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Tensão ou tempestade em copo d'água? A cobertura da Globo sobre um aparte no STF
Como o tratamento midiático de um procedimento parlamentar rotineiro no Supremo reflete narrativas sensacionalistas e obscurece o verdadeiro cerne do julgamento histórico
Analise
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■   Bernardo Cahue, 09/09/2025

A cobertura jornalística de eventos institucionais, especialmente os envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), deve pautar-se pelo rigor factual e contextualização adequada. No entanto, a análise do tratamento dado pelas Organizações Globo a um suposto "momento de tensão" durante o julgamento da chamada trama golpista revela uma tendência ao sensacionalismo e à banalização de procedimentos parlamentares internos, transformando uma interação procedural corriqueira em um espetáculo midiático.

Durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus por tentativa de golpe, um breve incidente ocorreu entre os ministros do STF. O ministro Luiz Fux contestou o pedido de aparte concedido pelo relator, Alexandre de Moraes, ao ministro Flávio Dino. Conforme os registros, Dino pediu a palavra a Moraes, que autorizou a intervenção. Fux, então, lembrou que havia um acordo prévio entre os ministros para que não houvesse apartes durante os votos, argumentando que interrupções em votos extensos fazem perder o "fio da meada" do raciocínio. Moraes rebateu afirmando que o aparte foi pedido a ele, e não a Fux, e Dino brincou, dizendo: "Pode ficar tranquilo, ministro Fux, não vou pedir aparte no seu voto". Seguiram-se risadas ao comentário.

As Organizações Globo, em sua cobertura, optaram por destacar esse episódio como um momento de "atrito" e "tensão", utilizando uma linguagem que sugere conflito e divisão, como fica evidente em manchetes que falam em "Fux cobra regra e Moraes rebate". Essa abordagem:

  • Superdimensiona o factual: Transforma um evento procedural menor, comum em colegiados, em um grande acontecimento, desviando o foco do verdadeiro cerne do julgamento: a análise de provas e argumentos sobre uma alegada tentativa de golpe de Estado.
  • Ignora o contexto: O acordo sobre apartes era um combinado interno, e sua quebra não constitui uma crise institucional. A rápida resolução do impasse e a continuidade normal do julgamento mostram que se tratou de um mero registro de divergência pontual de protocolo, não de uma ruptura.
  • Prioriza o conflito: A ênfase no suposto "atrito" se alinha a uma narrativa de espetáculo, onde o choque de personalidades vende mais do que a complexa análise jurídica em curso, que inclui debates sobre delação premiada, competência da turma e materialidade de crimes graves.

Este tipo de enquadramento midiático não é apenas questionável do ponto de vista jornalístico; é também potencialmente danoso. Ao elevar um aparte a "escândalo", o veículo:

  1. Banaliza os reais momentos de tensão institucional, como os ataques graves às democracias que estão sendo julgados.
  2. Desvia a atenção pública do conteúdo substancial do julgamento, que é histórico e define os limites da democracia brasileira.
  3. Fragiliza a percepção pública do STF, ao passar a imagem de uma corte mais preocupada com picuinhas protocolares do que com a seriedade do caso em julgamento, o que não condiz com a realidade dos longos e detalhados votos apresentados.

Vale notar que os Princípios Editoriais do Grupo Globo afirmam que "jornalismo é o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas" com "um grau aceitável de fidedignidade e correção". No entanto, a escolha de destacar e enquadrar esse episódio específico como "tensão" parece servir mais a uma "luta político-ideológica" do que à produção de conhecimento, na qual o veículo "noticia os fatos, analisa-os, opina, mas sempre por um prisma, sempre com um viés".

O sensacionalismo e a manipulação na cobertura, como apontado por críticas ao grupo, não são novidades. Neste caso, a escolha editorial de focar no suposto conflito entre ministros acaba por opacar a gravidade dos crimes em julgamento, que incluem acusações de organização criminosa para golpe de Estado e atentado contra o Estado Democrático de Direito. Enquanto os ministros debatiam provas complexas e fundamentais para a democracia, como as anotações consideradas golpistas do general Augusto Heleno e a atuação da Abin, uma parte da cobertura preferiu focar em uma disputa de protocolo.

Em suma, a análise crítica revela que o tratamento dado pelas Organizações Globo ao episódio do aparte no STF foi desproporcional, sensacionalista e descontextualizado. Ele privilegiou uma narrativa de conflito superficial em detrimento da cobertura substantiva de um julgamento histórico, falhando em seu dever de informar com profundidade e contexto. O verdadeiro "escândalo" não foi o aparte de Dino, mas sim a tentativa de golpe que está sendo julgada e a escolha midiática de transformar rotina em espetáculo.

Com informações de: G1, UOL, CBN, Migalhas. ■

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