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A manhã do último domingo (19) em Shreveport, na Louisiana, foi marcada por uma barbárie íntima e devastadora: oito crianças, com idades entre um e 14 anos, foram executadas a tiros pelo próprio pai, um veterano do Exército, em um ataque que chocou a comunidade local e rapidamente dominou os noticiários nos Estados Unidos e no mundo. A comoção foi imediata. O presidente, o governador, a imprensa — todos se mobilizaram em um ritual já conhecido de perplexidade e luto. Enquanto isso, a apenas algumas horas de distância, em termos de fuso horário, mas a uma distância abissal em termos de interesse midiático, civis no Irã, em Gaza e no Líbano continuavam a morrer sob bombardeios, suas tragédias tratadas como “consequências da guerra” — uma expressão que, décadas atrás, o então presidente Bill Clinton já havia usado para explicar a morte de dezenas em um hospital em Belgrado.
Essa disparidade na forma como o sofrimento humano é valorizado e noticiado não é um acaso. Ela é o produto de uma “cultura do medo” cuidadosamente alimentada nos Estados Unidos — um tema central do documentário Bowling for Columbine (2002), de Michael Moore — e de uma “hierarquia da morte” que rege a cobertura da mídia global, na qual vidas em solo doméstico valem mais do que vidas em terras estrangeiras, sobretudo quando estas são árabes, muçulmanas ou não-brancas.
A cultura do medo e o caso Shreveport: quando a tragédia é nacional
Em Bowling for Columbine, Michael Moore desconstrói a narrativa de que a violência armada nos EUA é fruto apenas da facilidade de acesso a armas. Sua tese central, amplificada pela fala do músico Marilyn Manson no documentário, é a de que a verdadeira raiz do problema é uma “cultura do medo” fabricada e perpetuada pela mídia, pela indústria do entretenimento e pelo discurso político. Essa cultura, argumenta Moore, mantém a população em estado de alerta e paranoia, fazendo com que cada tragédia doméstica — como o massacre de Columbine em 1999 ou o de Shreveport agora — seja vivenciada como um ataque pessoal e uma falha do tecido social, gerando comoção e, paradoxalmente, mais medo e, consequentemente, mais consumo de armas.
O massacre de Shreveport se encaixa perfeitamente nesse ciclo. As oito crianças mortas são apresentadas como “nossas crianças”, a violência como “nossa falha coletiva”. A cobertura é intensa, emotiva e exaustiva. A resposta institucional é rápida, ainda que ineficaz em termos de políticas de controle de armas. O medo gerado é capitalizado pela mídia, que o transforma em audiência, e pela indústria de armas, que o transforma em vendas.
Clinton, Belgrado e a banalização da morte alheia
O ponto de inflexão que ilumina essa dualidade foi fornecido pelo próprio Bill Clinton em 20 de abril de 1999. Naquela data, o então presidente primeiro anunciou, com relativa frieza, a explosão de um hospital em Belgrado — a Sérvia estava sendo atacada pela OTAN — que vitimou quatro dezenas de pessoas entre profissionais de saúde e pacientes, classificando o ocorrido como “consequências da guerra”. Poucos minutos depois, em tom de choque e comoção no mesmo púlpito, ele se dirigiu à nação para lamentar as oito mortes em Columbine. A diferença de tratamento entre uma tragédia distante e uma tragédia doméstica, mesmo que esta tivesse um número menor de vítimas, não poderia ser mais gritante. A fala de Clinton encapsula a lógica subjacente à hierarquia da morte: vidas em solo estrangeiro, sobretudo em zonas de conflito, são tratadas como danos colaterais inevitáveis, enquanto vidas americanas são tratadas como tragédias nacionais.
A hierarquia da morte em ação: Irã, Gaza e Líbano
Se em 1999 Clinton naturalizava a morte de dezenas em Belgrado, em 2026 a mesma lógica se aplica em escala muito maior no Oriente Médio. Enquanto oito crianças em Shreveport dominam as manchetes, números muito mais elevados de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irã são frequentemente reduzidos a estatísticas em meio a relatos de “conflitos em andamento”.
Essa disparidade é formalmente conhecida como “hierarquia da morte”. Em um artigo de 2007 no The Guardian, o jornalista apontou que “os meios de comunicação operam o que se pode chamar de hierarquia da morte”, listando critérios como: mortes estrangeiras sempre ficam abaixo das mortes domésticas; mortes em conflitos em andamento recebem menos cobertura; e mortes de não-brancos e não-ocidentais são sistematicamente desvalorizadas.
Conclusão: o preço da indiferença seletiva
Ao tratarmos a morte de crianças em Shreveport como uma comoção nacional e a morte de crianças em Gaza como uma mera estatística de guerra, estamos não apenas falhando em nossa humanidade, mas também alimentando o ciclo de violência que a “cultura do medo” tanto explora. O paralelo entre a reação de Bill Clinton em 1999 e a cobertura atual dos conflitos no Oriente Médio é brutalmente esclarecedor: a barbárie que ocorre além das fronteiras do Ocidente é sistematicamente desumanizada, banalizada e, em última instância, normalizada. Enquanto não rompermos com essa hierarquia da morte e com a cultura do medo que a sustenta, continuaremos a nos surpreender com a violência em casa enquanto ignoramos a violência que ajudamos a financiar e legitimar no exterior.
Com informações de Al Jazeera, Associated Press, BBC News, Common Dreams, G1, The Guardian, The New York Times, The Wikipedia, UNICEF, The Wall Street Journal ■