Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Eleições podem derrubar Orbán após 16 anos
Pesquisas apontam virada histórica com recorde de participação; opositor Péter Magyar lidera intenções de voto contra o primeiro-ministro ultraconservador
Europa
Foto: https://s02.video.glbimg.com/x720/14512297.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 12/04/2026

A Hungria realiza neste domingo (12) as eleições parlamentares mais disputadas e decisivas das últimas três décadas, com o potencial de encerrar os 16 anos de governo ininterrupto do primeiro-ministro Viktor Orbán. Mais de 8,1 milhões de húngaros foram convocados às urnas para escolher os 199 deputados da Assembleia Nacional em um pleito que pode redefinir o papel do país na União Europeia e nas relações geopolíticas entre Ocidente e Rússia.

As seções eleitorais abriram às 6h (horário local) e se encerraram às 19h, com uma participação recorde que superou todos os pleitos anteriores. Dados do Escritório Nacional de Eleições indicavam que, às 17h (horário local), 74,23% do eleitorado já havia comparecido às urnas – um salto significativo em relação aos 62,92% registrados nas eleições de 2022. A afluência chegou a 77,8% ao final da votação, superando o recorde anterior de 73,51% estabelecido em 2002.

Observadores internacionais da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) registraram uma “forte afluência” desde as primeiras horas, descrevendo o processo como uma “eleição importante” acompanhada por “uma das maiores missões” de observação já enviadas pela entidade. A chefe da delegação da Assembleia Parlamentar da OSCE, deputada britânica Rupa Huq, relatou filas e pessoas de todas as idades nas seções eleitorais, incluindo uma senhora de 95 anos.

O confronto entre ex-aliados

A disputa polarizou-se entre duas figuras centrais: o atual primeiro-ministro Viktor Orbán, de 62 anos, líder do partido nacionalista Fidesz, e Péter Magyar, de 45 anos, ex-integrante do governo que rompeu com o partido em 2024 para comandar a legenda de centro-direita Tisza (Respeito e Liberdade).

Magyar, que durante a juventude teve um retrato de Orbán pendurado na parede de seu quarto, transformou-se na maior ameaça ao regime desde que o premiê retornou ao poder em 2010. Sua campanha percorreu todos os 106 distritos eleitorais do país, com uma mensagem centrada no combate à corrupção, na recuperação da economia estagnada e na reaproximação com a União Europeia. “Agora ou nunca” tornou-se o lema que mobilizou multidões nos comícios.

Pesquisas apontam virada histórica

As sondagens de opinião realizadas na reta final da campanha indicaram uma vantagem consistente do Tisza sobre o Fidesz. Uma pesquisa do Instituto Publicus, divulgada na sexta-feira (10), mostrava o partido de Magyar com 38% das intenções de voto contra 29% do partido governista, embora 25% dos eleitores ainda se declarassem indecisos. Outro levantamento do Instituto Idea, no mesmo período, apontava 39% para o Tisza e 30% para o Fidesz.

Projeções mais otimistas para a oposição, como as dos institutos Medián e AtlasIntel, indicavam que o Tisza poderia alcançar entre 50% e 58% dos votos entre os eleitores decididos, ante 33% a 41% para o Fidesz, e até mesmo conquistar uma supermaioria de dois terços do Parlamento – o que permitiria alterar a Constituição.

Analistas, no entanto, alertaram para as distorções do sistema eleitoral húngaro, com 106 distritos uninominais cujas delimitações foram redesenhadas para favorecer o partido governante. Alguns cálculos indicam que o Tisza precisaria de uma vantagem de pelo menos seis pontos percentuais no voto nacional apenas para assegurar a maioria parlamentar.

Acusações de interferência estrangeira e fraudes

A campanha foi marcada por acusações mútuas de ingerência externa e irregularidades. Viktor Orbán alegou que a oposição “não parará diante de nada para tomar o poder”, acusando-a de “conluio” com inteligências estrangeiras. Péter Magyar, por sua vez, denunciou “uma série contínua de fraudes eleitorais realizadas por meses pelo partido governista”, incluindo operações de inteligência, desinformação e notícias falsas.

