertura de ataques violentos a figuras políticas. O esfaqueamento de Jair Bolsonaro em 2018 em Juiz de Fora (MG) foi amplamente noticiado como um atentado e seguiu sendo tratado com seriedade pela grande mídia. Investigações da Polícia Federal concluíram que o autor, Adélio Bispo, agiu sozinho e foi considerado inimputável pela Justiça devido a um transtorno delirante persistente. A circulação de teorias falsas tentando associar o PT ao crime foi reiteradamente desmentida por veículos e agências de checagem.

Em contraste, o ataque a tiros contra a caravana de Lula no Paraná, também em 2018, foi cercado de um ceticismo midiático que frequentemente beirava a desqualificação. Um levantamento do projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado à USP, mostrou que, das dez notícias mais compartilhadas sobre o caso no Facebook, seis eram falsas. A esmagadora maioria dessas fake news sustentava a narrativa de que o atentado havia sido uma encenação orquestrada pelo próprio PT para ganhar simpatia política.

Machismo Comparativo: Lula versus Bolsonaro

Embora Lula seja alvo de críticas por suas declarações, uma análise comparativa com seu antecessor revela nuances importantes. A colunista Mariliz Pereira Jorge faz questão de diferenciar o que classifica como machismo estrutural de Lula da misoginia em estado bruto que atribui a Bolsonaro. Enquanto o primeiro estaria enraizado em um padrão de pensamento de sua geração, o segundo representaria um desprezo ativo e declarado pelas mulheres.

Para ilustrar essa diferença, a Folha compilou frases machistas de ambos os presidentes :

  • Jair Bolsonaro: Disse que a deputada Maria do Rosário "não merece ser estuprada porque é muito feia"; afirmou ter "fraquejado" ao ter uma filha mulher; chamou mulheres petistas de "feias" e "incomíveis"; e definiu que "notícia boa para mulher é beijinho, rosa, presente, férias".
  • Luiz Inácio Lula da Silva: Relativizou a violência doméstica com piadas sobre futebol; fez comentários sobre a aparência de uma ministra; e indagou uma beneficiária do Minha Casa, Minha Vida sobre quando iria "fechar a porteira" por ter cinco filhos.

Esta distinção, no entanto, não é aceita de forma universal. Para parte do público, a crítica contundente a um e a relativização do outro, ainda que baseada em nuances, configura o que se pode chamar de um "machismo seletivo" na análise política, onde o rigor da denúncia varia de acordo com o agente e não apenas com o ato em si.

Conclusão

A análise da cobertura de certos episódios políticos revela um campo minado por narrativas seletivas. Por um lado, a crítica ao machismo na política é necessária e deve ser aplicada a todos os agentes públicos, independente de espectro ideológico. A existência de um histórico mais ou menos agressivo não deve servir de atenuante para a cobrança por um comportamento ético e igualitário.

Por outro lado, a desqualificação de ataques reais – como o sofrido pela caravana de Lula – através da amplificação de teorias conspiratórias infundadas, em contraste com o tratamento factual dado a eventos similares envolvendo outras figuras, alimenta a percepção de um jornalismo que, por vezes, deixa a isenção em segundo plano, favorecendo narrativas pré-estabelecidas.

E, de fato, a crítica ao "machismo estrutural" de Lula é sempre baseada nas escolhas, que não são nem de longe as preferências de indicação do conglomerado, sempre de acordo com suas editorias e suas subserviências ao neoliberalismo. No fim, são essas assimetrias que fragilizam a credibilidade da imprensa e aprofundam a desconfiança da sociedade nas instituições.

Com informações de Folha, Veja, Revista Fórum, Estadão, El País e Câmara dos Deputados. ■

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