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Apagão digital no Afeganistão: talibã isola país com corte total de internet
Medida justificada para "evitar vícios" e "atos imorais" impõe isolamento informativo à população e paralisa serviços básicos, num claro movimento de controle social repressivo
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 29/09/2025

O Afeganistão mergulhou em um apagão informativo a partir desta segunda-feira (29/09/2025), após o regime Talibã impor um corte generalizado nas telecomunicações em todo o país. A organização de monitoramento Netblocks registrou que a conectividade nacional caiu para menos de 1% dos níveis normais, caracterizando um bloqueio quase total. A medida representa o ápice de uma campanha progressiva de censura, inicialmente aplicada em várias províncias sob a justificativa de combater a "imoralidade" e o "vício".

De acordo com uma fonte do governo que pediu anonimato à agência de notícias AFP, a ordem é para que o corte se mantenha "até nova ordem". A interrupção não se limita à internet; serviços de telefonia celular, transmissões de televisão e até sistemas bancários e alfandegários também foram afetados, paralisando setores essenciais do país.

Este blackout comunicacional não é um evento isolado, mas sim uma escalada repressiva. Apenas duas semanas antes, o Talibã já havia ordenado a suspensão da internet por fibra óptica em pelo menos cinco províncias do norte do país. Na época, o porta-voz provincial de Balkh, Attaullah Zaid, afirmou que a medida "foi tomada para evitar o vício".

Especialistas e organizções de direitos humanos veem a ação como parte de uma política deliberada de controle da informação e da vida social. "Hoje, os afegãos vivem num estado de 'blackout' informativo, não imposto pela guerra, mas sim por uma política deliberada", declarou Somaya Walizadeh, do Centro de Jornalistas do Afeganistão (AFJC). Esta organização documentou que o Talibã emitiu pelo menos 22 diretivas que restringem a liberdade de expressão e o acesso à informação desde que retomou o poder em 2021.

O contexto mais amplo revela a contradição do regime. Em 2024, o próprio governo Talibã promoveu a rede de fibra ótica, construída por governos anteriores, como uma "prioridade" para aproximar o país do mundo e tirá-lo da pobreza. No entanto, a interpretação rigorosa da lei islâmica (Sharia) pela liderança fundamentalista prevaleceu, resultando no isolamento digital da população. A ironia é amarga: o mesmo governo que vê a infraestrutura digital como uma ponte para o desenvolvimento, a destrói para impor controle moral.

As consequências do apagão são profundas:

  • Isolamento Global: O Afeganistão está praticamente incomunicável, com o ex-editor-chefe do canal 1TV, Hamid Haidari, comparando a situação à Coreia do Norte.
  • Asfixia Econômica: Serviços bancários e alfandegários estão parados, estrangulando ainda mais uma economia já frágil.
  • Silenciamento da Sociedade: A medida intensifica a repressão contra mulheres, jornalistas e a sociedade civil, que já enfrentavam restrições severas.

O corte nacional de internet no Afeganistão vai muito além de uma simples interrupção técnica. É um instrumento de poder, uma ferramenta de censura em massa que visa calar não apenas as vozes dissidentes, mas toda uma sociedade, isolando-a do mundo e submetendo-a a um controle social sem precedentes na era digital.

Com informações de: G1 - Globo, Swissinfo, O Globo, Observador, RTP, Terra. ■

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