O partido Tisza afirmou ter recebido cerca de 60 denúncias em seu site sobre supostas irregularidades cometidas por simpatizantes do Fidesz, enquanto o eurodeputado governista Csaba Domotor declarou que seu partido registrou 639 casos de irregularidades e 74 queixas policiais pendentes.

As tensões geopolíticas também marcaram a disputa. O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, esteve em Budapeste na semana anterior ao pleito para apoiar abertamente a campanha de reeleição de Orbán, e o presidente Donald Trump fez um raro apelo público para que os húngaros votassem no premiê.

Por outro lado, a União Europeia acompanhou o pleito com evidente expectativa por uma mudança, após anos de confrontos com Budapeste sobre questões de Estado de Direito, liberdade de imprensa, direitos LGBTQIA+ e o congelamento de bilhões de euros em repasses ao país. Uma pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) revelou que 77% dos eleitores húngaros apoiam a permanência na UE e 68% desejam ao menos alguma mudança na forma como o país se relaciona com o bloco.

Implicações regionais e globais

A eleição húngara atraiu a atenção de Washington, Bruxelas, Kyiv e Moscou, pois seu resultado pode redesenhar o alinhamento geopolítico da Europa Central. Uma eventual derrota de Orbán, aliado próximo do presidente russo Vladimir Putin, privaria o Kremlin de seu principal parceiro dentro da União Europeia e poderia desbloquear um empréstimo de 90 bilhões de euros fundamental para o esforço de guerra da Ucrânia.

Além disso, a vitória do Tisza abriria caminho para a liberação de cerca de 17,4 bilhões de euros em fundos europeus suspensos devido a preocupações com o Estado de Direito na Hungria, além de representar um revés significativo para o movimento conservador internacional, que via no modelo de “democracia iliberal” de Orbán um projeto de inspiração para a direita radical ao redor do mundo.

O que está em jogo

Os húngaros demonstraram nas urnas um desejo de mudança que transcende as preferências partidárias. Um levantamento do ECFR revelou que 45% dos próprios eleitores do Fidesz também desejam uma nova abordagem do país em relação a Bruxelas, e 65% deles continuam apoiando a permanência da Hungria no bloco europeu.

Entre as principais propostas de Magyar estão:

  • Implementação de medidas anticorrupção e adesão à Procuradoria Europeia;
  • Reaproximação com aliados ocidentais e destravamento dos fundos europeus congelados;
  • Reversão das reformas consideradas autoritárias promovidas por Orbán;
  • Manutenção, contudo, de políticas conservadoras no combate à imigração.

Viktor Orbán, por sua vez, construiu sua campanha em torno do binômio “paz versus guerra”, acusando o adversário de pretender arrastar o país para o conflito na Ucrânia – alegação que Magyar nega veementemente. O premiê também assegurou que, em caso de vitória da oposição, aceitará o resultado e felicitará o vencedor, afirmando que “a vontade do povo deve ser respeitada”.

Observação internacional e próximos passos

A Missão Internacional de Observação das Eleições, composta por representantes da OSCE, do ODIHR e da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE), enviou mais de 350 observadores para todo o território húngaro. A delegação inclui, de Portugal, os deputados Luís Graça (socialista e vice-presidente do órgão) e António Rodrigues (PSD).

Nas eleições legislativas de 2022, os observadores concluíram que, embora o processo tenha sido bem organizado, houve “sobreposição generalizada das mensagens do governo e da coligação governamental, que esbateu a linha entre Estado e partido”, além de viés mediático e financiamento opaco de campanhas.

Os primeiros resultados preliminares devem ser divulgados pelo Escritório Nacional de Eleições após o fechamento das urnas. Se a disputa for acirrada, a proclamação do vencedor pode levar até o próximo sábado (19), quando a contagem total dos votos for concluída.

Com informações de G1, BBC News Brasil, CNN Brasil, UOL, Euronews, Expresso, DN, SIC Notícias, The Guardian, CBC News, DW, Al Jazeera, Reuters, AP, Xinhua, Anadolu Ajansi, BBC, RFI, AFP, Lusa ■

Mais Notícias